Entrevista uns doidos
Jornal de Espiritismo nº 49 · Novembro 2011Página 117 min
O homem nunca me tinha visto... chamava-me de Naldinho... falava-me de Meimei... Passado o susto, o reconheci, devido a uma reportagem da época publicada pela revista «O Cruzeiro». Era o Chico. Nós esbarramos numa rua de Belo Horizonte. Foi esse meu primeiro contacto com ele. Dali fomos para a casa do meu irmão Geraldo e, por meio da psicofonia, Meimei manifestou-se e dialogámos por mais de uma hora.
Então, iniciou-se minha amizade com o Chico. Na Espiritualidade, além do seu conhecido trabalho, que mais sabe sobre Meimei? Arnaldo RochaNo livro “Entre a Terra eoCéu”, de autoria de André Luiz, no cap. 9, título “No Lar da Bênção”, dirigido pela sua avó materna Antoninha, Meimei colaborava com ela na assistência a crianças desencarnadas. No cap.10, título “Preciosa Conversação”, dialogando longamente com o Espírito de Clarêncio e com André Luiz, ela fala das suas tarefas no Plano Espiritual e assistência às mães que pedem seu auxílio para os filhos enfermos.
Quando fiquei noivo de minha segunda esposa, Neuza Tófani, Chico contou-me que Emmanuel lhe dissera que Meimei o procurou solicitando o seu auxílio para sua reencarnação. Ele lhe respondeu que como minha esposa ela não poderia mais voltar, mas, como filha, seria possível. Porém, repreendeu-a para que deixasse de ter ciúmes daquela situação com vista a centenas de creches, abrigos e centros espíritas que levam o seu nome.
Como é possível a senhora, por uma questão pessoal, querer abandonar todas as suas responsabilidades? Se vier alguma consulta quanto à minha aprovação, será negativa. E que ela continuasse a dedicar-se ao trabalho que estava a realizar na Espiritualidade. Que pensasse nas creches que já estavam espalhadas pelo Brasil em seu nome, nas mães aflitas que lhe rogavam bênçãos para os filhos, e ela se resignou. Arnaldo, é sempre bom falarmos sobre reencarnação.
Li, certa vez, que participou de uma reunião com o Chico na qual foi revelado que o compositor brasileiro Radamés Gnatali era a reencarnação do compositor italiano Rossini. Pode falar-nos disso? Arnaldo RochaPedro Quintão, cunhado de Chico, casado com a Geralda, telefonou- -me numa noite de terça-feira convidando- -me para irmos a Pedro Leopoldo. Estava em sua casa o seu grande amigo Radamés Gnatali, o grande compositor.
Chegados lá, fizemos uma reunião com o Chico, onde o Espírito de Emmanuel deu uma bela mensagem na qual informava que o Radamés era a reencarnação de Rossini. Radamés e Pedro Quintão retornaram a Belo Horizonte e, como quarta-feira era feriado, permaneci. Caminhando para a casa de Chico lembrei- -me das nossas conversas na reunião e de que no livro «Obras Póstumas» existem duas mensagens de Rossini. Existem também informações de que Chico Xavier teria sido a encarnação de Allan Kardec.
Contudo, tem dito que ele foi a reencarnação da senhorita Japhet, médium contemporânea de Kardec. Pode comentar sobre essa controvérsia? Arnaldo RochaO campo da fantasia pulula lamentavelmente no meio espírita. De Hutsepsup, princesa egípcia, por volta de 3.256 a.C., até 1890 quando desencarnou na Espanha, em Barcelona, todas as reencarnações de Chico Xavier foram em corpos femininos, pois ele é um Espírito feminino.
Somente agora, nesta última existência, com vistas às suas responsabilidades, ele reencarnou como homem. Dialogando com Chico, falei-lhe de uma dúvida que era constante no meu pensamento. Consta que uma vez por mês, ou na casa do Sr. Roustan ou na casa do sr. Japhet, Kardec levava o material que seria «O Livro dos Espíritos», e o Espírito de Verdade fazia correções, aconselhando a sua publicação em 18 de abril de 1857.
Na casa do Sr. Roustan, Kardec falava sobre a médium (C), na do Sr. Japhet dava o nome todo da médium, Ruth-Céline Japhet. Chico corrigiu-me a expressão Japhet, dizendo que a pronúncia é “Japet”! A família era judia. Indaguei-lhe quem era Ruth Japhet. O que foi que o Chico lhe disse? Arnaldo RochaRespondeu-me sorrindo: “Está a conversar com ela...” Assim, Chico Xavier foi contemporâneo de Kardec e era a senhorita Japhet?
Arnaldo RochaEle mesmo disse isto a mim. Pode nos dizer qual foi a verdadeira relação entre Kardec e a senhorita Japhet? Arnaldo RochaA senhorita Japhet era médium e ela sempre colaborou com ele, desde o início, quando se conheceram na casa da senhora Plainemaison. Kardec consultava os espíritos por meio dela. De onde partiu a ideia de que Chico Xavier teria sido Kardec? Arnaldo RochaDe onde partiu não sei, não presto atenção.
