Crónica Os espíritas eaBíblia Os nossos irmãos protestantes destacam-s
Jornal de Espiritismo nº 41 · Julho 2010Página 94 min
Crónica Os espíritas eaBíblia Os nossos irmãos protestantes destacam-se positivamente na leitura e estudo da Bíblia, sendo notório o seu conhecimento nessa matéria. Igualmente notório, é o facto de que por vezes também treslêem a Sagrada Escritura, na busca apaixonada de argumentação anti-espírita. Neste caso, mais do que no primeiro, têm a companhia dos nossos irmãos católicos. Assim, uns e outros afirmam que a Bíblia condena o Espiritismo, citando passagens em que são proscritas as práticas de invocação, adivinhação, leitura do futuro.
Tais práticas realmente são denunciadas no Antigo Testamento, como contrárias às leis de Deus. Mas que têm elas a ver com Espiritismo?! Quem estude a doutrina espírita sabe perfeitamente que tais procedimentos nada têm de espíritas. Não sendo fraude, poderão ser actos de mediunismo mal orientado, mas nunca Espiritismo. Mediunidade e Espiritismo são coisas distintas: a primeira só é espírita se exercida com o rigor e propósitos da disciplina espírita.
Como a Bíblia, também o Espiritismo se opõe a práticas mediúnicas levianas. Não as proíbe, pois nada proíbe e nada impõe. Mas adverte sobre o que elas têem de erróneo ou perigoso, e aponta o caminho certo, deixando às pessoas o optarem em consciência. O Espiritismo não defende aquilo que a Bíblia reprova. Pelo contrário, mostra com lógica e racionalidade os inconvenientes daquilo que ela rejeita: a chamada invocação dos “mortos” por motivações frívolas, consultas a pitonisas, feitiçarias, adivinhações… O Espiritismo não as proíbe, porém informa claramente sobre os perigos e inconvenientes dessas práticas.
Mas condenaráaBíblia, de facto, a comunicação com os desincarnados? De maneira nenhuma! Ela própria está cheia de relatos dessas comunicações, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Não esqueçamos que o divino Mestre interpelou espíritos em público e ensinou os discípulos a fazê-lo, censurando-os quando mal sucedidos por falta de fé. No Antigo Testamento (Números 11. 27-29), Moisés, ele próprio medium notável, não se mostrou contrariado quando o informaram de Eldad e Medad estarem a profetizar no acampamento, lamentando que todo o seu povo não fosse dotado daquela faculdade.
Ainda mais explícita é uma passagem da 1ª Epístola de João. Nos primeiros versículos do capítulo 4º, o apóstolo exortava os cristãos a não darem crédito a quaisquer espíritos, mas só aos espíritos que vinham de Deus, explicando a diferença entre uns e outros: entre espíritos benfazejos, fiáveis, dum lado; e doutro, espíritos perturbados, falsos profetas. Isso atesta que os primeiros cristãos comunicavam com espíritos e para isso recebiam a necessária preparação, o que o Espiritismo tem hoje por norma elementar, estudada com grande desenvolvimento em O LIVRO DOS MÉDIUNS.
A Questão 628 de O Livro dos Espíritos exorta os homens de estudo a não negligenciarem qualquer filosofia, tradição ou religião antiga, pois, apesar das suas aparentes contradições, todas elas encerram o germe de grandes verdades, para cuja compreensão passou a haver uma chave na doutrina espírita. Com essa chave, analisemos então algumas passagens da Sagrada Escritura. No texto bíblico, frequentes profecias anunciam um Mundo totalmente diferente daquele em que até aqui temos vivido: um mundo de abundância e prosperidade, sem sofrimento, sem guerras, sem ignorância a respeito de Deus e das suas leis, um mundo de corações animados pelos sentimentos mais nobres e pacíficos.
Abraão ouve a promessa divina de copiosa descendência e duma terra onde manam o leite e o mel, a terra da promissão (Génesis 12.7; 25.3; Êxodo 6.8). Mais adiante, Isaías proclama: Não mais haverá luto e lágrimas (35. 10); Os povos converterão as espadas em arados e as lanças em podadeiras, uma nação não se levantará contra outra nem aprenderão mais a guerra (2. 4); O lobo habitará com o cordeiro…, o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos e um menino os guiará (11.
6, 7); Ninguém precisará de dizer a seu irmão ‘conhece o Senhor’ porque todos O conhecerão e terão impressas no coração e na mente as Suas leis (Jeremias 31. 33, 34). Estas e outras profecias bíblicas, no seu estilo peculiar, coincidem com as características atribuídas pela codificação kardeciana, no séc. XIX, aos mundos regeneradores, classe para a qual está a evoluir a Terra, por enquanto ainda um mundo de expiação e de provas (capítulo III de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO).
Como a Bíblia, também o Espiritismo se opõe a práticas mediúnicas levianas. Não as proíbe, pois nada proíbe e nada impõe. A visão de João Evangelista (Apocalipse 19. 20), dos réprobos sendo precipitados num lago de fogo e enxofre, corresponde ao exílio reeducativo dos espíritos endurecidos, refractários ao aperfeiçoamento, para mundos mais primitivos, como a Terra já foi (Questão 1019 de O LIVRO DOS ESPIRITOS), nos quais repetirão o mesmo “programa lectivo” em condições mais severas.
A nova Jerusalém radiante e jubilosa (Apocalipse 21. 2) simboliza a Terra Prometida, a Terra inteira transformada num éden formoso, acolhendo não um suposto povo eleito mas sim todas as pessoas de boa vontade, de qualquer povo, nação ou etnia, de qualquer religião ou de nenhuma religião, que tiverem alcançado as metas intelectuais e éticas do seu programa ou ciclo evolutivo, agora prestes a findar, para dar lugar a novos ciclos mais adiantados.
