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Entrevista de lembranças de vidas passadas

Jornal de Espiritismo nº 41 · Julho 2010Página 113 min

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Faz um apanhado e encontra logo 44 casos. Estas histórias verídicas têm algo em comum: envolvem petizes de 2 a 4 anos de idade; e as lembranças apagam-se por volta dos 8 anos. Em 1960 concorre a um prémio da Sociedade Americana de Pesquisa Médica, que vence. Desloca-se então à Índia, onde culturalmente a reencarnação é bem aceite e as afirmações das crianças não são abafadas: encontra em 4 semanas 25 casos para investigar.

Recebe depois o apoio moral e financeiro do inventor da fotocópia – Chester Carlson. Publica «20 casos sugestivos de reencarnação». Curiosamente, o livro foi ignorado. Deixa a clínica, deixa de leccionar, para pesquisar. A esposa acha que ele está a deitar fora uma carreira promissora… Preso por ter cão… Certa vez na Índia perguntaram-lhe: «Por que aplica tanto dinheiro para descobrir aquilo que já todos sabemos: a reencarnação existe»?

Nos EUA indagam: «Por que gasta tanto dinheiro a investigar a reencarnação, algo que sabemos ser impossível?». Por fim, Ian Stevenson já não receava que este imenso esforço de uma vida inteira vá por água abaixo: «Está tudo registado em revistas científicas, em monografias, livros. Além disso, há pessoas que continuam a investigar esta área, consideram-se meus sucessores2. São pessoas competentes que sabem estudar este tipo de fenómenos com todo o rigor e seriedade.

É encorajador saber isso!». Pesquisou casos em países como o Líbano, Índia, Japão e Sudeste asiático, Europa, América do Norte: «Quantos casos recolheu e pesquisou ao longo da sua investigação científica?». Diz: «Cerca de 2700 casos. Mas não foram todos exaustivamente estudados: penso que 500 foram muito bem estudados; outros 500 foram minimamente estudados; os restantes foram examinados superficialmente». Erlendur Haraldson, da Finlândia, realizou testes com este género de crianças e concluiu que elas não apresentam qualquer tipo de patologia mental.

Ainda assim, dadas as vantagens do esquecimento das vidas pretéritas, consideradas em especial nos estudos espíritas, estas lembranças fragmentadas que as crianças revelam podem levar a concluir que «lembrar será uma falha» do sistema. Há um «padrão comum apesar das culturas diferentes». Mas, «até nos casos dos países do Ocidente?», pergunta-se. «Sim. Pelos 6 a 8 anos as crianças deixam essas reminiscências, e têm-nas praticamente desde que começam a falar.

Outro ponto comum é o destes casos ocorrerem sobretudo com quem supostamente terá morrido violentamente na tal vida passada», afirmou Stevenson e completou: «Acho que uma pessoa racional pode vir a acreditar na reencarnação com base em evidências». Pesquisar A investigação é feita passo a passo. Começa com uma entrevista à criança. Depois, passa à recolha de informação a partir dos familiares, do professor, vizinhos, etc.

Consideram-se também os recortes de imprensa. Confirma se a informação geral dada pela criança corresponde à realidade; por exemplo, se a criança diz que o telhado é preto, trata-se de o confirmar; por vezes, o tempo alterou a circunstância e investiga a partir de quem se recorda desses factos. Além da reencarnação há outras teorias explicativas para estes fenómenos. As histórias verídicas têm algo em comum: envolvem petizes de 2 a 4 anos de idade e as lembranças apagam-se por volta dos 8 anos.

A criança funcionaria como um médium e receberia esses dados. Há também a chamada criptomnésia: poderia haver, por processos desconhecidos, uma recolha inconsciente de informações. A família do falecido quer crer que ele tenha renascido e a família da criança pode querer saber quem essa criança foi, e de forma inconsciente, fundir as memórias dando mais crédito às supostas memórias da criança. E, por fim, a hipótese da memória genética.

A das vidas sucessivas é, contudo, a mais clara e compatível com o perfil dos fenómenos das crianças que se lembram de vidas passadas. Que mensagem sai do seu trabalho? Explica Stevenson: «Bem, pode remover o medo da morte e pode desculpabilizar em parte os pais por alguns problemas dos filhos, já que neste caso eles seriam o resultado de si próprios, das suas escolhas». Seja como seja, com Ian Stevenson abriu-se no campo científico mais uma notável vereda de pesquisa que aponta para a reencarnação com verosimilhança, confirmando este ponto estrutural da vida do ser humano com que a doutrina espírita lida todos os dias.

Como em tudo o resto, porém, de nada vale saber que vivemos várias vidas, importante é vivê-las bem, inspirando cada um a sua conduta na caridade, tal como a entendia Jesus. Por Jorge Gomes * 31 de Outubro de 1918/8 de Fevereiro de 2007. 1 - «Les enfants qui se souviennent de leurs viés antérieures», ed. SAND. 2 - Ex: Jim Tucker, psiquiatra especializado em crianças e Bruce Greyson, EUA, Erlendur Haraldson, Finlândia.