Deve ser de pessoas que não conhecem a doutrina espírita. Há, na sua opinião, algo que possa dar um ponto final a essa divergência? Arnaldo RochaEm outras entrevistas que dou, procuro não dar ênfase a este assunto. Não dou atenção a fantasias. Tudo isto é uma ilusão que não acrescenta nada à doutrina. Como e qual foi a sua colaboração dentro da estrutura literária recebida pelo médium Chico Xavier? Arnaldo RochaCom a fundação do Grupo Meimei, graças à gentileza de Carlos Torres Pastorino, que nos doou um gravador de rolo, foi possível gravar as palestras de encerramento das nossas reuniões no Grupo.
Assim, Emmanuel, Teresa de Ávila, Frei Pedro de Alcântara, Camilo Chaves e outros facultaram-nos a organização de dois livros: «Instruções Psicofónicas» e «Vozes do Grande Além». Quando Chico foi de mudança para Uberaba, entreguei-lhe cerca de 30 mensagens devidamente organizadas para uma nova obra. Essas páginas infelizmente se perderam e não foi possível organizar um terceiro livro. Quando Chico Xavier se mudou de Pedro Leopoldo para Uberaba, como foi a sua participação dentro do trabalho que ele desenvolveu a partir daquela cidade?
Arnaldo RochaIa lá somente para o visitar. Arnaldo, algo nos intrigou bastante ao ver, na TV Globo, a minissérie Chico Xavier. A minissérie mostrou dois “Chicos” bem diferentes. O primeiro, representado por Ângelo António, é uma pessoa muito simples, que se veste mal e tem um comportamento humilde, como imaginamos que o Chico tivesse. O outro, representado pelo ator Nelson Xavier, é uma pessoa aparentemente vaidosa, preocupada com o seu visual e até mesmo um pouco “arrogante”.
É inconcebível que tenha ocorrido tal mudança. Dentro de sua convivência com o Chico, o que pode dizer-nos sobre o que foi mostrado na minissérie? Arnaldo RochaO filme e a minissérie não foram feitos por espíritas. O Chico era de uma pobreza impressionante, e Maria João de Deus, a sua mãe, era negra e todos os filhos que ela teve eram de morenos para mulatos. No filme apresentam uma pessoa clarinha. Outra coisa no primeiro momento do filme: mostram ruas altas e baixas.
Pedro Leopoldo é uma cidade plana. Nelson Xavier apresenta um Chico mais importante, quando na verdade era o contrário. Vejam a cópia do famoso “Pinga Fogo” e verão a veracidade do que digo. No nosso meio há de tudo o que se queira imaginar. Apesar de tudo isso, na sua opinião o filme foi importante para o movimento espírita? Arnaldo RochaSim. Muitas pessoas estão a procurar os centros espíritas para se informarem. É preciso que os espíritas estudem mais para ajudar a quem procura os fundamentos do Espiritismo.
No filme “Nosso Lar”, Emmanuel é apresentado como morador daquela colónia. Concorda com isto? Arnaldo RochaNão. Isto é uma adaptação do livro, aquilo que se chama de licença poética. Emmanuel simplesmente fez a apresentação do livro «Nosso Lar», bem como dos demais. Como vê o movimento espírita na atualidade? Arnaldo RochaVejo que o Espiritismo caminha, mesmo às vezes dependendo de muitos espíritas vagarosos ou ensimesmados.
O seu futuro é o do esclarecimento da Humanidade quanto à realidade do ser imortal que todos somos. Os espíritas precisam difundir mais «O Livro dos Espíritos». Poucos estudam essa obra, que é principal dentre todas as obras espíritas. Fiquei profundamente assustado, sabia lá o que era um médium clarividente? Mentalmente pensei que os espíritas todos eram uns doidos... O homem nunca me tinha visto... chamava-me de Naldinho...
falava-me de Meimei... Passado o susto, o reconheci, devido a uma reportagem da época publicada pela revista «O Cruzeiro». Era o Chico. Na sua opinião, como devemos estudar Kardec? Arnaldo RochaPara o iniciante na doutrina, aconselham-se os livros «O que é o Espiritismo» e «O Principiante Espírita», o que lhe dará embasamento para o estudo constante e permanente de «O Livro dos Espíritos», «O Evangelho segundo o Espiritismo», «O Livro dos Médiuns», «O Céueo Inferno» e «A Génese».
Digo também que não se deve confundir Espiritismo com mediunidade. Espiritismo é um corpo doutrinário e mediunidade é uma ferramenta de comunicação psíquica entre os seres. Falo sempre isto quando sou convidado a fazer palestras. Pode nos deixar uma palavra sobre Chico Xavier e Meimei? Arnaldo RochaForam as pessoas que me educaram na doutrina espírita. Devo muito a ambos e sou muito grato por isso. Algumas considerações finais?
Arnaldo RochaTenho 88 anos de idade, trabalho na União Espírita Mineira nas reuniões públicas de segunda-feira, em que faço um estudo metódico de O Livro dos Espíritos, e às quartas-feiras coordeno as reuniões mediúnicas de desobsessão, com dez médiuns psicofónicos. Isto felicita-me a alma. Vamos trabalhar pela divulgação do Espiritismo. Jesus no-lo ofereceu. Vamos auxiliar a quem nos pede ajuda. Nós recebemos muito todos os dias.
Por Guaraci Lima Silveira glimasil@hotmail.
