Entrevista espiritual, tudo isso influenciou até hoje suas actividades
Jornal de Espiritismo nº 40 · Maio 2010Página 99 min
no movimento espirita? Gilmar C. TrivelatoSabemos, através do ensino dos benfeitores espirituais, que as características da personalidade do espírito encarnado, positivas ou negativas, não têm relação com a herança genética. Portanto, nascer numa família com carisma espiritual, tal como se expressou, não assegura a ninguém qualquer qualidade moral, ou que herdará o carisma de seus parentes ilustres.
Mas, nascer numa família com tradição forte espírita, com figuras que foram pioneiras no movimento espírita brasileiro, sem dúvida alguma constitui uma valiosa oportunidade para o espírito reencarnado. Considero que essa oportunidade nos foi concedida não por mérito, mas por acréscimo da misericórdia divina. Muitas vezes os espíritos mais necessitados de orientação espiritual e de reajustes morais reencarnam em famílias que contam com espíritos mais experientes, justamente para que possam beneficiar da influência desses espíritos mais experientes e aprender com os exemplos deles.
Esse foi o meu caso! Lembro-me, desde pequeno, das histórias contadas por meus avós maternos sobre as experiências do meu bisavó “sinhô Mariano” - Mariano da Cunha Júniorque iniciou suas actividades espíritas sob a orientação do benfeitor Bezerra de Menezes, médico, quando ele ainda estava encarnado. O que mais me marcou foi seu exemplo de amor à Doutrina Espírita e de fidelidade a seus princípios, demonstrados numa época (final do século XIX e início do século XX) em que ainda era um desafio ser espírita no Brasil.
Ele enfrentou muitas adversidades, calúnias, perseguições, mas sempre se mostrou fiel a Jesus e Kardec. Além disso, viveu de uma forma simples, dedicando quase todo o tempo que disponha a auxiliar seus irmãos mais necessitados, em particular os doentes do corpo e do espírito. Lembro-me também de muitas histórias de Eurípedes Barsanulfo, sobrinho do “sinhô Mariano”, contadas por meu avô ou tios e tias que conviveram com ele e foram seus alunos no Colégio Allan Kardec.
Essas histórias constituem exemplos vivos de amor e sabedoria e elevam Eurípedes à condição de um verdadeiro discípulo de Jesus. Exemplos como esses marcam a nossa mente infantil e, com certeza, servem como estímulo para a nossa actividade no movimento espírita, principalmente nos momentos em que nos sentimos frágeis ou desanimados. Claro que nessas horas também oramos para pedir o amparo desses nossos parentes que hoje são benfeitores espirituais reconhecidos.
Mas também podemos nos sentir envergonhados perante esses benfeitores quando insistimos em percorrer caminhos contrários aos seus exemplos. E esse sentimento de vergonha moral pode ser o ponto de partida para a revisão de nossas atitudes e de buscar seguir os seus exemplos. É doutor em Ciências Ambientais. Que podemos nós fazer como espiritas, para ajudarmos a sensibilizar não só aos espiritas ainda adormecidos para esse problemas, mas aos que estão fora do espiritismo?
Gilmar C. TrivelatoA crise ambiental actual é um exemplo claro da lei de causa e efeito, que é uma das leis de Deus e constitui um dos princípios básicos da Doutrina Espírita. Os impactos negativos sobre o meio ambiente que estamos a observar na actualidade não são obra de Deus. São consequências directas do estilo de vida que a humanidade escolheu, marcado pelo egoísmo. Estima-se que o planeta Terra, com os recursos naturais existentes e auxílio dos conhecimentos científicos e tecnológicos que Deus permitiu que o homem construísse, é capaz de assegurar uma boa qualidade de vida para uma população de até cinco vezes a actual, se o homem decidir a explorar esses recursos de forma racional e baseados na lei de amor.
Mas se a humanidade insistir em trilhar o caminho do egoísmo, esses impactos se intensificarão e afectarão a vida de todos os habitantes do planeta, quer sejam do hemisfério norte ou sul, ricos ou pobres, de qualquer etnia, religião ou ideologia. Claro que os mais pobres sofrerão mais, mas ninguém escapará. Isso obrigará o homem a rever o seu modo de vida, se quiser continuar a viver neste planeta. Quanto antes mudar seu comportamento no sentido de aderir à lei do amor e uso racional de seu habitat, menor será a extensão desses impactos.
