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Jornal de Espiritismo nº 49 · Novembro 2011Página 94 min
Entrevista PUBLICIDADE JoaquimFernandes:mediunidade nahistóriaportuguesa PUBLICIDADE Em 13 de Agosto passado, a revista inserida no «Jornal de Notícias» intitulada «Notícias Sábado» trazia um artigo - “Espíritas elegeram Manuel de Arriaga... trinta anos antes” - muito interessante de análise histórica da autoria de Joaquim Fernandes*. Centrada numa certa reunião mediúnica, esse facto levantou algumas perguntas e eis a entrevista...
Joaquim Fernandes é professor na Universidade Fernando Pessoa, Porto, co-fundador do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, (CTEC) nesta Instituição e co-editor da revista “Cons-Ciências”, editada por este Centro, na UFP. Qual a sua orientação religiosa? Joaquim FernandesNão tenho actualmente orientação religiosa, tendo tido uma educação católica tradicional. Adepto da livre investigação, da dúvida sistemática e da busca pela Verdade, defino-me como um gnóstico moderno, supondo nada significarmos de especial e relevante para o Cosmos, eterno e infinito Criador, porquanto quando desaparecermos como espécieo Sapiens sapiens e as futuras evoluções dos próximos miléniosnão deixaremos pegada nem memória na apocatástase derradeira do nosso Sol, esgotado dentro de 4 ou 5 mil milhões de anos.
Por isso, a História humana será sempre um detalhe de curta duração enquanto houver memória. Sendo historiador, do que conhecemos, já investigou dois casos com grupos espíritas (mensagem publicada num jornal diário que previa os fenómenos de Fátima e agora uma outra que previu com 30 anos de antecedência que Manuel de Arriaga seria eleito): porque enveredou por essas pesquisas? JFA consciência humana e os seus limites interessam-me em particular porque diz muito do que pode ser a nossa busca pela Verdade, sempre inatingível e inacessível a seres limitados como somos.
Os fenómenos espirituais e os movimentos espiritualistas, bem como as expressões da chamada religiosidade popular são alvos do meu interesse, investigação e análise comparadas, na contínua releitura do Tempo histórico e das diferentes versões e entendimentos que as formas e fórmulas de pensamento “religioso” se vão apresentando como solução última para responder às questões verdadeiramente essenciais que nos dizem respeito, a nósea todos os seres vivos e à Natureza em geral: quem somos, o que fazemos aqui e para onde vamos.
A previsão espírita do fenómeno em Fátima: como o explica? JFNão tenho explicação. Limito-me a verificar, pela investigação feita nos jornais nacionais, que o dia 13 de Maio de 1917 foi considerado de “uma extraordinária importância para a Humanidade”. Julgo que alguém ou alguma coisa se antecipou nos trâmites da percepção comum, da informação corrente, do futuro para o passado. E isso tem a ver com domínios da percepção extra-sensorial que muitas pessoas reivindicam, ultrapassando assim as fronteiras normais do presente e “antecipando” elementos do devir.
No que respeita à previsão sobre a eleição de Manuel de Arriaga, com 30 anos de antecedência, como explica? JFÉ a mesma questão que não tem explicação. É um presumível “salto no Tempo”, tal como em relação aos eventos de Fátima. Constatei que diversas fontes da época (1882) se referem à reunião do grupo de “magnetismo”, como era designado, e a interferência do alegado e invocado “espírito de D. Sebastião” é referido quer pelos presentes, quer pelos grupos católicos e respectivas imprensas, em textos que permitem estabelecer esta surpreendente previsão que dificilmente poderá ser atribuída ao acaso, pelo menos no plano estatístico, dado o número de candidatos do Partido Republicano em posição de vir a ser eleitos como chefes do Estado após a implantação da República no nosso país.
A consciência humana e os seus limites interessam-me em particular porque diz muito do que pode ser a nossa busca pela Verdade, sempre inatingível e inacessível a seres limitados como somos. Acredita que tenham sido seres inteligentes extracorpóreos (seres espirituais) que se tenham comunicado através dos médiuns portugueses? JFEssa é uma hipótese em aberto sendo que poderão haver modalidades alternativas, como a possibilidade da nossa consciência se desdobrar e expandir para lá dos limites do Tempo cronológico e aceder a dimensões ignoradas desse mesmo Tempo que seria já uma espécie de Futuro formatado e aguardando concretização pelo indeterminismo e o livre-arbítrio humanos.
Existem outras explicações para estes fenómenos, que sejam credíveis? JFA hipótese da nossa consciência não estar subjugada aos condicionalismos do Tempo cronológico do Presente tem sido suscitada por cientistas e pensadores de relevo após a revolução quântica do século XX. Que tipo de pesquisa, documentação e registo recomendaria aos espíritas portugueses actualmente? JFNeste momento estou a prosseguir o inventário e a investigação das fontes periódicas ligadas ao movimentos espírita e espiritualista em Portugal, que remontam a meados do século XIX, como seria de esperar, pela emergência da vaga do espiritismo norte-americano, mas antes disso ao chamado “magnetismo animal” que precede esse interesse desde a década de 1830 entre nós.
Parece existir uma linha de continuidade entre a prática clínica, por exemplo, das “curas magnéticas” e a moda vertiginosa das chamadas “mesas-girantes” que irrompe em Portugal, como de resto na Europa em geral, no ano de 1853. Algo que queira dizer.... JFApenas diria que estamos na pré-história do conhecimento do ser humano e das potencialidades que se nos apresentam como expressões vivas ao nível do Cosmos. Contudo, o nosso lugar numa escala gradativa de inteligências só será plenamente aferido quando nos confrontarmos com outras eventuais inteligências extraterrestres e se com elas pudermos comunicar, trocando níveis de experiência e de entendimento sobre a Realidade, ou seja, o Cosmos.
