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Crónica As asas de Almiro Ela é a Isaura, uma amiga de longa data

Jornal de Espiritismo nº 36 · Setembro 2009Página 103 min

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Traz sempre nos olhos as saudades da sua Angola natal, e quando vou lá a casa, é sempre com gosto que exploro as centenas de fotos e de histórias da vida da família nos grandes espaços africanos. Habitante desta Europa acanhada e superpovoada, acima de tudo fazem-me sonhar as imagens e os relatos das viagens de avioneta, que eles usavam como nós cá usamos o automóvel.

Orgulhosíssima do pai, que a levava a passear nos céus de África, pilotando ele mesmo, a Isaura faz questão de ostentar uma elegante tatuagem, réplica do brevet, a que ela chama “as asas do meu pai”. Um dia a moto da Isaura avariou aqui perto de minha casa. Bateu-me à porta, guardei a moto na garagem, dei-lhe uma boleia até casa e prometi arejar os meus dotes de mecânico. Quando passada uma semana voltou a aparecer, estranhei não a ver sorrir quando lhe disse que já tinha moto outra vez.

“Está tudo bem contigo?” – perguntei. Duas grossas lágrimas rolaram-lhe pela face. “O meu pai morreu...” – respondeu-me. Fiquei petrificado. Mas ainda mais quando ela me informou, com uma calma estranha, os seus planos de acelerar até ter um acidente fatal. Pretendia assim, nas suas palavras, “ir ter com o pai”. Só a deixei sair quando me prometeu solenemente não o fazer: “Promete-me, pelo amor que tens ao teu pai, que não o fazes.

Sabes que sou espírita, e tenho a firme convicção de que essa é a maneira mais segura de não ires mesmo ter com ele!”. Ela foi embora com um dilema. E eu ganhei o meu brevet imaginário de “evitador” de suicídios. O pequeno inconveniente prático que sobrou desta conversa foi que fiquei com uma caixa com as cinzas do Sr. Almiro à minha guarda. Ela confiou-mas, pois lá em casa reinava grande polémica. A mãe não queria as cinzas lá em casa, pois tinha medo.

A irmã mais velha achava que deviam ser deitadas ao mar, “para o pai ir correr mundo”. E a Isaura não queria “separar-se do pai”. “Isto não é o teu pai…” – lembrei-lhe delicadamente. Mas ainda era tudo muito de chofre. Nessa sexta-feira ela pisou pela primeira vez um centro espírita, a convite meu. A essa sexta-feira seguiram-se outras. Algumas palestras depois, ela tinha ganho, em relação à mãe e à irmã, uma visão muito mais clara das coisas.

Há quem não aceite, e está no seu pleno direito, mas ela entendeu e aceitou a visão espírita e cristã das coisas: o pai não morrera; o que morre é o corpo material; o pai estava mais vivo que nunca; ela ia esperar; ela ia aguentar a dor da ausência sem abreviar os seus dias na Terra. Restava a questão logística das cinzas do Sr. Almiro, seu pai, ex-piloto de aviões em Angola, que ocupavam ainda uma prateleira do meu quarto.

Para mim seria indiferente, mas a pressão da mãe e da irmã dela continuava. Um dia pediu-me que a acompanhasse, para fazer a vontade à família e se desfazer das cinzas como lhe haviam mandado. Fomos até ao mar. O dia estava chuvoso, como ela, que chorava copiosamente, sem conseguir fazer o gesto decisivo. Eu, sem saber o que fazer, pedi ajuda do Alto para me safar desta invulgar situação. Eis que então começamos a ouvir um zumbido discreto, porém crescente.

Olhamos para todo o lado. Um espaço abre-se entre as nuvens, irrompem raios gloriosos de sol, num cenário de beleza indescritível, e uma avioneta prateada emerge, vagarosamente, como que sorrindo para nós. Não sonha, o piloto dessa aeronave, como foi útil a sua aparição! Fomos embora, de alma lavada. Não sei o que aconteceu às cinzas do Sr. Almiro. Da última vez que vi a Isaura, contou-me que numa destas manhãs primaveris, ainda mal acordada, viu o pai, vestido com uma espécie de roupa à laia de um macacão branco e luminoso.

Segundo ela, o pai esfregou as mãos e disse: “Bom, isto está resolvido, agora vou trabalhar!”.