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Opinião Simão e Jesus: o primeiro encontro foto loucomotiv Com o final

Jornal de Espiritismo nº 42 · Setembro 2010Página 84 min

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do Verão reiniciam-se as actividades lectivas em todo o espaço de estudo. Aqueles reservados ao aprofundamento da doutrina espírita não são excepção. Chega o momento de reafirmar o compromisso assumido espiritualmente no passado. O convite dos amigos invisíveis é feito de forma velada, mas intimamente sentimo-lo presente nas nossas consciências e por isso motivados para seguir o impulso evolutivo.

A porta para as legiões do bem é-nos aberta eamão dos mentores estendida para nosso erguimento… mas todos sabemos que nem sempre a aceitação é pacífica. O receio da crítica social, a falta de confiança (em si ou nos que nos acolhem) ou a mera inércia, são obstáculos que condicionam a criatura à estagnação. Mas não nos condenemos em demasia por isso! O mesmo se passou com Simão, quando Jesus lhe falou pela primeira vez.

A maioria de nós tem para si que o episódio relatado no Evangelho de João, referente ao convite que o Mestre faz ao pescador de Cafarnaum para se tornar um “pescador de homens”, retracta o primeiro encontro entre estes dois. De acordo com o texto do apóstolo, a sequência de acontecimentos desenrola-se durante a semana do baptismo de Jesus. No primeiro dia João “O Baptista” terá sido submetido a interrogatório pelos emissários do Sinédrio.

No dia seguinte Cristo é baptizado nas margens do rio Jordão. No terceiro dia, pela décima hora, o Mestre convida André, irmão de Simão, e João “O Evangelista”, para a tarefa apostólica. No último de quatro dias consecutivos, Cristo encontra Simão “Pedro” e propõe-lhe ser “pescador de homens”. Porém, a narrativa de João reporta um segundo encontro; o primeiro havia ficado por descrever, até que recentemente a Espiritualidade o revelou.

À época de Jesus e na Judeia em particular, perdia-se o número aos sofredores desamparados, marginalizados pela raça, condição social, sexo ou enfermidade. Muitos deambulavam pela mendicidade ou, na melhor das hipóteses, sobreviviam escassamente na miséria da fome e das ruas. Aparecer alguém que os considerasse privilegiados, era, por isso, uma mensagem surpreendente. Simão não passaria por tamanhas restrições. Tinha uma casa e um trabalho que lhe garantia a subsistência e de sua família.

Aliás, o negócio era familiar e minimamente rentável. Mas como típico pescador galileu, seria tão generoso quanto rude; condoendo-se com o sofrimento dos que lhe estavam próximos, mas sem se entregar a preocupações que ultrapassassem as necessidades básicas. Era um céptico, prezando por se manter distante das discussões das classes mais abastadas. Simão teria ouvido falar do Mestre e da sua mensagem algum tempo antes da abordagem feita por seu irmão André, mas rotulou-o extemporaneamente como um explorador da ignorância dos necessitados.

Revoltava-lhe a injustiça e como tal recusava-se a ir ouvi-lo. Porém, um chamamento íntimo “atrai-o”, numa madrugada de sábado, ao local da reunião entre Jesus e as “gentes”. Surpreendido com o número e as expressões esperançosas, Simão sentiu um misto de piedade e ira, e avançou para as primeiras fileiras que cercavam uma pedra central, disposto a algo… mas eis que perante a figura do Cristo, as suas intenções estagnam!

Jesus fala, sem afectação ou falsidade na voz, da chegada do Reino de Deus, dos sofrimentos efémeros e da ilusão dos gozos, e convida a todos para fundarem uma Nova Erade Amor. Antes de prosseguir, uma mulher desesperada, bem por detrás de Simão, roga-lhe que cure a filha que havia cegado. Porque os braços maternos estivessem trémulos da fome e do desespero, e não conseguissem suportar o peso da criança, o pescador de Cafarnaum pega na menina e leva-a até ao Messias.

Jesus olha nos olhos de Simão e estabelece o diálogo mental que reporta a encontros passados entre ambos. E quando o Nazareno estende os braços para tomar a criançaea manga da sua túnica toca no tórax de Simão, este deixa-se levar pela luz dos seus olhos… Foi só depois de Jesus ter curado a menina e da multidão haver dispersado, que o pescador retornou a si! Quantos de nós fazemos juízos precipitados sobre aqueles que se deslocam aos centros Seria mais tarde, numa manhã ímpar, que se reencontrariam.

Nesse momento Jesus não lhe fala como se dialoga com um desconhecido, mas antes como se sobre ele tivesse já uma ascendência mutuamente reconhecida, a ponto de imediatamente lhe atribuir um cognome: Simão receberia o título de Simão Kefas (proveniente do aramaico Kephá) que em português se interpreta Simão “A Pedra”, ou se quisermos, Simão “Pedro”. Escutaria então o convite imortal para a pescaria abençoada. Quantos de nós fazemos juízos precipitados sobre aqueles que se deslocam aos centros: Será que o dirigente tem tanto conhecimento e experiência quanto aparenta?

Será que o evangelizador pratica o que difunde? E que terá feito o necessitado de socorro para merecer tamanha punição? Tal como antes, muitos são os marginalizados, mas porventura mais os coxos de vontade, os paralíticos da fé, os mudos do orgulho ou os cegos da Verdade. Mesmo tomando rumo ao Centro Espírita, quantas vezes nos recusamos a ouvir a mensagem da Espiritualidade? Quantas vezes caímos no desalento que nos arrasta e nos consome a vontade de empreender, ou depositamos em terceiros a responsabilidade de encontrar as soluções para os nossos problemas, como muitos que buscavam o Cristo na época?

Escutemos então o chamar permanente da Espiritualidade benfeitora, emissária do Cristo em cumprimento da vontade do Pai, e comecemos por, verdadeiramente, aceitar o convite para o “primeiro encontro”.