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Literatura Doutores da alegria “O riso é um tónico, um alívio, uma pau

Jornal de Espiritismo nº 48 · Setembro 2011Página 197 min

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Literatura Doutores da alegria “O riso é um tónico, um alívio, uma pausa que permite atenuar a dor.” Charles Chaplin “Doença” e “Criança” são duas palavras que gostamos de ver afastadas numa mesma frase. A doença rouba à criança o seu fogo de vida, escondendo o que é mais fascinante do seu temperamento: o sorriso transparente, a espontaneidade, a jovial irreverência, a alegria com que pinta todos os lugares onde se apresenta.

Presa num quarto de hospital infestado por agulhas malvadas, tubos antipáticos e aparelhos mal-encarados, atormentada pela assustadora dimensão dos seus medos e da sua dor, rodeada por gente séria e preocupada, a criança/paciente fica sem condições para brincar e saltar, sem vontade de sorrir, beijar e abraçar, restando como únicas alternativas, a tristeza, o desânimo. Mas felizmente, em muitos hospitais do Mundo inteiro já existem especialistas em “besteirologia”, mestres na difícil arte de recapturar os sorrisos perdidos e levá-los para dentro do ambiente hospitalar.

Em Portugal, a organização “Operação Nariz Vermelho” http://www.narizvermelho.pt/ tem um trabalho muito activo nesta área. Este documentário tocante de Mara Mourão mostra-nos o trabalho da organização sem fins lucrativos brasileira “Doutores da Alegria”. Constituída por artistas profissionais, esta associação usa o talento, o sentido de humor e a sensibilidade dos seus membros como antídotos contra a tristeza e apatia de crianças hospitalizadas.

Através de alguns testemunhos e de confidências, ficamos a conhecer melhor as motivações e experiências dos artistas. Intercalados com esses depoimentos, vão sendo exibidas imagens reais da prática clínica dos “besteirologistas” com as crianças, seus familiares e os profissionais de saúde. É fascinante perceber a transformação do ambiente hospitalar através do humor, da música, da criatividade e da imaginação, deixando um rasto mágico de alegria e boa disposição em lugares que parecem alérgicos a sorrisos.

Enquanto quem assiste ao filme vê crianças doentes, os “besteirologistas” vêem mais além: eles vêm crianças que querem brincar e procuram a melhor forma de concretizar essa vontade. Vendo o filme, as gargalhadas serão inevitáveis mas os lenços imprescindíveis. Fica difícil segurar as lágrimas ao ser confrontado com a sensibilidade e o amor que os palhaços colocam no seu trabalho e, mais ainda, ao percebemos como as crianças, mesmo enfrentando doenças angustiantes, se mostram tão receptivas aos estímulos divertidos dos animadores.

É uma verdadeira lição de vida. A ideia preconceituosa do palhaço como arte menor cai por terra depois de assistirmos a “Doutores da Alegria”. Através dele se percebe que, na verdade, a arte do palhaço realizada pelos Doutores da Alegria é a expressão mais sublime que uma arte pode alcançar, conseguindo arrancar sorrisos de dentro do medo, acendendo luzes de esperança onde reina a tormenta do desespero. É a arte ao serviço da transformação e transcendência do seu público.

O filme “Doutores da Alegria” não é um filme sobre palhaços, muito menos sobre crianças hospitalizadas. É um filme que nos traz uma mensagem de esperança para um mundo sisudo, é um comovente apelo à transformação através do amor, da dedicação e da alegria. Os palhaços e as crianças deste documentário mostram que, mesmo sem um nariz vermelho, qualquer um pode transformar os lugares em que se encontra através da boa disposição, da simpatia e da vontade.

Deixando de focar as nossas energias unicamente nos problemas, por mais graves que eles sejam, conseguiremos ver mais além e seremos capazes de expressar a nossa alegria de viver, criando laços de afecto e solidariedade com todos os que nos rodeiam independentemente da sua condição. Quando juntamos amor, alegria, acção e criatividade ficamos muito mais próximos de Deus. E não existem limites para o amor e para a criatividade, são infindáveis as formas de estarmos disponíveis para ajudar aqueles que precisam.

“A besteirologia deve ser aplicada diariamente até que o paciente não saiba mais como ficar triste. É remédio para a vida toda.” - Doutores da Alegria Por Carlos Miguel E a Vida Continua… E a Vida Continua… é a última grande reportagem de André Luiz sobre a vida no Mundo Espiritual. Na presente obra o cientista desencarnado, logo após as palavras, sempre esclarecidas, de Emmanuel, na apresentação do livro, faz questão em homenagear o primeiro centenário da última obra básica da codificação do Espiritismo — A Génese (1868).

Será que André Luiz ao fazer esta homenagem está a fazê-lo por capricho ou snobismo? Não! Será para decorar o início do livro? Não! Será que haverá da sua parte qualquer outra intenção que no momento nos escape ao entendimento? Sim, há! Ele é bem intencional no seu objectivo. O que o inusitado repórter nos está a dizer, é que sem a leitura e estudo atento da obra centenária de Allan Kardec, ficamos limitados, ou mesmo incapacitados de entender este notável livro da lavra mediúnica do abnegado médium de Pedro Leopoldo.

