Crónica Vislumbres da outra vida Os depoimentos são impressionantes
Jornal de Espiritismo nº 49 · Novembro 2011Página 127 min
Testemunhos pessoais de quem esteve tão próximo da morte quanto é possível estar, as experiências de quase-morte (EQM) hoje são inegáveis e a ciência vê-se forçada a investigar porque as alucinações, só por si, não satisfazem os factos. Será este regresso da “morte” o novo fenómeno das últimas décadas? A julgar pela história, afinal, de novo não tem nada.
O pintor Jerónimo Bosch produziu uma tela, no século XV, que é uma reprodução aproximada destes relatos vestida com a indumentária cultural quinhentista. Também outro seu colega, Gustavo Dorée, no século XIX, recria o tema. Teriam sido estas telas puro produto da imaginação ou centrar-se-á a sua origem neste tipo de experiência humana? Num documentário televisivo, Raymond Moody — médico e um dos principais investigadores de EQM — afirma que estes casos ocorrem há muito tempo, mas hoje em dia as modernas técnicas de reanimação cardio-pulmonar permitem ampliar a quantidade de experiências.
No início do século XX, a atenção para este fenómeno surgiu fragmentada, aqui e ali em relatórios médicos. Só mais tarde, quando figuras conhecidas começaram também a relatar as suas experiências de sair do corpo, uma das fases da EQM, é que se passou do secretismo para um patamar cuja explicação se acomodava na trémula hipótese da alucinação ou da fantasia. O conhecido psiquiatra suíço Carl Jung, em 1944, conforme conta nos seus escritos, certa vez partiu o pé, tendo de seguida uma paragem cardíaca: «Vivi então fenómenos muito estranhos.
Planava no Espaço e via cá em baixo o Globo terrestre banhado numa magnífica luz azul. Distinguia perfeitamente os mares e os oceanos, e a neve da cordilheira do Himalaia. Sentia-me prestes a deixar a Terra. O espectáculo daquela altitude foi o mais maravilhoso que já vi». Mas só na década de 1950 se começou a considerar a EQM como fenómeno com interesse, baseando-se a pesquisa nos depoimentos de milhares de testemunhas que por ela passaram.
Surgiu entretanto um livro “best-seller” norte-americano intitulado «Life after life» (vida após a vida). Assinava-o um jovem licenciado em Filosofia e em Medicina — Raymond Moody Jr. Este autor estudou ao longo da vida mais de duas mil EQM. Moody descobriu que o fenómeno de quase-morte era tudo menos raro. E não depende da causa da morte, nem do sexo, nem da idade, nem da cultura, nem da religião, nem da época. Um repórter pergunta a este médico — responsável pelo levantamento das EQM aos olhos da opinião pública — se havia provas da ocorrência deste fenómeno.
A resposta explica que há várias na certeza de que «nós sabemos que o fenómeno existe e não há dúvida de que é real, segundo muitos estudos. E é frequente entre sobreviventes de ocorrências quase fatais». Antigas e habituais O fenómeno EQM é comum, mas compreendê-lo até o discutir com abertura, não é fácil. O receio de contar e, muito mais, de se identificar é a atitude assumida, como se houvesse tabus sobre os quais ninguém devesse ousar falar.
Tentámos trazer um depoimento, o de um jovem que passou por uma EQM. Soubemos que ele passou por isso através de um amigo dele. Ele, no entanto, recusou-se: disse que nem os pais sabiam. O receio generalizado é este: temem ser considerados loucos. Quase sempre só passados alguns anos, quando percebem que não são um caso isolado, resolvem contar. Apesar da maior parte dos sobreviventes da EQM prefere não falar no assunto, há excepções e o assunto até tem aparecido em documentários de televisão de quando em vez.
«Estava deitada na mesa da sala de operações. O meu corpo estava lá, mas eu estava a flutuar por cima dele. Eu via- me como se estivesse morta. Também vi enfermeiras. Pareceu-me tudo muito real». E na infância? Um outro médico, o pediatra Melvin Morse, de Seattle, EUA, autor do livro «Closer to the Light» (“Mais perto da luz”, outro “best-seller” norte-americano, centra-se em crianças que passaram por uma EQM), conta o caso de um seu doente que, aos seis anos, teve uma paragem cardíaca durante uma operação: «A primeira coisa de que me lembro é de estar a olhar para cima.
E só via luzes, vermelhas, azuis, verdes, amarelas e de várias outras cores. Foi assim durante alguns minutos. Depois lembro-me de olhar para baixo, para mim. Eu parecia estar deitado numa mesa. Vi o pessoal médico vestido de azul e verde, à minha volta. E depois lembro-me que a luz desapareceu. De seguida só me lembro de ter acordado». Uma outra jovem diz que se recorda de uma passagem da sua infância vinculada a uma EQM: «Estava deitada na mesa da sala de operações.
