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Opinião Trigo e joio: a quem cabe separar?

Jornal de Espiritismo nº 48 · Setembro 2011Página 147 min

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foto loucomotiv O episódio da parábola do trigo e do joio ocorreu na primeira metade da vida pública do Cristo, quando o Senhor substituía João Batista na liderança dos crentes para o batismo do espírito. O local escolhido foi junto a uma margem, provavelmente no mar da Galileia perto da casa de Simão, onde Jesus normalmente se recolhia e de onde partia para as suas pregações.

Inserida entre várias que o Mestre contou à multidão nessa tarde, a parábola do trigo e do joio é, a pedido dos discípulos, explicada, desdobrando-se portanto em dois momentos, quando o Mestre conta a parábola às gentes humildes (Mateus: 13; 24-30) e quando a parábola é explicada depois do entardecer, provavelmente já em privado na casa de Simão em Cafarnaum (Mateus: 13; 36-43). Percebia-se que por todo o lado surgiam profetas que se intitulavam pregadores da Boa Nova.

Multidões desorientadas e lideradas por pregadores que se diziam continuadores de João Batista, deambulavam pelas margens do Jordão, dispersando-se pela Palestina e Síria. Líderes da revolta popular contra o domínio romano, após ouvirem as lições do Senhor, usavam-lhe a doutrina, germinando a discórdia em nome da solidariedade entre os homens (No Roteiro de Jesus: 13) e todos asseguravam falar em nome da Grande Estrela.

Foi por isso que Simão, aproveitando uma pausa aquando da explicação da parábola do semeador, interpelou o Cristo: - Mestre, e que faremos dos que exploram a ideia do Reino de Deus? Em muitos lugares encontramos aqueles que formam grupos de serviço em nome da Boa Nova, tumultuando corações em proveito próprio. Será justo subordinarmo-nos à astúcia dos ambiciosos e à manha dos velhacos? Como relegar o Evangelho à dominação de quantos se rendem à vaidade e à avidez da posse, ao egocentrismo e à loucura?

- Simão, antes de tudo é preciso considerar que o crime confesso encontra na lei a corrigenda estabelecida (…) Se há juízes no mundo que nasceram para o duro mister de rectificar, aqui nos achamos para a obra do auxílio. (…) O apontamento judicioso ficou no ar e, como ninguém respondesse, Jesus espraiou o olhar no horizonte longínquo e ditou a parábola do trigo e do joio. (No Roteiro de Jesus: 13) O momento da explicação da parábola aos discípulos, o mais relevante para a análise que aqui se propõe ser feita, surge no texto de Mateus da seguinte forma: - “O semeador da boa semente é o Filho do Homem.

O campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do mal; o inimigo que o semeou é o adversário; a colheita é o término do eon; os ceifeiros são os espíritos (mensageiros). Então, como é colhido o joio e queimado no fogo, assim será no término do eon: enviará o Filho do Homem seus mensageiros e recolherão de seu reino todas as pedras de tropeço e os que agem ilegalmente, e os lançarão na fornalha de fogo; aí haverá choro e ranger de dentes.

Então os justos brilharão como o sol no reino do Pai deles. Quem tem ouvidos, ouça”. (Mateus: 13; 36-43) Mas esta passagem que os apóstolos perpetuaram nos textos do Novo Testamento, é agora desenvolvida por Amélia Rodrigues e cuja síntese aqui se apresenta. O mundo é o campo imenso e abençoado que aguarda a sementeira. Dependendo de quem o utiliza e continua a sementeira, assim frutificará. Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem, Jesus que distribuiu as máximas cristãs para chegar a todos.

A boa semente são os filhos do reino, a mensagem renovadora de um Deus de justiça, perdão e amor. O joio são os filhos do maligno, que são os desvios de conduta dos que ainda não têm força para suplantar a tentação do erro. O inimigo que semeou o joio é a inferioridade moral que nele predomina, que o impede de progredir sustendo os seus passos. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros os anjos. O mundo moral está em constante transformação, por causa da transitoriedade da existência física, das suas alternâncias e dos seus processos degenerativos.

Encerrando-se o capítulo existencial, chega o momento da ceifa, que se apresenta na consciência. Assim, pois, como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo, quando cessar a experiência carnal de cada criatura, que enfrentará a semeadura do mal realizada no próprio coração. O Filho do Homem enviará os seus anjos que hão de tirar do seu reino todos os escandalosos e todos quantos praticaram a iniquidade, e lançá-los-ão na fornalha ardente; ali haverá choro e ranger de dentes, porque enquanto depositário do livre arbítrio, foi ao Homem fortalecido o auxílio através da consciência e após ignorar os alertas recebidos, quando perscruta o erro em que cai e se depara destituído da oportunidade da reparação imediata, cai em desespero torturando-se a si mesmo.