A escolha é nossa e o momento é crítico, não temos tempo a perder. Mas sou um optimista! Não acredito algum dia haverá destruição global da vida humana no planeta ou mesmo de toda a biosfera. Deviam os centros espíritas realizar trabalhos de esclarecimento a respeito do meio ambiente? Gilmar C. TrivelatoA minha sugestão é que os grupos espíritas incluam cada vez mais temas relacionados ao problema ambiental nas palestras públicas e cursos, em particular para o público mais jovem e crianças.
Deve-se mostrar claramente a relação entre o nosso estilo de vida actual e os impactos ambientais negativos, assim como a necessidade de mudanças urgentes, a começar por nós. Deve-se deixar claro também que o desenvolvimento sustentável somente é possível baseado na lei de amor. Fora dela, as consequências para o meio ambiente e os humanos serão negativas, e a vida se tornará insustentável. Foi também coordenador de estudos de grupo de jovens, seria então favorável a um trabalho de educação do ambiente com base na doutrina espírita?
Gilmar C. TrivelatoNão sou apenas favorável, considero a educação ambiental com base na doutrina espírita uma tarefa URGENTE. Recentemente a Federação Espírita Brasileira publicou o livro Espiritismo e Ecologia, cujo autor é o jornalista André Trigueiro, apresentador do “Jornal das Dez” (meia noite ou uma hora da manhã em Portugal), do Globo News. Além de jornalista premiado pela sua actuação na área de responsabilidade social e desenvolvimento sustentável, ele é espírita estudioso e praticante e escreveu essa obra pioneira.
Segundo esse autor, tanto o espiritismo quanto a ecologia oferecem ferramentas importantes para a compreensão da realidade que nos cerca. Espíritas e ecologistas investigam, cada qual a seu modo, as relações que sustentam e emprestam sentido à vida. Defendem uma nova ética, mais comprometida com interesses colectivos, e uma atenção maior com o planeta que nos acolhe. Trata-se de uma contribuição importante a ser estudada e discutida nos nossos grupos espíritas, e também uma iniciativa a ser imitada e ampliada por outros profissionais espíritas que actuam na área de meio ambiente.
De que se compõe o seu trabalho espírita no Hospital Espírita de Belo Horizonte? Gilmar C. TrivelatoParticipo de grupo de voluntários que faz estudo do Evangelho de Jesus com os pacientes internados que são dependentes químicos. Há várias equipas, mas pertenço à equipa das segundas feiras à noite. A reunião tem a duração de uma hora. Ao chegarmos ao sector dos dependentes químicos vamos aos quartos e áreas de convivência e convidamos todos para participar do estudo.
A participação é voluntária, pois não podemos impor. Emmanuel adverte que não podemos violentar consciências. Muitos que não participam na primeira vez, podem participar de outra vez em consequência da influência positiva que a reunião tem nos seus colegas. A reunião é simples, marcada pelo diálogo. Os internos têm oportunidade de participar livremente. O foco é o aspecto moral do Evangelho, mas introduzimos também comentários de princípios espíritas.
Actualmente o estudo está centrado nas bem-aventuranças, capítulo V do Evangelho de Mateus. Nem todos são espíritas, temos de ter cuidado para não ferir susceptibilidades religiosas. Trata-se de um trabalho de via dupla, pois não só transmitimos conhecimentos evangélicos como também aprendemos com as experiências deles. As reuniões correm de forma tranquila. Vez ou outra encontramos alguma dificuldade, principalmente quando a reunião ocorre depois de feriados, como o Carnaval por exemplo.
Mas sempre contamos com a protecção espiritual e nunca tivemos nenhuma situação de emergência ou que não pudesse ser contornada. Que nos pode dizer sobre a obra psicográfica de Chico Xavier? Gilmar C. TrivelatoEm poucas palavras posso dizer que a obra psicográfica de Chico Xavier é um projecto da Espiritualidade superior, com o objectivo de completar os ensinos trazidos pelos espíritos e codificados por Allan Kardec, além de reforçar a importância do Evangelho de Jesus para a doutrina espírita, embora algumas correntes que se dizem espíritas insistem a diminuir a importância de Jesus para o Espiritismo.
