Crónica Fazer bem o bem-fazer foto arquivo “Bem-aventurados os miseric
Jornal de Espiritismo nº 48 · Setembro 2011Página 152 min
Crónica Fazer bem o bem-fazer foto arquivo “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” poderá parecer uma dúbia orientação moral com tiques mercantis, uma espécie de negócio com o Ser Supremo: dar, para vir a receber. Para personalidades “fortes”, parecerá uma pieguice, exortando a ser-se bonzinho. Jesus de Nazaré, Príncipe da Paz e pedagogo incomparável, em tudo o que fazia (o seu falar, agir, viver, morrer) tanto emanava doçura como solidez e fortaleza.
É certo que, por exemplo no século passado, o aspecto moral do seu ensino não se mostrou convincente à análise do renomado filósofo ateu “sir” Bertrand Russel, autor do famoso “Por que não sou cristão”. Mas por muita elevação que nós, cristãos, encontremos no aspecto moral da doutrina de Jesus, o rabi nazareno consagrou-se como muito mais do que um moralista. A sua vida, a profundidade do seu magistério singular testemunham a dimensão altíssima donde lhe provinha a inspiração; dessas culminâncias manava a energia mística de que se imbuía o discurso do divino amigo, fazendo da sua nobre moral muito mais do que “mores” (isto é: usos e costumes susceptíveis de modificação com o tempo, com o espaço, com as culturas humanas).
Tratava-se, antes, de princípios duma moral universal, permanente, supra-social, repassada de alto potencial místico (sem conotação alguma ao sentido pejorativo do termo misticismo). Pelo discernir metafísico e experiência mística se poderá, pois, aceder a concepções mais profundas contidas na docência de Jesus, do que permitiria a simples reflexão moral. E daquela perspectiva, já nada se vê de piegas ou mercantil no enunciado da bem-aventurança posta em foco, nem em qualquer outro ensinamento do Bom Pastor.
Os misericordiosos alcançarão misericórdia, simplesmente porque a tónica vibratória da misericórdia (distinta do mero acto externo de doação) implica um estado harmonioso de exultação interior, que em absoluto prescinde de prémios: ele próprio, veiculando o ditoso reino de Deus no foro íntimo de cada um, sacia plenamente, não carece de mais recompensas. Sócrates, notável precursor do Cristianismo e do Espiritismo, ponderava que o melhor prémio duma boa acção é tê-la praticado.
Os misericordiosos alcançarão misericórdia, simplesmente porque a tónica vibratória da misericórdia (distinta do mero acto externo de doação) implica um estado harmonioso de exultação interior, que em absoluto prescinde de prémios: Quem não viva aquele íntimo júbilo e harmonia, por muito que exteriormente pareça DAR, não estará a praticar nenhuma “obra de misericórdia”, com garantias de beatitude; e pode mesmo envolver-se em farisaica sementeira de calculismo, interesse, vaidade…, com garantia, isso sim, de colheita amarga e expiação “até ao último ceitil”.
Uma fria racionalidade cerebral, analítica, mecanicista, muito válida na esfera própria da sua aplicação, por si só não lograria abeirar-nos dos tesouros de fé crística (mais do que “cristã”), que o Educador ímpar da Humanidade nos veio patentear. Numa escala de energias, aquela racionalidade situa-se bem abaixo do elemento místico; mas, consciente ou não disso, pode ser por ele enriquecida e tornada apta a expressar um pálido reflexo do mesmo: a fé “raciocinada”, única a encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade (cfr “Evangelho segundo o Espiritismo”, capítulos 1.
