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Jornal de Espiritismo nº 48 · Setembro 2011Página 96 min
Opinião PUBLICIDADE A difícil arte de ser jornalista espírita PUBLICIDADE Há 150 anos, os espíritos deram a Allan Kardec um roteiro de comunicação espírita. Quase todo o centro espírita tem um pequeno jornal, mural informativo ou boletim. Alguns imprimem a cores, outros fazem boletins fotocopiados. Quem não tem veículo próprio, põe no mural o jornal de uma união regional ou de outro centro espírita. Programas de rádio, revistas, páginas na internet, revistas e alguns poucos – e honrosos – esforços para fazer programas de televisão mostram o quanto as instituições espíritas vivem enamoradas da comunicação social.
Mas há conflitos sérios nesse relacionamento. É lugar-comum dizer que falta profissionalização da comunicação social espírita. Como é de conhecimento geral, há problemas crónicos. Duas situações são típicas. A primeira é que os jornalistas são geralmente muito atarefados e não conseguem – na condição de voluntários – colaborar com a regularidade que a comunicação social exige. A segunda ocorre quando o jornalista é chamado a trabalhar profissionalmente e tem de enfrentar as idiossincrasias locais.
Em outras palavras: a comunicação social tem de se adaptar à visão parcial (e amadora) do dirigente. O jornalista então é visto não como um profissional de mercado, que cursou uma universidade para bem desempenhar a sua profissão, mas como alguém que está ali apenas para expressar vontade e pensamento de uma outra pessoa. Assim, subvertem-se papéis e funções, limites são ultrapassados e todos perdem. A falta de diálogo e reflexão sobre a comunicação social traz prejuízos consideráveis à divulgação da doutrina.
Um corpo teórico que normalize procedimentos e rotinas ainda é uma lacuna a preencher. A isso somam-se outros problemas rotineiros nas agremiações humanas, inclusive espíritas: os avanços do personalismo, da politiquice, das atitudes ególatras, da falta de humildade para avaliar com isenção potenciais e desempenhos, sem se deixar cegar pela bajulação e mantendo o foco na divulgação. Sobre essa montanha de problemas pode-se acrescentar ainda os palpiteiros de plantão e os que julgam conhecer profundamente uma profissão diversa da sua unicamente porque assumiram cargos de direcção em instituições espíritas.
O resultado disso é o cenário actual: raros veículos cumprem a função básica da comunicação social. Poucos informam com agilidade, trazem textos enxutos ou diagramação, fotos, roteiros e edição de boa qualidade. Muitos textos mornos, insípidos, que não atraem o leitor. Escrever é uma arte. Escrever jornalisticamente é uma ciência. E os dirigentes espíritas ainda não descobriram isso. Geralmente toma-se como modelo de texto os romances espíritas, com histórias emocionantes e bem narradas, mas com uma abundância de adjectivos e advérbios incompatível com o texto jornalístico.
Mais grave: o conjunto do movimento espírita incorporou ao seu linguajar intramuros expressões e construções de frases em moda na primeira metade do século XX. Na prática, temos jovens de 20 anos que negam o que de mais belo uma língua falada possui: a dinâmica. A Língua é viva, móvel. Ajusta-se a tempos novos, incorpora expressões e jeitos de determinadas épocas, traduz o seu tempo. Em suma, carrega a marca da contemporaneidade.
E dessa forma vemos uma estranha dualidade: nas ruas, os espíritas falam uma língua compatível com a sua época, com os seus ritmos e avanços; mas na instituição espírita sacam de um vocabulário específico, em que palavras incomuns, algumas já em desuso, oferecem o estatuto da inclusão e da aceitação no grupo. Um fenómeno que merecia ser estudado: quanto mais próximo do vocabulário de alguns espíritos conhecidos pelos seus livros, mais o candidato a palestrante ou escritor tem hipótese de ser aceite e aplaudido.
