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Crónica A verdade que liberta “Se permanecerdes na minha palavra, sois

Jornal de Espiritismo nº 40 · Maio 2010Página 126 min

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verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.31,32). Assim garantia Jesus aos discípulos autênticos, o conhecimento da Verdade e a libertação que ela proporciona. Mais tarde, em Jerusalém, o orgulhoso governador Pôncio Pilatos admirava-se perante a serenidade do réu humilhado e maltratado que interrogava.

“Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (Jo 18.37), dissera-lhe o prisioneiro; e o governador romano, visivelmente impressionado pela postura digna daquele réu tão singular, redarguiu: “O que é a verdade?”. O excelso arguido preferiu o silêncio. Não explicou a Pilatos o que é a verdade, a verdade que liberta, mas fizera-o anteriormente, não só pela Boa Nova disseminada em toda a parte como sobretudo pela eloquência do exemplo.

Acompanhando o discorrer de Allan Kardec em «O Evangelho Segundo o Espiritismo», aprofunda-se o entendimento de que a doutrina de Jesus se alicerçava na realidade e imortalidade do espírito. Décadas após Kardec, a microfísica, a microbiologia, a matemática e mais ciências, vieram mostrar que aquilo a que chamamos a realidade material, concreta, mensurável, não é um ponto de partida, mas antes um efeito de algo que a precede, a transcende e a rege, preexistindo e sobreexistindo a cada ser.

O astrofísico escocês sir Arthur Eddington, na experimentação laboratorial de física quântica, concluiu: «a matéria-prima do Universo é a mente». Mas o materialismo continua a tolher a Humanidade, condicionando a metodologia do ensino em todos os graus escolares (e até entra na formulação de muitos conceitos religiosos!) O materialismo ainda impera inocentemente na educação: esta esmera-se em estimular e desenvolver a inteligência cerebral, analítica, mas ignora (ou mesmo reprime, culturalmente) a intuiçãoea percepção extra-sensorial em geral, como bem documentam peças cinematográficas de renome: «Sempre», «Sexto Sentido», «O Dom», «O Poder dos Sentidos» e outros filmes muito conhecidos, baseados em fenómenos paranormais ocorridos na vida real.

A verdade aceite pela Humanidade, em geral, continua limitada e limitadora, continua a mesma verdade racionalista, sensorial, alcançada pelo cérebro e “com os pés bem assentes na Terra”. O que não poucas vezes equivale a raciocinar… com os pés. A verdade a que Jesus aludia escapa ao entendimento do homem mediano, dotado duma noção muito vaga da sua natureza primordialmente espiritual. Acorrentado à informação distorcida que lhe dá a sua fisicalidade, ele aceita-a ingenuamente como “a realidade” e até a proclama objectiva, concreta, palpável, mensurável… Talvez por isso, Jeremias exprobra tão azedamente o orgulho dos sábios sem sabedoria (Jer 11.

15), e Jesus assim rendia graças ao Pai: “… ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mat 11.15). A verdade que liberta, de que Jesus deu testemunho, não está em 1 + 1 = 2; não está em, sendo hoje sábado, amanhã ser domingo; ou em que a Terra é redonda. Tudo isso temos nós por verdade, mas liberta-nos de quê? Jesus não se referia, pois, a verdades parcelares, temporais, do presunçoso entendimento humano.

Referia-se à verdade ontológica das coisas, à verdade integral, imutável, eterna, intrínseca a todos os seres, que os encadeia harmoniosamente na unidade do Todo (ver «O Livro dos Espíritos», Questão 540). O Bom Pastor referia-se, enfim, ao toque divino do SER, imanente em todas as manifestações individuais da Sua criação, por Ele sustentadas em perfeita harmonia cósmica, no campo de todas as possibilidades. Também podemos dizer: a verdade é a nossa consciência viva de Deus como o Absoluto, o tudo em tudo, o alfa eoómega, a referência suprema, primeira e última, para tudo quanto existe ou possa existir.

É essa a verdade a que Jesus se referia: imutável, eterna, que nos liberta das limitações impostas pela existência na dimensão material. Para tal, importa porém não a perceber apenas intelectualmente, com a razão ou com uma fé cega, mas senti-la e vivê-la do coração, como fé raciocinada refulgida da razão e de além dela; esta não lograria elaborar analiticamente a verdade, mas pode constatá-la, verificar-lhe os efeitos inegáveis.

