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Jornal de Espiritismo nº 40 · Maio 2010Página 113 min

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Entrevista PUBLICIDADE curso básico de espiritismo on-line em como qualquer outra, na medida em que ele se tornaria progressivamente incapaz de “enfrentar face a face a razão, em qualquer época da humanidade”. Com frequência fala-se de Espiritismo numa vertente de cultura espírita. Há eventos que levam essa mesma expressão na sua designação. Existe ou não efectivamente uma cultura espirita? Ângela MoraesCultura no sentido amplo é o conjunto de crenças, comportamentos, valores, instituições, e regras morais que permeiam e identificam um grupo social.

Assim, podemos considerar que existe uma cultura espírita que a diferencia de outras adoptadas na nossa sociedade. Contudo, é bom lembrar que muito de nossas crenças, valores e regras encontram similitude com outros grupos sociais, religiosos ou não, já que estamos inseridos num contexto histórico e social mais amplo. De forma que não existem no espiritismo traços totalmente distintivos, pois a doutrina baseia-se em modos de pensar que já circulavam na sociedade.

Mas existe um diferencial que é a forma como reorganizamos e reinterpretamos esses modos de pensar e agir que nos identificam como comunidade. Como definir os seus contornos, quando se verifica alguma apetência por vezes na prática para cristalização de rotinas (rituais?) nas actividades prestadas pelos centros espíritas em geral? Luiz SignatesA ritualização das práticas não é algo sequer evitável, pois os ritos são mecanismos simplificadores das relações interpessoais, especialmente quando se manifestam dentro de instituições sociais.

Ou seja, quando não queremos preocupar- -nos com alguma prática que aceitamos tacitamente, cuidamos de ritualizá-la. Como lavar os dentes, meter o automóvel na garagem, proceder às práticas higiénicas na casa de banho, etc. Eis porque o anti-ritualismo espírita será inútil se pretendermos eliminar todo e qualquer ritual. A questão espírita é outra, é para que servem os rituais que utilizamos e se os ritos podem ou não ser submetidos à crítica ou modificados, conforme se mostrem ineficazes ou inúteis.

A doutrina espírita foi o resultado do contacto possível (mediúnico, evidentemente) e culturalmente negociado entre duas culturas, a dos encarnados e a dos desencarnados. A recomendação que considero modelar nesse sentido é a que foi exemplarmente dada por Emmanuel, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, no livro “O Consolador”. Ao ser indagado sobre “como deve ser dado e recebido o passe espírita”, ele respondeu: “Da maneira como oferecer maior percentagem de confiança, tanto a quem dá, quanto a quem recebe”.

Considero que esta recomendação pode ser generalizada, para admitirmos ou não certos rituais no espiritismo e conferirmos se ocorre ou não uma “cristalização de rotinas”, como mencionaste, na pergunta feita. Há hibridização de práticas multi- -religiosas nos centros espíritas? Se sim, pode dar exemplos e comentar o facto? Luiz SignatesSim, ela costumeiramente ocorre. E é resultado dos contactos do espiritismo e das suas práticas com meios culturais diversos, conforme as regiões ou países.

Considero que isso não deve preocupar tanto os espíritas, caso, nas relações efectivas entre as pessoas, movimentadas pela experiência social espírita, se consolide a vivência da fraternidade e do amor ao próximo. Em outras palavras, deve, sim, o espiritismo dialogar e aprender com outras culturas, a fim de realizar concretamente o projecto de fraternidade e paz que justifica a sua presença no mundo. Infelizmente, não tem sido incomum identificarmos acções e movimentações antifraternas no meio espírita, em nome da conservação de práticas que se supõem originalmente espíritas.

Nesses casos, a minha suspeita é que, para se manter aquilo que é acessório, sacrifica-se o que é essencial. É possível um sentimento de religiosidade sem atavismos religiosos? Ângela MoraesSempre é possível. O problema dos atavismos tem a ver com o percurso histórico das religiões marcado por lutas identitárias, busca de poder e resistência ao diferente. Mas esta mesma história possibilitou o surgimento de homens e mulheres que souberam vivenciar o amor acima dos rótulos e amarras teológicas.

Chico Xavier, por exemplo, é admirado por pessoas de outras religiões justamente pela sua capacidade de ajudar sem exigir conversão ao espiritismo. No catolicismo temos Madre Tereza, no hinduismo Gandhi e inúmeros outros exemplos. Precisamos compreender que não há uma forma mais adequada que a outra de cultivar a espiritualidade. Há quem a cultive sem sequer filiar-se a uma religião. Defender seus pontos de vista é um direito de qualquer ser humano.

O desafio é buscar o entendimento e a convivência pacífica, afinal, todas as religiões aconselham isso. Caso estejam interessados, os leitores podem conhecer os temas que este grupo de pesquisa tem trabalhado. Basta visitar na internet www.gers.com.br.