“O anjo da morte e dos renascimentos físicos, após colher os aficionados do escândalo, do crime, da perversão, seleccionará aqueles que poderão prosseguir na Terra e aqueles outros que serão enviados ao exílio em mundos inferiores, mais primitivos e infelizes, onde recomeçarão a jornada interrompida, em condições muito menos propiciatórias.” Os justos resplandecerão como o Sol, no reino do seu Pai, porque já alcançaram a paz em si mesmos, livres das tribulações íntimas que proporcionam a queda no crime e que antes os dominavam.

(Até ao Fim dos Tempos: 6) O Criador faz recurso de afectos, situações variadas, estímulos surpreendentes ou responsabilidades que apelem ao coração desses espíritos, para os impulsionar à mudança, à reforma íntima. Percebido o significado das diferentes expressões, cumpre esclarecer a finalidade com o que o Pai permite a germinação partilhada de ambos. É Emmanuel quem comenta: “Quando Jesus recomendou o crescimento simultâneo do joio e do trigo, não quis senão demonstrar a sublime tolerância celeste.

” E explica que o joio não cresce por relaxamento de Deus, mas antes porque o Pai nos garante ser de lei a “vitória final do bem”. “Tarefas espantosas mobilizam falanges heróicas; contudo, apesar da dedicação e da vivência dos trabalhadores, o joio surge ameaçando o serviço. Jesus, porém, manda aplicar processos defensivos com base na iluminação e na misericórdia. O tempo eabênção do Senhor agem devagarinho e os propósitos inferiores se transubstanciam.

” Muitas plantas espinhosas ou estéreis são modificadas. O Criador faz recurso de afectos, situações variadas, estímulos surpreendentes ou responsabilidades que apelem ao coração desses espíritos, para os impulsionar à mudança, à reforma íntima. Mas quando chegado o momento da ceifa, depois da concessão de períodos para o exercício do livre arbítrio ao longo dos séculos, faz-se “necessária a eliminação do joio em molhos”.

(Vinha de Luz: 107) Aliás, estas orientações não são muito diferentes das que Cairbar Schutel já havia referido: “O homem tem sido, em todos os tempos, o eterno inimigo da Verdade. (...) O joio está para o trigo, assim como o juízo humano está para as manifestações superiores”. E reforça a particularidade do momento que estamos a atravessar quando explana declarando que “este joio já agora de milénios, e que começou a surgir por ocasião da semeadura do bom trigo, nasceu, cresceu, abafou a bendita semente porque, segundo diz a parábola, quando o Cristo falou, os homens não lhe deram atenção, mas dormiram (...)

E como depois, pela mescla da Palavra do Cristo com as exterioridades (...) se fizesse confusão idêntica à do joio e do trigo, (...) o Senhor deliberou esperar a ceifa, quer dizer, o fim dos tempos, que deveria apresentar o produto da sua Palavra e os resultados das religiões sacerdotais, com as suas pompas, para que os ceifeiros ficassem encarregados de queimar o “joio” e recolher o “trigo” ao celeiro. É o que estamos fazendo, e estes escritos elucidativos não têm por fim elucidar a Doutrina do Cristo, que é toda Luz, mas queimar com a chama sagrada da Verdade, o joio malfazejo, reduzi-lo a cinzas, a fim de que o Cristianismo domine...

” (Parábolas e Ensinos de Jesus). Percebe assim que, nesta como em outras tantas coisas, era necessária a vinda de movimentos e ideias contraditórias às máximas do Cristo, para que o Homem, inábil na escolha do seu caminho, aprendesse pelo erro e engano semeado pelos falsos profetas dos últimos séculos. De volta ao diálogo de há 2000 anos, calou- -se o Cristo, pensativo… e Simão, volveu a perguntar: - Senhor, em nosso caso, quem colherá a verdade, separando-a da mentira?

- Pedro, o tempo é o grande ceifador… esperemos por ele, cumprindo o dever que nos compete… a vida e a justiça competem ao Pai, e o Pai decidirá quanto aos assuntos da vida e da justiça (No Roteiro de Jesus: 13). “A Sua voz permaneceria fixada na memória deles para sempre (...) A partir daquele momento as responsabilidades cresciam e delineavam com maior precisão os compromissos que firmariam com o suor do trabalho e do sangue do sacrifício.

Já não eram mais os mesmos, aqueles homens simples (...) Eles eram a síntese da humanidade (...) - homens toscos e modestos, sem dúvida, no corpo, mas antes de tudo, espíritos convidados para o grande banquete da Boa Nova, para o qual vieram…” (Até ao Fim dos Tempos: 6)... Talvez não tão diferentes de cada um de nós!