Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 51 · 2012Página 810 min
João Xavier de Almeida é um experiente companheiro de ideal. Incansável e fraterno ativista da divulgação da doutrina espírita, com o seu saber faz palestras um pouco por toda a parte.
Muito deu do seu tempo e qualidades pessoais à Federação Espírita Portuguesa nas duas derradeiras décadas do século passado.
Hoje, quando tantas pessoas abordam o movimento espírita em busca de orientação face à sensibilidade mediúnica que aparece de supetão nas suas vidas, resolvemos colocar-nos nesse mesmo lugar e dirigir-lhe algumas perguntas.
- Temos deparado com alguns casos de pessoas que de repente comecam
a ver entidades espirituais, o que é algo novo para elas. Ficam na dúvida se estarão loucas e com frequência nem com a família se sentem à vontade para falar. O que diria a alguém nessa situação?
João Xavier de AlmeidaProcuraria tranquilizar essa pessoa, informando-a da natureza (e naturalidade) do fenómeno, da frequência com que ocorre em toda a parte, do amplo acervo de estudos sobre tal matéria; indicar-lhe- -la o centro espírita mais conveniente (pelos horários, localização, etc.), para aprender a dominar a situação e dar-lhe utilização correta, segura.
- A mediunidade é outro tipo de doenca diferente da loucura?
João Xavier de AlmeidaNão é em si,
loucura nem qualquer tipo de patologia
clínica, embora possa ocorrer simul-
taneamente com alguma ou algumas. Abundam estudos de nível académico
sobre a questão, no Brasil; por exemplo,
do professor Sérgio Filipe Oliveira. Em Portugal, a Fundação Bial tem patrocinado bolsas para investigar sobre o caráter patológico, ou não, da mediunidade.
- Tem ideia de como a medicina lida com alguém que tenha essas faculdades mediúnicas?
João Xavier de AlmeidaJá existem pelo Mundo médicos e instituições médicas a lidar com a mediunidade muito naturalmente, com conhecimento e êxito; ainda constituem escassa mino-
Não é, em si, loucura nem qualquer tipo de patologia clínica, embora possa ocorrer simultaneamente com alguma ou algumas.
- Como pode alguém com o afloramento da mediunidade ter uma vida normal?
João Xavier de AlmeidaCom estudo e disciplina, para entender o fenómeno, o poder educar, controlar e dele obter benefícios para si e para a sociedade. Nunca é por acaso, ou sem um sentido superior, que o dito fenómeno ocorre com alguém.
- A mediunidade só aparece quando se estuda a doutrina espírita?
João Xavier de AlmeidaDe modo nenhum: pode manifestar-se em quaisquer pessoas, independentemente de idade, sexo, religião, condição social ou qualquer outra.
ria. É enorme a acumulação de factos
e estudos credíveis, altamente competentes e até com autoridade académica, sobre mediunidade e fenómenos correlatos; mas sobre ela são também enormes os preconceitos religioso e científico.
- Mediunidade e obsessão: como prevenir perturbações?
João Xavier de AlmeidaDum modo geral, pelo conhecimento ([estudo sério e persistente: condição muito importante) e por hábitos de vida espiritual, rectidão e disciplina pessoal.
- Há um amplo leque de faculdades mediúnicas. Pode explicar quais são e
entre elas quais são as mais frequentes?
João Xavier de AlmeidaLonge de ser uma autoridade na matéria, limito-me a sugerir o estudo ([mais do que simples leitura) de “O Livro dos Mediuns” e obras sobre o mesmo. Recomendaria “Nos Domínios da Mediunidade” (André Luiz) e textos do Projeto Manoel Philomeno de Miranda sobre a matéria. Para quem deseje maior aprofundamento, outros dois livros de André Luiz: “Mecanismos da Mediunidade”e “Evolução em Dois Mundos”; e ainda “Técnica da Mediunidade”, de Carlos Torres Pastorino, esgotadíssimo, circulando em fotocópia. O próprio estudo, teórico e prático sugerirá a cada um outras obras, das muitas existentes a respelto.
- Que conselhos daria a quem esteja interessado em educar a sua mediunidade?
João Xavier de AlmeidaFazê-lo metodicamente em grupo espírita bem orientado, com leituras all recomendadas; estas, por sua vez e segundo o interesse específico de cada um, facultarão novas pistas a explorar. Útil ouvir e ler médiuns insuspeitos (“pelo fruto se conhece a árvore”). E, até por prevenção psico-imunitária, nunca descurar algo fundamental no Espiritismo: o mandamento maior, amar-nos uns aos outros e a Deus sobre todas as colsas. ENTREVISTA
Foram vários os entrevistados, nomeadamente, entre outros, José Lucas, Amélia Reis, Paulo Mourinha. Com vista a esclarecer o facto, colocamos algumas perguntas a José Lucas, membro dos corpos sociais da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal.
