Crónica O mandamento áureo foto loucomotiv Durante a última ceia, numa
Jornal de Espiritismo nº 33 · Março 2009Página 127 min
doce convivência a poucas horas da sua iminente Paixão, Jesus fazia aos apóstolos carinhosas recomendações. Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros. Não conheço aramaico, a língua em que Jesus se expressava. Mas o texto latino da Vulgata (mandatum novum do vobis) talvez sugira mais a própria ideia de um mandato, uma investidura, do que a de mandamento, preceito.
Na verdade, o amor não se ordena, não se decreta, e, uma vez desperto no íntimo de cada ser, resplende com a espontaneidade duma função natural, que realmente é. Sem dificuldade se aceita que o Rei do Amor mandatou os seus seguidores na singela, mas altíssima, função de amar sem limites: “como eu vos amei”. Dezanove séculos volvidos, vem o prometido Espírito de Verdade insistir na relevância do amor, agora como um ensinamento: “Espíritas, amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo”, deixando-nos entender que o segundo é uma via conducente ao primeiro.
O amor implica sobretudo a ideia de dar. No seu actual estágio evolutivo, a criatura humana ainda lhe associa muito a ideia de receber, confundindo-o mais com uma falta, uma carência que espera suprir através do receber; receber de outrem algo de que se sente carecido. Não é raro ouvir quem ama, dizer que precisa do ser amado, como se o amor fosse uma necessidade ou uma cobrança. Uma forma muito nobre de amor, a caridade (sua faceta mais sublime, na expressão de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO) encontra-se no perdoar.
Como indica a etimologia da palavra, perdoar carrega a ideia de doar, ou dar, reforçada pela partícula per, que nesta e em muitas outras palavras, tanto em Latim como na nossa Língua, tem o sentido de acentuar, reforçar (perfazer, perdurar, perfurar, etc.) Perdoar, atitude fundamental na vivência cristã, contém portanto a ideia de dar. Dar o quê? Dar ao próximo a libertação dos laços opressivos do nosso ressentimento, da nossa mágoa, despeito, condenação; é dar-lhe paz, libertá-lo de vibrações asfixiantes do nosso ego.
Caso contrário, o próximo, que até pode não as sentir conscientemente, se estiver vulnerável é sempre molestado no plano inconsciente, por aquelas energias agressivas. Antes, porém, já elas começaram a produzir desarranjos na fonte, isto é, na nossa própria organização mental e biológica, se não as tivermos controlado. E se deixarmos acumular na mente esse padrão de energias malévolas e tóxicas, quando elas atingirem um ponto de saturação vão expressar-se materialmente no nosso próprio organismo sob a forma de mal estar, ou até de enfermidade mais ou menos grave, segundo a natureza e intensidade das ditas energias.
É a emotividade ruim a somatizar-se em disfunção e sofrimento, na própria fonte. No plano físico, se eu der do que possuo, fico com menos. Se eu tiver um bolo e der a alguém uma porção, certamente vai restar menos na minha posse. No plano mental, não é assim. Se eu der (emitir) um pensamento, ele não diminui. Mesmo dado na totalidade, ele continua todo meu, domiciliado na minha mente. E mais: se o meu parceiro/alvo aceita esse pensamento como próprio, reforça-o também, não só na sua mente e na minha, como ainda na psicosfera que envolve a ambos (e não apenas eles).
Recordemos o ensinamento de Jesus, em Mateus 18.19: se dois de vós se unirem, na Terra, para pedir alguma coisa, obtê-la-ão de meu Pai que está nos céus. Foi nessa mesma ocasião que o Rabi respondeu à conhecida pergunta de Pedro, sobre quantas vezes deveria perdoar: Não te digo que perdoes sete vezes, Pedro; mas setenta vezes sete vezes. E Jesus prosseguiu o discurso com mais uma bela parábola em torno do perdão. Voltando à ideia de dar, consideremos outra passagem do Evangelho, em que o Mestre ensina: Dai e dar-se-vos-á: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante, será lançada no vosso regaço… A medida que empregardes com os outros será usada convosco (Lucas 6.
38). Vemos, pois, que no plano mental dar e receber são recíprocos, reforçam-se mutuamente. Ao longo das nossas existências, por toda a Terra, no plano mental temos dado e recebido muito entre nós: entre indivíduos, entre grupos sociais, entre nações. Em média, parece que temos dado muito mal, porque o panorama global é desolador: guerras, fome, doença, sofrimento, carências de toda a ordem, inclusive de meios elementares para sobreviver.
Tudo isso (tal como o seu reverso: paz, bem-estar, prosperidade) não provém de lado nenhum senão do gerador inesgotável que são as nossas mentes. Na verdade, pensar é uma forma de darmos. Predominando muito mal no nosso pensar (medo, ansiedade, desconfiança, egoísmo, intolerância, ira, inveja, soberba, desdém…), logicamente estamos a dar e receber muito mal, impregnando de energias corrosivas o ambiente e afectando todos.
