OpiniãoOóbolo da viúva e da serva No início deste milénio a sociedade
Jornal de Espiritismo nº 41 · Julho 2010Página 124 min
impõe-se um ritmo quase desgovernado na procura do saber. foto loucomotiv Dir-se-ia que pretende recuperar o que perdeu, durante séculos, quando mergulhou no período das trevas. E o Espiritismo, inspirado pelo Alto, a acompanha nessa busca. O pilar científico evolui orientado por estudos complementares, baseando-se no testemunho indirecto da espiritualidade.
O pilar filosófico é impulsionado a aplicar de modo mais amplo as directrizes codificadas, quer nos dilemas da própria ciência, quer nos debates que as sociedades vão criando… e a religião? Os textos aqui apresentados propõem momentos de futura reflexão, inspirados em episódios da vida de Cristo e nas passagens evangélicas do passado, complementadas no presente com o contributo da espiritualidade. Comecemos com a lição da Caridade.
O episódio do óbolo da viúva é dos que mais nos inspira à prática de caridade com o próximo; e nos dias que correm todo o cristão se sente particularmente sensibilizado para tal. Mas até mesmo a história do óbolo da viúva orienta-se, aparentemente, por uma caridade, mais do que material, monetária. Seráaúnica forma de a praticar, sem alternativa de ser substituída? Sabemos bem que não, mas como colher tal ensinamento do episódio perpetuado pelo Novo Testamento?
Teremos que o contar na totalidade. A história da viúva decorre no Templo de Jerusalém, antecedendo a Páscoa, porventura a última que Jesus passa encarnado. O Mestre faz-se acompanhar dos seus discípulos e posiciona-se em frente ao tesouro, junto do átrio das mulheres, um espaço quadrangular através do qual desceria uma escada semicircular para o gazophilácio (tesouro do templo), onde eram lançadas as esmolas. Os ricos opulentos trocavam a importância que desejavam oferecer em pequenas chalkó (moedas de cobre), para assim tornarem a sua dádiva mais numerosa e, sobretudo, notoriamente ruidosa.
Judas, empolgado, comentava com o Mestre a oferta de Jerobão e suas vinte peças de ouro, de Zacarias e as cem peças ofertadas, da viúva de Cam com o dinheiro da venda dos cavalos de seu marido, e de Efraim que trazia duzentas moedas. Pouco depois entrou no átrio uma viúva simples. Lucas descreve tal personagem recorrendo à expressão penichrá (paupérrima) e depois a diz ptôchê (mendiga). Ela orou, humilde e depôs envergonhada dois leptas (os dois centavos no texto bíblico), sendo que o lepta era a menor fracção monetária da época.
Mas Jesus não hesita em descrever o sacrifício da viúva como o mais válido de todos os contribuintes daquele dia. “- Em verdade, esta pobre viúva deu mais que todos os poderosos aqui reunidos, porquanto não vacilou em confiar ao Templo quanto possuía para sustento próprio.” Dir-se-ia que a lição terminava aí, com os discípulos a aprenderem através da referência feita à pobre viúva, que nem sempre a oferta mais opulenta era a mais agradável a Deus.
E na verdade, a passagem evangélica encontra, neste momento da narrativa, o seu terminus. Porém o Espírito de Verdade, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, termina o comentário a este episódio questionando: “Na falta de dinheiro, não dispõe cada qual do seu esforço, do seu tempo, do seu repouso, para oferecer um pouco aos outros?” É que na verdade o episódio ainda não havia terminado; aliás, a lição mais importante estava por vir.
Na falta de dinheiro, não dispõe cada qual do seu esforço, do seu tempo, do seu repouso, para oferecer um pouco aos outros? Com o fechar do dia, a multidão foi abandonando o espaço público de culto, insistindo Jesus em permanecer até ao fim no local. Quando finalmente todos se ergueram para regressar, entrou no recinto uma escrava de rosto marcado pela velhice e vacilante, iniciou a limpeza do chão. Com um sorriso revelador de alegria íntima e olhar paciente indiciador de paz, recolhia desde flores esmagadas até detritos fisiológicos ali deixados por enfermos.
E em diálogo privado com Simão Pedro (e por isso não narrado nos Evangelhos), o Mestre observou: “- Realmente, a viúva deu muitíssimo, porque enquanto os grandes senhores aqui testemunharam a vaidade, desfazendo-se de bens que lhes constituíam embaraço à tranquilidade futura, ela entregou ao Todo Poderoso aquilo que significava alimento para o próprio corpo… A maior benfeitora para Deus, aqui, no entanto, ainda não é a viúva humilde que se desfez do pão de um momento… É aquela mulher dobrada de trabalho, frágil e macilenta, que está fornecendo à grandeza do Templo o seu próprio suor.
” Tornemo-nos servos do Senhor, ofertando-Lhe as horas de descanso o que nos sobram, para merecermos o quinhão de Paz que nos falta. Por Hugo Batista e Guinote Bibliografia principal: Ev. Marcos (XII: 41-44); Ev. Lucas XXI: 1-4; Ev. Segundo o Espiritismo; XIII: 5-8; Pontos e Contos: 8; Sabedoria do Evangelho; Vol: VII.
