Entrevista foto loucomotiv Em torno da comunicação A comunicação é um
Jornal de Espiritismo nº 40 · Maio 2010Página 103 min
fenómeno com pano para mangas dentro dos estudos espíritas, mas não deixa de ser uma faca de dois gumes: qual a melhor maneira de a usar construtivamente no movimento e fora dele? Ângela MoraesA comunicação, como a entendemos, raramente é trabalhada no movimento espírita do ponto de vista de uma liberdade de opinião, da interlocução e do respeito às diferenças.
O que normalmente há são actividades de divulgação, ou seja, um desejo de dar visibilidade aos conteúdos espíritas por meio da publicação de livros, palestras e programas mediáticos. Um trabalho de comunicação efectivamente implantado requer um senso de democracia e de enfrentamento de riscos com que nem sempre nós espíritas queremos ou sabemos lidar. Além disso, há o discurso, especialmente no Brasil, de que uma comunicação menos hierarquizada da maneira que a defendemos, provocaria polémicas e debates desnecessários.
Penso ser preferível que isto aconteça e estudarmos formas éticas que orientem as práticas da comunicação, do que abdicarmos do confronto que levaria ao dogmatismo, à intolerância e ao discurso único. Num dos artigos que se encontram na internet, afirma que «o Espiritismo resulta, pois, de uma mediação social entre a sociedade desencarnada e a sociedade encarnada»: pode explicar isso aos leitores? Luiz SignatesMediação é um conceito utilizado na sociologia da comunicação, para se referir às condições simbólicas de intersubjectividade.
Em outras palavras, falar em mediação simbólica significa dizer que um discurso qualquer é produzido socialmente de tal forma que o resultado final constitui uma negociação de sentidos entre os interlocutores. Aplicado tal conceito ao espiritismo, o que eu quis dizer é que o que se denomina “doutrina espírita”, especialmente em Kardec, foi o resultado do contacto possível (mediúnico, evidentemente) e culturalmente negociado entre duas culturas, a dos encarnados e a dos desencarnados.
A principal consequência dessa visão teórica é contestar a ideia de que os espíritos “ditaram” a sua visão, de que houve uma mera “transferência de saberes”, independente dos limites e das possibilidades culturais dos encarnados. Ou seja, a codificação não é, rigorosamente falando, obra dos desencarnados, e sim resultado da mediação simbólica entre eles e nós. Dessa leitura não fica a ideia de que a doutrina espírita é afinal bastante falível?
Luiz SignatesSem dúvida. E o reconhecimento tácito disso é a grande conquista que se deve trazer para o pensamento espírita. Kardec, alimentado pela mentalidade fortemente positivista da sua época, seria o primeiro a contestar fortemente a suposição de uma pretensa infalibilidade doutrinária. Os espíritas conservadores tremem de medo de admitir a falibilidade do espiritismo, temendo que a fragmentação, a dúvida e o questionamento gerem instabilidade no movimento e, por conseguinte, o seu “desvirtuamento”.
Mal percebem que, ao dogmatizar os fundamentos espíritas, promovem justamente esse desvirtuamento, pois, ao buscarem preservar conteúdos, rompem com o método espírita, tal como Kardec o recomendara. Ora, recusar a falibilidade doutrinária é negar a possibilidade evolutiva, é fechar os olhos aos limites da compreensão humana, é temer a verdade. A única consequência, lamentável, de uma postura dessas seria dogmatizar o espiritismo e condená-lo a ser uma pequena e inexpressiva religião, PUBLICIDADE Ângela Moraes e Luiz Signates são professores da Universidade Federal de Goiás com ampla colaboração no movimento espírita brasileiro.
Estarão em Braga entre 18 e 22 de Julho para participarem num congresso na Universidade de Minho: «Fazemos parte do Grupo de Estudos em Religião e Sociedade no Brasil, cidade de Goiânia, estado de Goiás, e gostaríamos de manter os primeiros contactos com os espíritas da região bracarense, em razão de nossa ida a este país em Julho», informa Ângela. Cientes desta passagem breve, antecipamos uma entrevista com estes companheiros com vasta folha de serviço.