A verdade existe além daquilo que nos mostram os sentidos materiais, influenciando a vida sensível de todos nós. Referindo- se às nossas necessidades materiais, o Mestre ensinava no sermão da montanha: “buscai pois em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça (isto é: a verdade) e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mat 6.33). Jesus provou-o, pois demonstrava pelo exemplo aquilo que ensinava. Quanto ao “reino de Deus e sua justiça”, ele era o exemplo máximo de bem o seguir e cumprir, e por isso “o Pai dava-lhe por acréscimo” tudo o que ele precisasse.

Era pobre, não por incapacidade ou quaisquer limitações pessoais, mas sim por opção e desprendimento, pelo seu apego a valores autênticos, eternos, como são os valores do “reino de Deus”. Por isso, mesmo nada possuindo de material, podia sempre dispor de tudo aquilo que precisasse. A ritualização das práticas não é algo sequer evitável, pois os ritos são mecanismos simplificadores das relações interpessoais, especialmente quando se manifestam dentro de instituições sociais.

Assim, nas bodas de Caná condoeu-se ao pressentir o mal-estar e vexame social que iria sofrer a família dos noivos, por faltar o vinho na festa de núpcias; então, livre de qualquer limitação imposta quer pela pobreza material quer pelas leis conhecidas da matéria, orou e transformou em vinho da melhor qualidade, a água guardada dentro de casa em talhas de pedra. A vida pública de Jesus foi marcada por milagres sem conta, que realizava em toda a parte.

Mas ensinava aos discípulos que não fazia nada de extraordinário, que eles mesmos poderiam fazer “coisas maiores” (como na verdade vieram a fazer), se… Sim, o Mestre teve o cuidado de ensinar que não pode haver milagres, tudo no Universo é regido por leis, e Ele próprio, como enfatizava, não veio derrogá-las mas sim cumpri-las e demonstrá-las. “Milagres” só existem do ponto de vista da nossa limitada visão terrena, materialista.

Contudo a vida e o Universo não são apenas aquilo que a nossa percepção material regista: acima desse nível, muitas outras dimensões se sobrepõem, como por exemplo o “terceiro céu” de que nos falava Paulo de Tarso (2.ª Cor 12.2). E na dimensão espiritual pura, de que as obras de André Luiz nos dão alguns vislumbres, simplesmente não há limites: as possibilidades são infinitas. Para Deus, o sustentador das leis de todas as dimensões do Universo, nada pode ser maravilhoso ou prodigioso, tudo Lhe está ao alcance.

Do mesmo modo, “para o que crê, tudo é possível” (Marcos 9.23). Se tivermos fé como um grão de mostarda, frisou o Bom Pastor, tudo poderemos. A fé, totalmente distinta de credulidade e crendice, transcende a dimensão material em que vivemos. Sem dependência alguma de confissões religiosas, pode ser potenciada pela prática sã das mesmas. Brota da paz de consciência duma ética vivida, dos hábitos de recolhimento mental e meditação, roçando aquilo que podemos designar dimensão ascética e mística do Universo.

Esta, não sendo física, influencia comprovadamente a matéria e pode por exemplo manifestar um espectacular potencial terapêutico. Entre muitos outros, assim o demonstrou em 1997 e 1998, em simpósios da especialidade, o professor Herbert Benson, da Universidade de Harvard, autor de “The Timeless Healing” (ed. Scribner 1959, New York). Já antes o havia demonstrado, com os seus fecundos conceitos de “logoterapia”, o psiquiatra Viktor Frankl, director da Policlínica Neurológica da Universidade de Viena.

Muitos outros experimentadores o têm feito também. Mas não deram novidade nenhuma a quem conhece, por exemplo, a história dos primeiros cristãos, cuja fé os habilitava a curar pela oração. Ou a história de muitos centros espíritas, familiarizados com essa actividade. Ou a história de curas sistemáticas (não episódicas) da Christian Science, religião evangélica especialmente vocacionada para a cura espiritual, com sede mundial em Boston, Estados Unidos.

A própria natureza da luz extingue as trevas, mera ausência dela. Também o mal e a doença (erro, na essência) só existem precária e temporariamente, não podem subsistir na presença (consciência) da VERDADE eterna. Por João Xavier de Almeida jxalmeida26@gmail.