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Jornal de Espiritismo nº 48 · Setembro 2011Página 85 min

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Opinião www.adeportugal.org curso básico de espiritismo on-line em Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal PUBLICIDADE foto sxc Inteligência e emoção A emoção é vista frequentemente como um sinal de fraqueza e a inteligência como algo que sabe sempre a pouco: nem 8 nem 80, o ponto de equilíbrio está não na quantidade mas na qualidade do uso que cada um dá ao que tem... Quando Jesus disse «Bem-aventurados os pobres de espírito porque alcançarão o reino dos céus» não estava a depreciar a capacidade de pensar bem e de resolver problemas, regra geral, a definição que o senso comum dá de inteligência.

Referia-se o Mestre sim à pretensa sabedoria, inclusive à arrogância dos doutores da lei que à maneira de sábios feitos à pressa atribuíam a si próprios uma superioridade que de facto não existia. Afinal, algo que passados dois mil anos ainda se repete em moldes idênticos. Não é assunto em que valha a pena ficar muito tempo, interessa mais rever três domínios que se ligam a esta questão tão importante para as traves-mestras do comportamento no dia-a-dia, já que é essa a pedra-de-toque sublinhada pelos espíritos esclarecidos como a porta realmente importante para o autoconhecimento e a espiritualidade.

Estamos a falar do instinto, da emoção e da inteligência. No percurso evolutivo, o princípio inteligente ensaia as experiências evolutivas mais variadas, no cadinho do tempo. Quando um peixe do grupo dos ciclídeos defende a postura por vezes de peixes bem maiores que ele, sentirá emoções? Ou um elefante que manuseia os restos de um seu velho conhecido no trânsito migratório que o leva de pastagem em pastagem sentirá emotividade?

É possível que esteja aí o alvorecer das emoções e da inteligência que leva inúmeros animais a resolverem os seus problemas, pois se o não conseguissem fazer não sobreviveriam o suficiente para passarem os seus genes. O que parece ser certo e sabido é que há emoções que na evolução se tornaram defesas numa perspectiva de sobrevivência. É o caso, entre outros, do medo e da coragem, do ódio e do amor. Quando um pequenito está de noite a lavar os dentes e a velha bóia do autoclismo range de forma invulgar, ele sai a correr com a escova dos dentes a perguntar aos pais o que é que anda ali tão ameaçador.

Sem ser bom exagerar, o certo é que o medo previne o nosso organismo de danos eventualmente irreversíveis. Eis um exemplo, acentuado para quem tenha vertigens: saltar temerariamente. Instintos aos molhos Há instintos profundos que vêm à superfície quando estimulados. As mensagens publicitárias costumam levar isso em conta. As dos brinquedos, dos gelados, das bebidas, das fraldas... Exemplo de instintos são o instinto de conservação – desejo de manter uma situação confortável, de defender a integridade física.

Por sua vez, o instinto maternal-paternal induz sentimentos de ternura, de protecção. Outro, o instinto de posse, deve controlar-se, pois tende a arrastar ao desejo de possuir bens, vitórias, poder, prestígio, descurando a outra face do êxito material, gerando desequilíbrios da personalidade. Contudo, se relacionarmos instinto e inteligência depressa chegamos a este resultado – o instinto é infalível, automático, perfeito.

As cegonhas ao fazerem o ninho não aprenderão, fá-lo-ão arrastadas por uma pulsão em que agregam paus, trapos, palha e por vezes até pedaços de plástico. O ninho lá fica e cumpre a sua função sem tropeço. A inteligência é falível, premeditada, imperfeita. O silogismo é um exemplo. Se uma premissa for inexacta o resultado sai errado. Essa carência de perfeição tem a ver com os dados aferíveis e com a forma de os relacionar, presume-se.

Inteligências várias Hoje, diz-se, temos múltiplas inteligências. Neste ponto de vista, cada pessoa desenvolve mais do que um único tipo de inteligência. Algumas destas inteligências já fazem parte da natureza humana; outras são adquiridas através do ambiente em que se vive, de que são exemplo a família ou a escola. Howard Gardner, da Universidade de Harvard (EUA), um dos autores, resumiu a sete as principais inteligências do ser humano.

Uma é a inteligência corporal. Esta tem a ver com consciência e sensibilidade corporal, habilidade no desporto, alto grau de motricidade e coordenação. Outra é a inteligência verbal. Liga-se à habilidade de oratória, à boa dicção e pronúncia, a uma expressiva capacidade para debate e discussão. Vem depois a inteligência auditiva, que agrega sensibilidade musical, audição apurada, erudição para cantar e interpretar música.

Segue-se a Inteligência racional, aquela capacidade para raciocinar, ou habilidade para deduzir e decifrar, com base no pensamento lógico e sequencial. A inteligência espacial tem a ver com a habilidade de criar imagens e visualizar, a capacidade de planear e prever, englobando ainda a visão em geral (restrita, ampla e periférica). A inteligência intrapessoal prende-se com um alto grau de consciencialização, capacidade de autoconhecimento, capacidade de auto- controlo e autogestão.

A inteligência interpessoal, por sua vez, inclui alto grau de sensibilidade e discernimento, bem como capacidade de empatia e sinergia, sem descurar a habilidade interactiva em grupo (jogar). Emoções Então onde cabem as emoções neste universo da inteligência? Estão ligadas ao processos de elaboração, de retenção de memórias, desempenhando papéis que podem ser ignorados, incompreendidos, mas que não deixam de ser essenciais no funcionamento da mente.

Na verdade, não adianta a ninguém ser muito inteligente se não usar bem esse talento, que é também função do cérebro de que se dispõe nesta passagem material. Realmente importante, o que será então? Usar bem a inteligência que se tem. Exactamente como na história que se conta às crianças sobre a corrida da lebre e da tartaruga, acabando o réptil por chegar primeiro à meta. O ponto de equilíbrio está não na quantidade disponível, mas sim na qualidade do uso que se faz da inteligência e também da emoção.

Existem emoções das mais variadas, mas poderão ser distribuídas por dois grupos. Vamos classificar as emoções negativas e as positivas. As primeiras juntam tristeza, desalento, solidão, amargura e afins. São úteis quanto baste para alertar a pessoa em causa de que a sua conduta não está no melhor caminho. Todas elas têm causas e pedem solução. Determinado tipo de causas originadas no próprio ser provocam efeitos compatíveis.

Mudando-se por comportamento activo a natureza das causas qualquer um vai entrar no outro grupo de emoções: as emoções positivas. Neste último conjunto temos a afectividade, a humildade, a paz, a caridade, a alegria, a disponibilidade para ser útil ao nosso semelhante e todas as que resultam em bem-estar interior. Para além de todas essas considerações e hipóteses, o que temos como certo é que quem se queixa sistematicamente afasta, quem exterioriza boas emoções atrai.

Importa, assim, reter no dia-a-dia pensamentos, atitudes e palavras que nos induzam e a outrem a comportamentos construtivos, para que o horizonte evolutivo não se torne confuso e a luz permaneça. Por Jorge Gomes jorg.cbe@gmail.