Entrevista Entrevista com Julieta Marques Maria Julieta da Conceição M
Jornal de Espiritismo nº 33 · Março 2009Página 117 min
Entrevista Entrevista com Julieta Marques Maria Julieta da Conceição Marques nasceu na Chamusca, distrito de Santarém no di a 21 de Abril do ano de 1938 e colabora na Associação Espírita de Lagos desde o ano de 1961. Como conheceu o espiritismo? Julieta MarquesOuvi falar de Espiritismo em primeira mão através da minha avó em Luanda, Angola, pelos meus 14 anos, mas ela seguia o Racionalismo Cristão de Luís de Matos. Confesso que não me interessou, embora meu espírito proundamente místico e religioso.
Quando em 1960 vim para Lagos viver, ouvi falar do mesmo tema e aí sim, interessei- -me, simples curiosidade em princípio. Queria ver o que “isso era”, mas a verdade é que me apaixonei pela Doutrina Espírita e essa paixão dura até aos dias de hoje. As circunstâncias foram curiosas: fui falar com uma trabalhadora da casa que me pediu sigilo de minha entrada na associação espírita e que estivesse lá pelas 20h30. Tudo era proibido e falado à boca pequena.
Pertence à associação espírita mais antiga do país. Havia dificuldades no tempo de Salazar? Julieta MarquesImensas! Começava pela falta de liberdade em nos reunirmos: só eram autorizadas 15 pessoas, sob pena de prisão se houvesse mais gente. Depois não havia contactos. O movimento estava disperso, ninguém sabia de ninguém. Não havia correspondência com quem quer que fosse. As duas únicas revistas que nos chegavam eram ESTUDOS PSÍQUICOS e FRATERNIDADE, esta existe até hoje.
Quase não tínhamos livros para estudar e as reuniões resumiam-se à mediunidade, atendimento fraterno e passe magnético. Tem alguma história pitoresca dessa época? Julieta MarquesCerta noite antes do início dos trabalhos, batem à porta com certa violência Ao abri-la deparámos com quatro soldados da GNR com espingardas ao ombro. Vinha buscar nosso irmão Francisco Rafael, que era quem superintendia a tudo eomédium por excelência em vidência, clarividência e audição.
Ficámos assustadas, e lá foi ele. Como mais jovem pedi que não nos retirássemos e ficássemos em oração por mais algumas horas, isto eram 20h45. Quando era 1 hora da madrugada sem nada sabermos do que estava a acontecer, decidimos ir para casa. Na manhã seguinte procurei inteirar-me da situação ao que fui informada de que tudo estava bem e que nosso irmão tinha vindo dormir a casa. Que acontecera então? O filho do sargento era vítima de grave obsessão.
Já tinham corrido tudo com o jovem e nada de ajuda. Alguém falou ao sargento de nossa casa e do nosso Rafael. Bom, o rapaz ficou livre do obsessor e nós sorrimos felizes. Quais as personalidades espíritas que mais a marcaram nessa época? Isidoro Duarte Santos, sua esposa ou outros? Julieta MarquesSem dúvida o tenente Isidoro Duarte Santos era uma figura carismática, simpático, afável, sorridente e gentil por excelência.
Mas outros me marcaram, como Casimiro Duarte, Sr.ª D. Maria Raquel Duarte Santos que viveu momentos atribulados após o desencarne de seu marido e quando teve, por inerência das circunstâncias, de ocupar o cargo de presidente da Federação Espírita Portuguesa. Eduardo de Matos, com seu jeito intempestivo, dinâmico e arrojado. Prof. Francisco Cabrita, homem ponderado, muito introvertido, mas bom espírita. D. Maria Luísa Cardoso, ela também grande dama do Movimento.
Divaldo Franco quando nos visita pela primeira vez em 1967 e quando tudo era menos complicado, pois que eram as instituições que se quotizavam para lhe pagar as viagens. Todos me marcaram pela positiva, pois que os exemplos de vida eram gigantescos, e eu era uma menina no meio de tanta gente crescida... A Doutrina é uma coisa maravilhosa, nós é que ainda não nos enquadramos verdadeiramente dentro de seus postulados, por isso as diferenças de posição e opinião.
Coisas dos homens! O Espiritismo é muito respeitado em Lagos, pelas entidades oficiais, onde têm desenvolvido várias actividades: que têm feito? Julieta MarquesNaturalmente que tem sido um trabalho de anos, dando muita dignidade ao que fazemos, dando exemplos de cidadania e respeitabilidade dignos de nota. Somos por isso ainda hoje uma referência. Conseguimos que nos respeitassem e nos aceitassem, o que é muito importante.
Porquê? Sempre que realizávamos qualquer evento sempre enviámos o programa e o convite pessoal a todas as entidades oficiais, Câmara Municipal, Juntas de Freguesia, GNR, Guarda Fiscal, Cruz Vermelha. Muitos anos não vinham, depois a pouco e pouco essa situação mudou e hoje somos convidadas para fazer parte de vários eventos oficiais, como a Feira Quinhentista que se celebra de dois em dois anos, na Rede Social e até hoje nos solicitam as nossas salas para realizarem seminários, quando faltam espaços oficiais.