Sem a informação contida nessa obra de Kardec sobre: o Consolador, o Mundo dos Espíritos e muito particularmente sobre o perispírito e os fluidos, ficamos impossibilitados de entender E a Vida Continua…, ficamos com a opinião de que estamos perante uma narrativa fantástica para nos distrair, uma narrativa surrealista. A Editora (FEB) é muito feliz ao registar na contracapa: Este livro apresenta o retrato espiritual da criatura ao desencarnar e demonstra que a vivência dos habitantes do Além está relacionada com a sua condição mental.

Lembramos que André Luiz traz-nos notícias do além-túmulo como nunca ninguém o tinha feito até então, não obstante os relatos inspirados de Dante na sua Divina Comédia; os vislumbres mediúnicos de Swedenborg; as descrições recebidas por Vale Owen, vigário de Orford; e, a monumental obra de Yvonne do Amaral Pereira — Memórias de um suicida (a que mais se aproxima da grande revelação do repórter do além-túmulo). A insólita revelação, constituída por 11 reportagens, leva-nos a viajar no Mundo Espiritual, pelos olhos, pelos ouvidos, pelas sensações, pelas emoções, do repórter e das suas personagens reais, como se vivêssemos as situações in loco.

É simplesmente impressionante! Fascinante! Jamais alguém escalpelizou a alma humana como o fez André Luiz, tendo como local de observação o Mundo Espiritual, através da mediunidade incomparável de Francisco Cândido Xavier. Ao acompanharmos os passos das duas personagens principais encarnadas: Evelina Serpa, jovem senhora católica, e de empresário ateu, Ernesto Fantini, já na maturidade, ambos gravemente doentes; vamos segui-los depois na Vida Espiritual, sem que os mesmos tomem consciência de que já não pertencem ao mundo dos “vivos”.

Também, ambos têm um problema de consciência que lhes macera a consciência. Uma das situações mais curiosas e insólitas que nos é relatada, é a relutância, tanto de Evelina como do Sr.Fantini, em admitirem que já estão desencarnados. Mesmo perante uma palestra de um instrutor para neófitos na Vida Espiritual, de que passamos um extracto, ainda ficam com dúvidas da sua situação, que achavam diferente, mas não tanto para se julgarem na vida “post-mortem”: «— Irmãos, até ontem éramos parte integrante da colectividade humana – a nossa bendita família da retaguarda – e acreditávamos no poder de julgar-nos uns aos outros.

Encastelados nas ideias religiosas que supúnhamos escravizar a serviço de nossas paixões, imaginávamos adversários e transviados quantos não pensassem por nossos princípios. Interpretávamos os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme o nosso arbítrio, exigindo que o Senhor da Vida se nos fizesse rebaixado servidor, na estrada sombria e tortuosa que não nos cansávamos de palmilhar; entretanto, despojados hoje do corpo de matéria mais densa que nos acalentava as ilusões, aprendemos que todos somos consciências deficitárias perante a Lei.

[…] O que tenhamos sido no imo do sentimento, enquanto na existência do corpo terrestre, somos aqui. […] Neste pouso de luz que o Senhor nos faculta por moradia temporária, percebemos, sem qualquer constrangimento de ordem exterior, que todos os apetrechos mantenedores das aparências que nos disfarçavam no mundo, para o desempenho do papel que nos cabia na ribalta humana, nos foram retirados, a fim de que sejamos aqui, na esfera da realidade espiritual, quem nos propusemos ser, com tudo o que tenhamos ajuntado em nós de bem ou de mal, durante o estágio na escola física!

Muitos de vós outros carregais ainda hábitos e enganos da experiência carnal que, gradativamente, perdereis por não encontrarem neste meio qualquer significação…» Só mais tarde, perante uma situação de evidência óbvia, é que tomariam consciência de que os seus veículos físicos já tinham baixado há muito ao laboratório da natureza, sem que na altura se apercebessem disso. Nas suas histórias pessoais, aparentemente independentes uma da outra, houve duas mortes violentas de pessoas próximas.

Suicídios? Homicídios? Não vamos dizer para manter o interesse, a curiosidade, que por certo levarão o interessado à leitura e estudo da obra. Com este livro é-nos esclarecido em definitivo a questão sempre pertinente e polémica (polémica para os que não se esforçam por aprender), do esquecimento do passado, tanto de outras passagens pela Terra, como das vivências nos intervalos das “vidas”, muito particularmente das experiências vividas no Mundo Espiritual, antes da última existência, a que se encerrou com o sepultamento do corpo carnal, pois os Espíritos informaram no Livro dos Espíritos que após o decesso, o espírito recobra a memória do passado.

Esta narrativa verídica, – pedagogicamente perfeita, pois é constituída apenas por 26 capítulos com média de seis-sete páginas cada, o que facilita sobremaneira a sua leitura, tornando-a leve a agradável –, deve ser lida e estudada por todos os que já se interessam pelos grandes enigmas da vida e do destino humano.