Pedagogia Avaliar ou não avaliar, eis a questão!
Jornal de Espiritismo nº 32 · Janeiro 2009Página 155 min
Tem sido tema de debate e controvérsia, a nível nacional, a avaliação. Mais precisamente a avaliação dos professores. Perguntarão: mas que tem isto a ver com espiritismo? Que relação existe entre a avaliação e uma filosofia de vida? Quisemos investigar essa relação, a nosso ver pertinente, e quiçá promotora de refle- xão individual. Avaliar significa apreciar, reconhecer, julgar, determinar, calcular a valia, o merecimento, a força de algo ou alguém.
É portanto uma apreciação exterior, e como tal parte-se do princípio de que quem ava- lia detém o Conhecimento, a Verdade, pois senão não poderia fazê-lo. Este pressuposto logo à partida levanta dú- vidas: quem pode assumir-se conhecedor de si e do outro a ponto de avaliar, isento de qualquer preconceito à priori, os actos, a inteligência, a capacidade, o desenvolvi- mento moral de alguém? Tornemos a questão mais prática: depois de um plano traçado, com objectivos a atingir, é óbvio que deve existir uma avaliação final do que foi projectado.
E quem vai avaliar? O projectista ou o executor do projecto? Quem melhor conhece as dificuldades e os êxitos por que passou, para alcançar determinados fins, senão aquele que os vivenciou? Estamos sujeitos a avaliações exteriores desde cedo. Logo desde a infância, mal entra para a escola, a criança percebe que todo o seu sucesso passa por obter uma “boa nota”. Não lhe é incutido o estímulo para a descoberta das suas próprias poten- cialidades, mas sim o de competir com um número ou uma qualificação na caderneta.
À medida que as exigências aumentam, com mais disciplinas, mais horas na escola, diminui na mesma proporção a sua auto- nomia de escolher o que deseja aprender, e a vontade de se superar a si mesma: ela só tem de cumprir com as regras, e ter as tais “notas” suficientes para se manter ligada ao sistema. Nunca lhe “passa pela cabeça” reflectir sobre a avaliação, se esta deve ou não existir, quem deve ou não avaliar. Não se lhe pede para pensar, mas sim para agir, ou melhor, para memorizar, fixar, decorar, o que “alguém” decidiu por ela ser o ideal, ser bom, ser útil… Aprende a corresponder às expectativas dos outros, para obter aprovação.
Não aprende a conhecer e reconhecer o fracasso como estímulo a novas desco- bertas; não aprende a autoquestionar-se ou a questionar os outros; não aprende a seguir as necessidades individuais, trazidas pela intuição de experiências pretéritas; não aprende a sentir vontade, mas a “ser” porque “tem de ser”! Vejamos uma situação corrente: dois edu- candos fazem um teste de avaliação à dis- ciplina de ecologia; um tem 15 valores e o outro 7 valores.
O que tirou nota positiva sai do exame e depois de comer um iogurte deita o frasco para o chão; o que tirou nota negativa, chega a casa e faz reciclagem do lixo. O que realmente foi avaliado? A capacidade de “saber” ou de “ser”? É certo, ter o conhecimento mostra cami- nhos, mas não determina a automática assimilação do que aprendeu. Quando jovem vê-se num curso que o escolheu (ao invés de ele escolher o curso), mais uma vez… pela nota.
Ninguém lhe perguntou se estava motivado, se lhe in- teressavam as disciplinas, se esta lhe servia para alcançar o que sonhou para o seu futuro! Como disse o escritor e pedagogo Rubem Alves, mais valia que fizessem um sorteio para determinar quem entraria na univer- sidade: as escolas não perderiam tanto tempo a preparar os jovens para exames, e assim “seriam livres para ensinar”! Já adulto, segue pela vida fora a ser avalia- do, não pelo que “é”, pelo que realmente aprendeu, mas pelo que demonstra “ser”, constantemente, para satisfazer as exigên- cias.
Aliás, a maior parte da informação avaliada na escola, perdeu-se rapidamente. Nunca mais relembra a tabuada (para isso tem máquinas de calcular), nem onde ficam os rios e as serras (tem o Google), nem quais as fórmulas químicas ou as características dos seres vivos. Reteve apenas o que lhe serviu para a vida! E de que lhe serviu esta avaliação? Para nada. A educação não tem por objectivo simples- mente decidir o que se pode fazer com uma criança, ou muito menos de examinar as suas aptidões; o seu destino é ser res- ponsável, as suas faculdades, a de um ser razoável e moral, disse-o Pestalozzi há 200 anos.
Sendo assim, e relembrando as palavras de Jesus, o Educador exemplar, “Não julgueis a fim de não serdes julgados”, a avaliação deve partir de dentro de cada um, a auto- -avaliação de quem é, do que pretende ser e como deve fazer para atingi-lo. O espiritismo esclarece-nos quanto a isso: cada indivíduo tem uma singularidade mui- to própria, adquirida nas experiências de vidas anteriores, logo não é possível definir metas a atingir idênticas para todos e muito menos avaliar todos do mesmo modo.
Isto serve para a escola, para o trabalho, para o centro espírita, para a família. A avaliação feita pelo outro é assim uma perda de tempo, pois de nada serve se o avaliado estiver em desacordo ou se simplesmente estiver na busca de interes- ses que nada têm a ver com os parâmetros pelo qual o avaliam. E sabendo disto, porque teimamos em avaliar? À medida que as exigências aumentam, com mais disciplinas, mais horas na escola, diminui na mesma proporção a sua autonomia de escolher o que deseja aprender, e a vontade de se superar a si mesma.
Porque o homem tem um desejo premente em se colocar acima dos outros. Eis de onde lhe vem a fraqueza (Rousseau); seria muito mais forte se se contentasse em ser simplesmente aquilo que é! Avaliar o outro é uma forma de expressar o orgulho. Detentor da verdade, o avaliador não prima por conhecer verdadeiramente aquele que avalia, mas por torná-lo submis- so ao seu julgamento. A avaliação só tem cabimento, quando feita pelo próprio, numa perspectiva constru- tiva de aprimoramento individual: o que devo fazer para aumentar o meu conhe- cimento, as minhas virtudes?
Como vou superar estas dificuldades? Que etapa devo encetar para concretizar os meus projectos? Aprendi algo? Não aprendi? Porquê? O que preciso aprender? Eis a única avaliação conforme às leis uni- versais, e que o espiritismo nos demonstra através da compreensão de um criador Jus- to e Perfeito, que não condena, não julga, nem avalia ninguém. Cada um é responsável pelos seus actos e sentimentos, cada um constrói o seu pró- prio caminho, estando pois nas suas mãos, e não nas dos outros, o ser bem sucedido nas provas a que se propôs ultrapassar!
Por Regina Saião reginasaiao@gmail.com apedagogiaespirita@gmail.com www.apedagogiaespirita.