Se conseguir construir frases rebuscadas, com as construções invertidas que indicam domínio do idioma, alcança a glória. Previsivelmente, transpõe-se a prática para a comunicação social. Mas tudo isso tem uma outra face difícil de encarar: para quem se está a fazer comunicação social espírita? Para o grupo de espíritas ou para o público que ainda desconhece a doutrina? A esse grupo externo causa estranheza essa linguagem nostálgica.
Também está desacostumado com uma outra prática que se incorporou ao quotidiano espírita: o bonitinho. Funciona assim: pessoas que fora da instituição espírita têm contacto com folhetos de qualidade, fotos bem tratadas, jornais e programas de TV de alto padrão, no centro espírita abrem mão de tudo isto. Passam a elogiar folhetos mal feitos, produtos de qualidade duvidosa, exageros de criatividade em que a técnica passou longe.
E escondem a opinião sincera sob a desculpa da caridade. “Ah, não está tão bom, mas a pessoa se esforçou tanto e, para agradar, vou dizer que está bonito”. Poderia ser assim: “Acho fantástica a sua boa vontade e o seu esforço, mas precisa de ajustes e de um tratamento profissional”. Mas então entra em cena um dos monstros que mais corroem as relações humanas: o melindre. E pensar que o Espiritismo veio justamente para libertar a nossa alma desses apegos infantis, desses sentimentos menores...
Mas isso é outra conversa. Exposto o problema, fica a questão: há como escapar desse cenário? A resposta foi dada há 150 anos. No dia 15 de Novembro de 1857, apenas seis meses depois do lançamento de «O Livro dos Espíritos», Kardec interrogou os instrutores desencarnados sobre a possibilidade de publicar um jornal espírita: o 1.º do mundo. A resposta – pela mediunidade de Ermance Dufaux – veio sob a forma de um verdadeiro manual de comunicação social espírita.
Manual que o codificador soube seguir à risca e que os espíritas do século XXI ainda não conseguiram pôr em prática. Quem se interessar pelo assunto pode consultar o texto. Está em «Obras Póstumas», 2.ª parte, e chama-se “A Revista Espírita”. Os olhos de um jornalista verificam com facilidade que cada orientação dada pelos espíritos a Kardec é compatível com a moderna teoria da comunicação. Bem seguidas, sãoonéctar de um jornalismo que tem vibração e agilidade.
Ali, os espíritos falam de coisas sagradas para a comunicação social. Uma delas: melhor nada fazer do que fazer mal feito, já que a primeira impressão determina o futuro dos veículos de comunicação. Outro ponto: a regularidade que fideliza o público. Um dado curioso: Kardec insiste em saber se deveria ter um amigo para a financiar mas espíritas não se entusiasmam e ele opta por fazer a revista sozinho. Mais tarde (leia a nota de pé de página no livro citado), o codificador (Kardec) reconhece que as interferências do financiador poderiam ter comprometido o trabalho.
Traduzindo: a independência tem peso no bom jornalismo. Aspecto essencial que revela o pensamento avançado dos desencarnados: a sugestão de que o texto equilibre o estudo sério e os factos capazes de atrair os leitores curiosos. A genialidade de Allan Kardec manteve essa linha em 12 anos de “Revista Espírita”. Basta ler a publicação dele para se render aos títulos inteligentes e à selecção de matérias. Tudo muito interessante, provocativo.
O leitor é instigado. Lê-se a “Revista Espírita” de um fôlego só. Mesmo passados um século e meio, os textos continuam hipnóticos – marca registada de um bom escritor e de um bom jornalista. Aos jornalistas espíritas deste século, ainda resta uma esperança: redescobrir a orientação sobre comunicação social que permanece oculta nas páginas de “Obras Póstumas”. Por Sónia Zaghetto Fonte: Jornal «Vida Espírita» de Fevereiro 2008 Nota: Sónia Zaghetto é jornalista e colaboradora na divulgação da doutrina espírita.
Actuou como assessora de comunicação da FEB até Fevereiro de 2007 onde, além da assessoria de imprensa, desenvolveu projectos como o programa de TV Terceira Revelação. Colabora com o portal www.espiritismo.net e dirige o programa de TV Vida e Valores, da Federação Espírita do Paraná.