Na verdade, o amor não se ordena, não se decreta, e, uma vez desperto no íntimo de cada ser, resplende com a espontaneidade duma função natural Cabe pois a cada um de nós vigiar-se, projectar da mente o seu melhor, o mais fraterno, mais generoso, corrigindo escrupulosamente tudo aquilo que tenda a vibrar em contrário, no nosso íntimo. E logo veremos o retorno correspondente. Pode-se fazer uma experiência muito simples e muito eficaz: Quando precisarmos de falar com alguém de quem dependa um assunto de nosso interesse, primeiro recolhamo-nos por breves minutos a orar por essa pessoa, pensando nela como um filho de Deus criado para ser perfeito, sábio e feliz; que está na Terra, tal como nós mesmos, para ir progredindo em luz, renovação íntima, auto-realização.
Se pusermos nessa atitude mental toda a sinceridade e convicção, seremos surpreendidos pelo nosso interlocutor com toda a simpatia do seu melhor acolhimento. Quando um bom número de pessoas em todo o mundo passar a agir positiva e construtivamente na esfera psíquica, rapidamente veremos surgir um mundo novo, harmonioso, equilibrado. Os pensamentos, ao serem “doados” aumentam, pois, o seu potencial. Quanto mais convictamente os irradiarmos da nossa mente em direcção a mais e mais pessoas, mais eles se nutrem e revigoram em capacidade de concretização.
Na primeira metade do século passado, o astrofísico Sir Arthur Eddington concluía, nas suas investigações sobre teorias de Física: a matéria-prima do Universo é a mente. Exprimindo a mesma ideia em termos diferentes, podemos dizer: todos os seres _ uma planta, um insecto, um animal de grande porte, um astro, uma galáxia, as nossas instituições terrenas _ todos os seres são uma ideia, uma forma-pensamento irradiada da Mente divina, ou da humana.
Cerca de cinco séculos a.C., o filósofo grego Anaxágoras afirmava: O que vemos, é a materialização do que não vemos. O que não vemos, é; o que vemos, não é. Não logrou dar expressão científica ao postulado que intuiu com tanto acerto, o que só veio a concretizar-se dois mil e quinhentos anos mais tarde, com as famosas equações (einsteinianas e outras) que revolucionaram a Humanidade. Quando concentramos o pensamento na perfeição dos seres, estamos a dar-lhes (e a receber) isso mesmo: perfeição, harmonia, a natureza e destino maravilhosos de criação divina, que lhes são intrínsecos.
Estamos a trabalhar, com Cristo e os ensinamentos do seu Evangelho, na estruturação dum mundo novo, de patamar evolutivo muito mais elevado: um mundo em regeneração. O mais comum da Humanidade ainda “pensa” as outras pessoas como um concorrente, um rival, um possível adversário, um eventual perigo ou ameaça. Contudo a História também regista ocorrências individuais (e mesmo de grupos) de alta espiritualidade, que floresceram quer em ambiente de religiões formais quer com distanciamento de qualquer delas, e deixaram um rasto de edificante perfume para os concidadãos do seu tempo e para os vindouros.
Francisco de Assis (1182-1226) sentia em cada ser (pessoa, coisa ou animal) uma expressão harmoniosa e bela da criação divina. Com simplicidade e pureza de alma, em tudo se afinizava e irmanava: no irmão Sol, irmã Lua, irmã ave, irmã flor, irmão lobo, irmão fogo. Indiferente aos seus padecimentos físicos muito severos, vivia feliz, socorria enfermos e necessitados, cantava louvores ao Criador. A harmonia e paz que da sua mente se derramava em torno, ainda hoje, oito séculos volvidos, contagiam quem se abeira dos locais ou literatura relacionados com a sua presença na Terra.
Francisco exerceu primorosamente o “mandato” de amor que o Mestre lhe confiara. Também outros o têm feito, conhecidos ou não, seguidores de uma ou de outra denominação religiosa, ou de nenhuma. A mais elevada espiritualidade pode despontar de dentro duma instituição confessional, mas não depende necessariamente de nenhuma. O mais salutar cristianismo pode até vicejar melhor, à distância de confissões cristãs formais, dogmáticas.
Uma página mediúnica de Emmanuel, através de Chico Xavier (O Livro das Respostas) diz-nos acerca dos Recursos Materiais: No domínio das possibilidades materiais, as lições são diversas. O que guardas, talvez te deixe. O que desperdiças, com certeza te acusa. O que emprestas, te experimenta. Em verdade, só te pertence aquilo que dás (sublinhado meu). É certo que o iluminado mentor se referia aos bens materiais. Mas se transpusermos o elevado conceito para o plano da nossa actividade mental, ele funciona aí perfeitamente, ilustrando não só a relação entre dar e receber como também a inteira pertinência do mandamento áureo: amai-vos.
