Opinião O amigo F.W
Jornal de Espiritismo nº 41 · Julho 2010Página 144 min
Opinião O amigo F.W. Nietzsche foto arquivo À primeira vista Nietzsche não tem por onde se lhe pegue como espírita. Nem à segunda vista. De facto, Nietzsche não tem por onde se lhe pegue como espírita. Mas as pessoas mudam. Mudar é uma necessidade muito para além do âmbito de necessidade das lógicas modais. Mudar é uma necessidade a que a lei do progresso, e sobretudo o sofrimento, obriga. Se não mudamos enquanto encarnados, mudaremos quando desencarnados.
Num tempo ou noutro, ou em ambos, tal acontecerá. Por isso Nietzsche se ainda não mudou, mudará; se ainda não é espírita, sê-lo-á. A leitura das obras de Nietzshe (e daqui em diante passaremos a nomeá-lo Frederico porque se torna mais fácil a digitação) sempre nos divertiu. E divertiu-nos como um momo diverte. Mas como pessoalmente ainda estamos muito próximos do nível de necessidade e momice do Frederico, apesar de não lhe partilharmos as ideias tornou-se- -nos ele simpático.
E pensamos tê-lo entendido, vendo por detrás do desvario pegado um ser sensível, diríamos com mediunidade ostensiva, sujeito a obsessão que se tornou grave. Tão grave que levou à loucura. As dores de cabeçaea afonia terão, talvez, também a ver com a afecção espiritual. Conhecemos o Frederico bem antes de conhecermos o espiritismo e como não planamos como um zaratustra de luz, nem sempre andamos incólumes a afecção igual (como nada ainda nos pode garantir que doravante passaremos incólumes às obsessões).
Tendo sido pela simpatia que o filósofo filólogo nos ensinou que afecção e afeição têm raiz comum, quando o espiritismo nos incitou a mudanças fê-lo sobretudo a nível de ideias, que nos sentimentos por pessoas, encarnadas ou desencarnadas, não produziu efeito semelhante. E foi assim que o Frederico continuou presente na nossa tela mental (como continuou e continua na tela mental de inúmeros dos seus leitores). Mas o aprofundar de conhecimentos espíritas abre horizontes novos, entre os quais o de canalizar os pensamentos consoante as afeições, podendo, relativamente às afecções, produzi-las, agravá-las, minorá-las, debelá-las.
Por estas trocas que ocorrem incessantes, assim como pela acção maior da espiritualidade empenhada no bem, não será de escandalizar que o Frederico tenha sido beneficiado, podendo muito bem, cento e dez anos após o decesso físico, estar recuperado para Deus e inclusive convertido ao espiritismo. (Tal como o Frederico, também inúmeras outras personalidades mais ou menos ilustres terão feito idêntico trajecto, sendo que os parâmetros desta ilustração são por demais inseguros para neles apoiarmos os juízos que emitimos.)
Vamos imaginar (mesmo que o seguinte uso da faculdade da imaginação venha a divertir como uma momice) que o Frederico agora diz o que vem abaixo: “Ora aí está: a incessante vontade de sermos melhores! Porém, a vontade que temos não é bem essa, antes a de termos mais. Se ainda fosse termos mais amor para dar, vá que não vá; o problema reside em que do amor queremos que o outro o tenha para no-lo dar. E como ficamos quedos à espera do mesmo, nada existe do que esperamos.
Quando o espiritismo nos incitou a mudanças fê-lo sobretudo a nível de ideias, que nos sentimentos por pessoas, encarnadas ou desencarnadas, não produziu efeito semelhante. O sermos melhores necessita do acto dinâmico, a vontade incessante exige força de ânimo. É a fé que impulsiona, é a fé que move. Usando terminologia de Aristóteles, diremos que sendo Deus o motor imóvel, a fé é o motor móvel. Deus inicia o movimento da fé no ser humano – e ela é agora divina; o ser humano toma-aefá-la sua – e ela é agora também humana.
Munido dessa fé, a vontade de ser melhor torna-se incessante; essa acção dinâmica encontra o outro no seu caminho e toma-o como compagnon de route – é a fraternidade. O exercício da fraternidade tem cabimento todos os dias, há sempre ocasião para a praticar. Daí que se torne incessante, se assim o quisermos, porque o caminho da perfeição é quase infinito. E sendo quase infinito, há espaço para que a vontade de melhorar seja incessante.
Quando, percorrido já esse caminho quase infinito, não tiver mais vontade de melhorar, atingiu a perfeição: não é um super-homem, mas é um deus, é um humano divinizado. Será também a figura arquétipa do Cristo, esse ser sublime que se aceitou como Filho do Homem para nós outros ainda nos primórdios da civilização do amor fraterno.” Mantendo-nos neste exercício de imaginação, perguntamos: pode este discurso ser atribuído a um espírita?
E pode ser atribuído a Nietzsche? (É interessante este jogo de possibilidades. Como é interessante – já saímos do exercício de imaginação – existir a referência de que Leonardo Coimbra foi espírita e a leitura da principal obra não nos levantar essa suspeita sequer. A ausência dessa suspeita pode dever-se ao facto de a leitura não ter sido suficientemente metódica e atenta, mas em leituras também corridas, como é o caso de Agostinho da Silva, a suspeita de que conhecia o espiritismo já surge.)
Frederico há-de reencarnar. Mais cedo ou mais tarde, essa necessidade impor-se- lhe-á, porque tem uma dívida para com a filosofia. Além disso, porque chega o tempo de o espiritismo entrar para a universidade. Por Pinho da Silva antoninusaugustus@hotmail.