Nesse projecto, é evidente que Chico Xavier é o elemento central, mas trata-se de um trabalho em equipa que contou com um grupo de benfeitores espirituais, Chico Xavier, seus companheiros próximos de Pedro Leopoldo, a direcção da Federação Espírita Brasileira e da União Espírita Mineira, além de outros inúmeros companheiros espíritas, cujo número aumentou com o tempo. Mas tudo aconteceu sob a supervisão do sábio benfeitor espiritual Emmanuel.
Segundo o Chico e companheiros próximos, quem sempre deu a última palavra sobre qualquer obra foi Emmanuel. A partir de 1935, nada foi publicado sem sua revisão ou autorização. Para fins didácticos eu costumo organizar a produção mediúnica de Chico Xavier em três fases. A primeira fase eu chamo de “fase de afirmação do mandato mediúnico”, que se inicia com a publicação do «Parnaso de Além Túmulo» e termina com a publicação do livro «Nosso Lar», de André Luiz.
Essa fase inclui, além do Parnaso, as obras de Humberto de Campos e os quatro primeiros romances históricos de Emmanuel. A análise do estilo literário ou do conteúdo dessas obras são evidências incontestáveis da autenticidade do fenómeno psicográfico. Somente depois dessa fase é que se inicia a fase que denomino “fase doutrinária”, porque o foco é explicar a Codificação ou complementá-la em alguns aspectos. Essa fase é iniciada com a publicação do livro «Nosso Lar», que inicia a série dos livros de André Luiz.
Além dessa série, esta fase inclui a produção de obras que são estudos do Evangelho e da Codificação realizados por Emmanuel e de outras obras importantes de outros benfeitores espirituais, como as crónicas de Irmão X ou Hilário Silva, o livro «Voltei», dentre outros. Esta fase inclui os livros que foram publicados até aproximadamente 1970, sendo um dos últimos dessa fase o livro «Vida e Sexo», de Emmanuel. A terceira fase, que se intensifica a partir de 1970, caracteriza-se pelas obras de consolo (ou de autoajuda, em terminologia actual), com mensagens mais simples dirigidas a um público não exclusivamente espírita ou mensagens de entes queridos desencarnados para os seus familiares.
Esta fase coincide com o período em que Chico se tornou uma figura da Imprensa, em particular da televisão. Sem sombra de dúvida há muitas outras obras psicográficas recebidas por outros médiuns, que constituem verdadeiros tesouros para a Doutrina Espírita como, por exemplo, «Memórias de um Suicida». Mas nenhuma outra produção psicográfica da actualidade apresenta, no seu conjunto, as características que mencionei anteriormente, isto é, uma fase de afirmação do mandato mediúnico que precede e sustenta uma fase de produção doutrinária ou de consolo.
A minha sugestão é que os grupos espíritas incluam cada vez mais temas relacionados ao problema ambiental nas palestras públicas e cursos, em particular para o público mais jovem e crianças. Outra coisa importante a destacar é fato de que Chico Xavier teve o cuidado de não auferir qualquer vantagem pessoal com a sua obra psicográfica e de doar os direitos autorais das obras de maior densidade doutrinária a editoras cuja finalidade é a própria divulgação da doutrina em si, e não a obtenção de recursos para manter obras sociais, mesmo que louváveis.
Não temos nada contra o facto de recursos obtidos através de uma publicação espírita dê suporte a um projecto social. O próprio Chico fez doações de direitos autorais para várias organizações assistenciais, principalmente de obras que visavam o consolo, autoajuda, mas não de obras com novidades doutrinárias. Ao contrário do que ocorreu na missão de Chico Xavier, um paradigma de médium espírita, o que infelizmente o que assistimos hoje no Brasil é uma explosão de publicações de obras psicografadas, que não têm elementos que permitem atestar a autenticidade mediúnica, sem a existência de qualquer mecanismo que assegure a qualidade dessas produções e que cuja finalidade parece ser apenas a manutenção de obras assistenciais e não o crescimento da doutrina.
Costumo dizer que, para garantir o pão do corpo, estão a sacrificar o pão do espírito.
