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Opinão Os espíritas eaBíblia (2) Nalguns meios espíritas ouvem-se, por

Jornal de Espiritismo nº 42 · Setembro 2010Página 95 min

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Opinão Os espíritas eaBíblia (2) Nalguns meios espíritas ouvem-se, por vezes, comentários pejorativos sobre a Bíblia, devido a supostos argumentos que ela, no falso entender de católicos e protestantes, encerra contra o Espiritismo. Não é atitude útil nem correcta: importa antes demonstrar serenamente a irrelevância total desses argumentos, tal como a impropriedade de certas interpretações do texto sagrado, sem resvalarmos para emotividades estéreis.

O quesito 628 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS dá-nos conhecimento de que a Bíblia (assim como as escrituras sagradas de todas as religiões e filosofias antigas) merece a atenção dos estudiosos porque, à luz da Doutrina espírita, ela encerra informação e conhecimento de muito valor, apesar de aparentes contradições. Kardec demonstrou isso mesmo, ao elaborar O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, onde judiciosamente analisa inúmeras passagens do Novo Testamento e pelo menos catorze do Antigo.

Paulo (2ª Cor 3.6) já nos dera uma chave para estudarmos a Bíblia com acerto e proveito: “a letra mata, o espírito vivifica”. E Jesus também a tinha utilizado criteriosamente, admoestando os escribas e fariseus por se preocuparem mais com o externo e supérfluo da letra da lei, do que com o seu conteúdo profundo. O ensino do Rabi da Galileia tinha sempre base na Sagrada Escritura (que hoje designamos Antigo Testamento, primeira parte da Bíblia), enaltecendo-lhe a autoridade e sabedoria, frisando inequivocamente que ele próprio nada trazia de novo e que não vinha derrogar a lei mas cumpri-la: “até que passem o Céuea Terra, não passará um só jota nem um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra” (Mateus 5.

18). O formoso conteúdo do Sermão da Montanha, que abre com as oito bem-aventuranças, não constitui novidade substantiva em matéria de ensino: este, Implícito ou expresso, já se encontrava disseminado por várias passagens da Sagrada Escritura (por exemplo: Isaías 61.2; 55.1,2; Salmos 37.11; 24.4), a qual o divino Amigo sempre mostrou conhecer perfeitamente. E em verdade, nada lhe acrescentou: apenas impregnou o discurso com a transbordante energia mística da própria iluminação, maravilhando com o seu discorrer não só os ouvintes imediatos (Mateus 7.

28,29) mas também as gerações vindouras e toda a posteridade até hoje, religiosa ou não. Narra o Evangelho de Lucas (6.12) que o Rabi incomparável, quando naquela manhã arrebatava a multidão com uma comunicatividade nunca vista, tinha passado toda a noite na montanha, em oração. (Por oração, claro, ninguém entenda um recitar estéril de fórmulas rituais, ou alguma cerimónia litúrgica tão vistosa quanto improdutiva: mas sim a elevação psíquica do Mestre a faixas energéticas refinadíssimas da Vida e do Universo, em comunhão sublime com o seu e nosso Pai).

Ainda no Sermão da Montanha, no seu expressivo apelo para sermos perfeitos como perfeito é o nosso Pai (Mat 5.48), o Mestre aludia directamente às passagens do Levítico (11.44 e 19.2) em que, pela boca de Moisés, o povo hebraico (e com ele, a Humanidade inteira) recebeu a exortação divina: Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo. Enfim, o Bom Pastor, nosso modelo e guia, fundamentava o seu magistério nas Escrituras e no puro espírito delas, o animus legis, exaltando-lhes a autoridade; afirmou até, uma vez: a Escritura não pode falhar (João 10.

35). Muitos equívocos (alguns bem excêntricos) desde sempre se têm cometido na maneira de interpretar a Bíblia, fazendo dela uma mitologia insossa, à medida do interesse ideológico dos intérpretes apressados. Nos anos 50, Hendrik Woerwerd, teórico e grande paladino do apartheid sul-africano, pretendeu justificar com textos bíblicos o seu abominável sistema de “desenvolvimento separado”! Em fins do mesmo século XX, dois estados dos Estados Unidos da América proibiram nas escolas o ensino do princípio da evolução das espécies, declarando-o… contrário ao ensino bíblico!

Mais recentemente, o livro Caim, do saudoso escritor José Saramago, abordou passagens da Sagrada Escritura de forma bem inadequada (salvo se o fez em registo sarcástico ao absurdo de algumas interpretações correntes). Reveste porém outra gravidade que instituições com inegável responsabilidade em matéria de tradução e edição bíblica, apresentem ao público versões intencionalmente distorcidas. Dum modo geral, as numerosas divulgações bíblicas respeitam os textos originais e convergem no sentido, embora naturalmente divirjam na expressão verbal e na construção frásica, à feição de cada tradutor.

Assim se verifica, por exemplo, na passagem da 1ª carta de João (versículos iniciais do capítulo 4º), mencionada no número anterior deste jornal: “Os Espíritas eaBíblia (1)”. Apreciemos essa passagem numa versão clássica, a Bíblia conhecida como “dos Capuchinhos” (Difusora Bíblica, 15ª,1991, Lisboa): Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo.

Nisto conhecereis os espíritos de Deus: … Esta versão, com exactamente o mesmo sentido embora redigida de maneiras diferentes, é a que podemos encontrar em várias outras edições clássicas, incluindo-se entre elas a de João Ferreira de Almeida (Sociedade Bíblica do Brasil, 1969, Brasília) e a de King James, em Inglês, (World Bible Publishers, Inc. 1989, USA). Todas elas se mostram coerentes entre si e, por certo, com o texto original.

Muitos equívocos (alguns bem excêntricos) desde sempre se têm cometido na maneira de interpretar a Bíblia, fazendo dela uma mitologia insossa, à medida do interesse ideológico dos intérpretes apressados. Todavia nem sempre se guarda essa fidelidade. Constatamos uma distorção grave daquela passagem, na “Bíblia Sagrada – Tradução interconfessional do hebraico, do aramaico e do grego em português corrente”, apresentada por biblistas protestantes e católicos (Ed.

Sociedade Bíblica de Portugal, 1993, Lisboa). Eis como a mesma passagem está ali vertida para Português: Queridos amigos, não acreditem em todos os que dizem que têm o Espírito de Deus, porque há muitos falsos profetas espalhados pelo mundo. É assim que vocês podem saber se alguém tem o Espírito de Deus: … Os autores desta versão em português corrente não se atrevem a negar a comunicabilidade dos espíritos desincarnados, bem clara e explicita na menção original do Evangelista; porém ocultam-na desonestamente, e compreendemos porquê: tanto católicos como protestantes sustentam, sem base alguma, que Deus não permite essa comunicabilidade… a não ser ao diabo!

Lamentável tradução, péssimo serviço à Verdade e àqueles que a procuram. Compulsar a Bíblia exige conhecimento, rectidão, critérios sãos: procurar-lhe o espírito atrás da letra, distinguir o conteúdo superior e sempre actual, da parte meramente legislativa humana, adequada apenas a uma época determinada e seu contexto sócio-histórico. Por João Xavier de Almeida, jxalmei da26@gmail.