Houve alguma campanha feita nesse sentido?
José LucasDa nossa parte não houve nenhum contacto, aliás ficámos surpreendidos com tantas solicitações. Acreditamos que haja um planeamento do mundo espiritual superior, que, em determinadas alturas, intuem os responsáveis pelos programas de TV, aproveitando as pessoas mais recetivas nessas estações para que emitam este ou aquele programa. Os responsáveis pelos programas sabem da nossa colaboração, sempre nos contactam, pedindo auxílio para a elaboração deste ou daquele programa, o que fazemos com muito gosto e sem qualquer contrapartida financeira.
A ADEP é uma organização profissional ou profissionalizada?
José LucasConsidero a ADEP uma associação profissional, embora nenhum dos seus elementos ganhe um cêntimo, antes pelo contrário pagamos para sermos espíritas, apesar das muitas dificuldades para fazer chegar o ordenado de cada um de nós até ao fim do mês. Embora constituída de uma dezena de “carolas” de Norte a Sul de Portugal, a ADEP tem feito a diferença nos últimos 12 anos, principalmente junto dos “media”
e do público anónimo, levando uma ideia correta acerca da doutrina espírita (ou espiritismo).
Considero que foi uma batalha ganha por todos, pois hoje em dia, quer nas empreSas televisivas quer nos jornais, já abordam o Espiritismo como algo de respeitável, que tem a ver com ciência, filosofia e moral, e não como crendice, superstição, magia.
É claro que ainda há uma ou outra excepção, neste ou naquele jornal, mas isso deriva mais do pouco profissionalismo de quem escreve nessa imprensa, onde por vezes a correção do conteúdo é posta de parte, tendo em conta o “fast” jornalismo que se val fazendo pelo mundo fora, que muitas vezes pouco se importa com o rigor.
De forma pouco habitual, nos últimos meses surgiu uma mão-cheia de convites para participação em programas de televisão.
Ir à TV é sempre um risco, sobretudo se não for em direto. Pode haver montagem de declarações que depois não refletem as partes realmente importantes
e esclarecedoras das respostas. Como avaliam esse risco?
José LucasCom muito rigor. Somos rigorosos, quer nos convites que nos endereçam, quer nos objetivos de quem nos convida. Por várias vezes, em nome da ADEP, e com a anuência da direção da mesma, temos recusado convites para diretos na TV, bem como para entrevistas nos jornais, quando o objetivo em pau-
ta não se coaduna com a seriedade da doutrina espírita. À última das recusas foi para o programa “A Casa dos Segredos”. Optámos por recusar, pois seria pouco dignificante misturar a doutrina espírita com um programa onde a futilidade é protagonista. Somos de opinião que devemos colaborar com os media”, sempre que possível, mas não a qualquer preço. Quanto ao risco dos programas que não são em direto (bem como os diretos), temos sempre muito cuidado na preparação dos mesmos, procuramos esmiuçar todos os pormenores e mais alguns, e arranjar compromissos com os jornalistas, no sentido de não serem deturpadas as nossas declarações. Felizmente este cuidado tem dado bom resultado.
Curiosamente, outros espíritas que por vezes vão à TV, sem terem formação
para tal, são “trucidados” pelo sistema instituído nas televisões, o que nos faz pensar que é imprescindível formação técnica (que a ADEP pode providenciar) para quem vai à TV, não bastando a boa vontade.
Que temas foram abordados neste último meio ano de participação televisiva, e não só?
José LucasCuriosamente os “media” que nos convidaram têm abordado temas muito interessantes e transversais à sociedade, como o recrudescer da mediunidade, como lidar com a mesma, o suicídio, os médiuns comerciantes, perda de entes queridos, vida para além da morte, reencarnação.
Numa das idas ao programa da apresentadora Fátima Lopes, na TVI (que tem uma equipa simplesmente fantástica, do ponto de vista profissional), os telefonemas entupiram a central telefónica, de tal modo a temática estava a ser do interesse
do público. Confesso que fiquei muito sensibilizado e preocupado com a nossa responsabilidade na divulgação da doutrina espírita, quando uma senhora que telefonou, sem estar “no ar”, fez questão de pedir à jornalista que atendeu o telefone para nos dizer que aquele programa tinha sido o maior alívio da sua vida, pois a senhora que telefonou, do interior do país, sendo portadora de mediunidade há cerca de 30 anos, sempre escondeu essa faculdade dos familiares, com medo de ser considerada louca e internada. Nesse telefonema, ela chorava de alegria, por ter descoberto, ao fim de 30 anos, através de um programa de TV, que “afinal não era maluca e que havia milhares de pessoas como ela”.