O meu corpo estava lá, mas eu estava a flutuar por cima dele. Eu via-me como se estivesse morta. Também vi enfermeiras. Pareceu-me tudo muito real». São casos vários. Michele apresentou-se no hospital pediátrico com graves problemas de diabetes. «Encontrei-a quatro meses depois na urgência do hospital», diz, num documentário, Melvin Morse: «No relato que me fez, enquanto esteve inconsciente, ela disse-me que saiu do seu corpo.
Fez um desenho em que está deitada na maca. Os médicos, a seu lado, usam máscaras verdes. Quando ela desenhou isto, disse-me que eram ambas mulheres, o que é verdade». Dos vários pormenores que a Michele descreveu faltou um que é curioso: no desenho, ela não tem um “IV”, o tubo por onde é alimentada enquanto está inconsciente. Quando ela acordou no hospital estava entubada, como esteve durante a sua estadia. Ao pensarmos em doentes em estado grave, eles estão sempre entubados.
Mas ela não esteve entubada enquanto esteve na enfermaria. O tubo só foi colocado mais tarde». Etapas Kenneth Ring, professor de Psicologia na Universidade de Connecticut, em Hartford, EUA, resume as fases por que passam, regra geral, as pessoas que vivenciaram uma EQM: 1. Sensação de paz, de serenidade, tranquilidade. 2. Saída do corpo físico (“out-body experience”), em que são espectadores de uma cena em que vêem o seu próprio corpo.
3. Sensação de movimento, de flutuar, e aqui associa-se a ideia de passar num túnel escuro. 4. O encontro com o ser de luz, com a sua compreensão incondicional, o amor em elevado grau. Curiosamente, os ateus vêem a luz como um ser de bondade e sabedoria e os religiosos acrescentam-lhe o seu ideário: Deus, Jesus, Maria... 5. Vêem-se objectos, edifícios bonitos, jardins, pessoas conhecidas e desconhecidas, o «paraíso total».
De facto, há fases comuns a muitos relatos: escuridão, sentir-se deslizar, um túnel; sensação de flutuar; visualização do corpo físico e do cenário em volta; tentativa de interferência no ambiente (voz e tacto); visão retrospectiva, memória panorâmica (resumo audiovisual da vida), sentimento de alegria onde foram virtuosos e vergonha quando prejudicaram outrem; encontro com o ser de luz e o diálogo. Será de perguntar se haveria transições vibratórias nas fronteiras da vida, se a vida prosseguir após a morte corporal.
Ou seja, se o túnel — assim como o som de campainhas descrito por alguns ou o próprio ser de luz — é um cenário que é percebido apenas porque começa a haver um reajuste de percepções, sobretudo se equiparadas à nossa rotina visual e auditiva. Ou indagar, se houver uma saída do corpo, se o túnel seria como que uma primeira noção disso mesmo. Outro pormenor obrigatório consiste em as pessoas que passaram por uma EQM, apesar do bem-estar que tenham experimentado a dada altura, valorizam esta passagem na Terra, com o corpo físico.
Entendem que há algo a fazer aqui e, se o temor da “morte” se esboroa, pressentem no suicídio algo que nunca se deve fazer. Na prática espírita, é universal através da mediunidade saber- -se que sair desta vida por esse caminho leva a situações de dor por longo período, já que a natureza dos problemas permanece com a continuidade da vida espiritual em que cada um é o que leva dentro de si. Um caso Um médico de um grande hospital português, aceitou falar, anonimamente, de um caso ocorrido com ele próprio: «A senhora estava na cama, de olhos fechados, aparentemente sem respirar.
Auscultei-a. Pareceu- -me ainda haver sons cardíacos. Verifiquei que a pele da doente ainda estava quente: se tivesse morrido, isso teria sido há pouco tempo». O entrevistado escolhera um recanto discreto do amplo vestíbulo do hospital, naquela tarde calma de fim-de-semana. Olhos brilhantes, resolvera arriscar falar a um desconhecido sobre um arquivo secreto das suas memórias. O gravador... «bem, depois desgrava isto mal passe ao papel?!
». «Sim, sim!», tranquilizei-o. A voz é medida, palavra a palavra, pausada, mas expressiva. Rememora: naquela noite, os filhos da senhora octogenária procuravam-no, em casa, à hora de jantar. Não se conheciam. Esse encontro ocorreu em virtude da emergência. Informaram que a mãe estava naquele estado desde as duas da tarde.