Fazemos hoje parte das forças vivas da cidade. Mas foi um trabalho conquistado ao longo de muitos anos. Já esteve ligada à rádio. Como foi isso? Julieta MarquesFiz um curso intensivo de programação de rádio no Brasil em 1982. Quando surgiram as rádios livres aí estou eu aos microfones com o programa «Minutos de Paz» que nos custava semanalmente 3.500$00, que pagávamos de nosso bolso. Pouco tempo após ser convidada pelo dono da rádio para ocupar o cargo de presidente da Direcção da Estação Rádio Barlavento Algarve.
Aceitei mais esse desafio. Realizei, programei e fazia a locução de mais dois programas semanais, um dirigido às crianças e outro à mulher. Valeu a pena. Hoje estamos noutra estação com 30 minutos de emissão gratuita, aos sábados de manhã. Já não sou sozinha. Era importante que outros viessem também para dar continuidade ao trabalho quando eu um dia me for... Embora sem posses já foi várias vezes ao Brasil a convite de amigos, uma delas com o objectivo de fazer palestras.
Que panorama encontrou? Julieta MarquesTenho tido essa bênção de conquistar amizades que me convidam quando eu menos espero. Tenho feito palestras por todo o Brasil, graças a Deus. O panorama foi muito bom. Para além de ser sempre muito bem recebida, vi que havia um clima de família espírita. Conheci Deolindo Amorim, Hernâni Guimarães de Andadre, Jorge Andrea, Pedro Franco Barbosa, Espírito Santo, da Bahia, Chico Xavier, Henrique de Magalhães e muito outros.
Isto nos anos 80. Depois comecei a perceber algumas dificuldades de relacionamento entre grupos, e hoje, como o movimento cresceu muito mais, naturalmente que as coisas tomam proporções idênticas. A Doutrina é uma coisa maravilhosa, nós é que ainda não nos enquadramos verdadeiramente dentro de seus postulados, por isso as diferenças de posição e opinião. Coisas dos homens! Tem efectuado muitas palestras de norte a sul de Portugal: qual a sua radiografia do espiritismo em Portugal?
Julieta MarquesDesde Bragança, a Olhão, tenho na verdade divulgado a grande boa nova. É importante que nos conheçamos, que nos visitemos, que abramos as nossas casas para ouvir outros, conhecer outros irmãos de ideal nem melhores, nem piores, são como sãoedão o melhor de si mesmos no trabalho que realizam. Neste momento o movimento cresceu muito e as estruturas estão a ceder, face à não correspondência que o movimento exige de coerência nos actos com o que se divulga.
Mas creio que um dia todos acertaremos o passo na mesma direcção e então sim, seremos uma grande e unida família, a família espiritual. Afinal porque esperamos? Porque há casas onde não entra um convidado para fazer uma palestra? Porque há descriminação entre uns que são federados e outros que não são e outras tantas coisas mais. Conte-nos um ou dois casos de evidência da imortalidade que mais a marcaram na sua vida.
Julieta MarquesMeu pai não era religioso, até ao dia em que começa a ter vidência e se transforma num ferveroso crente em Jesus e a Doutrina Espírita que busca conhecer. Quando se referia a Jesus ele sempre dizia: O Meu Senhor Jesus Cristo! Depois foram as reuniões de materialização de Espíritos, no Rio de Janeiro. E muitas outras coisas lindas que tenho tido a felicidade de viver. Na sua opinião o que falta fazer para levar o espiritismo a quem não o conhece?
Julieta MarquesExemplos vivos de nossa doutrina. Não basta apregoar, é preciso demonstrar pela prática o que os Espírito nos vieram dizer. Não basta o rótulo, é precisa a exemplificação viva, para activar nos outros o desejo de nos seguirem, enquanto isso não acontecer, tudo vai acontecendo muito devagar, demasiado devagar para as necessidades morais de melhoramento da sociedade, que somos nós também. Como podemos ajudar a sociedade a tornar-se melhor neste momento actual?
Julieta MarquesNão nos fechando para o mundo dentro de “nossas capelas”, julgando-nos melhores do que os demais. Colaborando em todas as situações em que possamos ser úteis e com um comportamento exemplar para podermos servir de estímulo para outros. Agirmos conforme falamos, com gentileza, amabilidade, disponíveis para servir onde e quando formos chamados a isso. Diz-nos o Prof. Herculano que se soubéssemos o que é Espiritismo por certo o mundo estaria bem melhor pelo nosso esforço na sua divulgação.
Parece que instrução, conhecimento da doutrina temos, mas o Amor... Por onde anda ele? Se alguém o encontrar que diga, por favor! Afinal porque esperamos? Porque há casas onde não entra um convidado para fazer uma palestra? Porque há descriminação entre uns que são federados e outros que não são e outras tantas coisas mais. Aproximemo-nos, afinal Jesus e o Espírito de Verdade só nos pedem que nos amemos e instruamos.
Parece que instrução, conhecimento da doutrina temos, mas o Amor... Por onde anda ele? Se alguém o encontrar que diga, por favor!