Dá para meditar e reorientarmos as nossas prioridades na divulgação. Nós, espíritas, perdemos muito tempo e dinheiro a fazer publicações pequenas, nos centros espíritas de cada um, publicitando as suas atividades, sem qualquer impacto ao nível global, e não investimos nos programas de maior impacto (veja-se por exemplo o “Jornal de Espiritismo”, da ADEP). Ainda vivernos muito em volta do nosso ego, da nossa “capela”, sem sentido de interesse geral relativamente à doutrina espírita, o que é pena. Tenho esperança que, no futuro breve, isso mudará, com a tendência para a globalização da informação e, com novos meios de disseminação da mesma.
Considera os temas tratados importantes?
José LucasImportantíssimos. Acredito que essas idas à TV são orientadas pelos amigos espirituais, e que nesse ínterim, eles vão intuindo as pessoas, suas tuteladas, a verem, muitas vezes “por acaso”, aquele programa que precisam de ver, a fim de que se dirijam a um centro espírita, em busca de novos conhecimentos existenciais, que os auxiliem na compreensão do que é a vida no planeta Terra, e após a morte do corpo físico.
Como se percebe que a ótica espírita sobre estes problemas sociais não tenha sido antes requerida de forma tão participativa?
José LucasAinda vivemos num mundo materialista, onde o mal se sobrepõe ao bem, como refere Allan Kardec, no “O Livro dos Espíritos”. Os “media” interessam-se pelas banalidades, de um modo
geral, pelo “bezerro de ouro”, culto tão em voga na nossa sociedade. Acredito que nesta fase de transição do planeta Terra, os “media” têm-se apercebido de que afinal as pessoas têm sede de espiritualidade, e que os programas onde se fale de espiritismo têm grandes níveis de audiência. Acredito que têm sido empurrados para esse caminho, pela sede do lucro fácil, com raras excepções de jornalistas e apresentadores de TV que vêm nestes assuntos um serviço público, mesmo que não muito consciente da parte deles, mas não deixa de o ser.
O Espiritismo tem muito a dar à sociedade, e acredito que cada vez mais seremos solicitados para darmos o nosso parecer nos media”, mas para isso é necessária preparação técnica para estar num estúdio de TV, para dar uma entrevista a um jornal ou rádio, não basta conhecer a doutrina espírita. Comunicar é uma arte, e teremos de aproveitar meia dúzia de pessoas que tenham essas característiCcas, e ensinar como fazer, para melhor podermos difundir a doutrina espírita.
Porque não dispõe a ADEP de um programa de TV via internet, por exemplo, onde possa expor aos visitantes do seu site pontos de vista mais amplos sobre os problemas que preocupam a sociedade?
José LucasSeria interessante um proJecto desses, embora hoje em dia ainda não seja muito motivante seguir uma TV via internet (existem vantagens e inconvenientes).
No curto prazo, seria interessante se se conseguisse um programa sobre espiritismo num dos canais de TV ou numa rádio nacional. Essa inovação rapidamente se multiplicaria, ao verificarem da audiência que esta temática provoca junto do público.
Num futuro a médio prazo, talvez a Internet seja uma solução aos canais por cabo e aos 4 canais de TV. Além disso, estou certo de que novos meios e ferramentas de divulgação aparecerão em breve ao nosso dispor.
Todos os elementos da ADEP fazem um trabalho monstruoso (no bom sentido) não só com o Jornal de Espiritismo”, mas também com a realização de outras atividades como cursos gratuitos, manutenção de uma página na Internet,
um facebook, uma plataforma moodle, entre outros. Todo este enorme trabalho é feito nas horas vagas, com sacrifício do nosso lazer, sem ordenados, muitas vezes pagando do nosso bolso para que esta ou aquela atividade vá adiante.
Teremos de arranjar mais colaboradores e quiçá partir para uma semi-profissionalização em algumas áreas técnicas, mas |sso só poderá acontecer com o apoio de todos os espíritas. Perdem-se muitas sinergias em projetos de índole local, muitas vezes de pouca qualidade ou para alimentar egos, ao invés de se apostar em projetos de ordem nacional que poderiam catapultar mais e melhor a divulgação espírita. Vamos fazendo a nossa parte.
