51 — índice de conteúdos

Sociedade

Jornal de Espiritismo nº 51 · 2012Página 105 min

Partilhar
Idioma

Perdoar não é esquecer, diz-se. Ou é? Se se der ao prazer de olhar a abordagem dada nestas linhas conseguirá juntar mais dados para configurar uma resposta esclarecida.

Aceitar a dor ou o prejuízo infligido, abdicando do desejo de que os seus causadores provem do amargo sofrimento que nos impuseram, é uma tarefa muito difícil. Perdoar é uma atitude exigente.

Sarah Letanta é uma das muitas vítimas de violência urbana na África do Sul. Em 1995, enquanto descia uma avenida em Sharpville, nos subúrbios de Joanesburgo, foi alvejada com três tiros.

“Eu tinha a certeza de que iria morrer. Sobrevivi, mas é tudo o que me resta. Nunca mais pude trabalhar e a minha vida é muito dura. Eu odeio as pessoas que me fizeram isto. Gostava de me vingar. [...) Já tentei perdoar mas alnda tenho raiva; ainda tenho feridas e dores. As três balas estão entranhadas em mim. À minha dor nunca mais vai embora e por isso não consigo esquecer”

Na mesma cidade, Gertrude Moyana foi alvejada com dois tiros em 1993: “A primeira bala entrou pela parte de trás da coxa e fraturou a anca. À bala seguinte atravessou as minhas costas e saiu pelo mamilo. Dois anos depois encontrei-me face a face com o meu agressor no julgamento. Mas não o odiei, não queria ficar doente. Consegui voltar a andar apenas porque não permiti que o ódio dominasse o meu coração.”

Em 2002, Mariane Pearl estava grávida quando o seu marido, o jornalista americano do “The Wall Street Journal” Daniel Pearl, foi assassinado de uma forma brutal por extremistas istlâmicos no Paquistão.

Quando soube que tinham encontrado o responsável pela sua execução, ela escreveu Imediatamente ao presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, pedindo a aplicação da pena de morte: "Não tenho qualquer razão para perdoar Omar Sheikh. Ouvi dizer que ele se queria desculpar comigo mas eu recusel encontrar-me com ele. O homem é um psicopata e eu não acredito que os seus lamentos fossem genuínos. Talvez ele sinta uma espécie de remorsos porque também tem mulher e um filho pequeno mas do nosso encontro nada resultaria. (...) Pessoalmente, não teria dificuldades em matar Omar Sheikh mas, prefiro deixar isso com a justica do Paquistão. (...) O perdão não é um valor suficientemente forte para nos

servir de apoio, é preciso conquistar algum tipo de vitória sobre quem nos feriu.”

Jo Berry é filha de Anthony Berry, deputado do partido conservador britânico, morto num atentado terrorista ao Grand Hotel em Brighton, perpetrado pelo IRA em outubro de 1984.

A bomba foi colocada por Patrick Magee e o objetivo fracassado era assassinar a Dama de Ferro, Margaret Thatcher. Patrick foi libertado em 1999, ao abrigo dos acordos de paz então estabelecidos, e alguns meses depois Jo quis encontrar-se com o homem responsável pela morte do pai: Queria conhecer o Pat para aplicar um rosto no inimigo e conseguir vê-lo como um ser humano real. No nosso primeiro encontro eu estava petrificada mas procurei valorizar a coragem que aquele homem teve para me enfrentar.

Falamos com uma extraordinária intensidade. Partilhei muito sobre o meu pal, enquanto Pat contou-me parte da sua história. Ao longo destes anos em que fui conhecendo Pat, recuperei alguma da humanidade que perdi quando aquela bomba explodiu. Pat também está a fazer o seu próprio caminho de recuperação da humanidade perdida. Sinto que é difícil para ele conviver com a ideia de que nutre sentimentos de empatia pela filha de alguém que matou com os seus atos terroristas.

Patrick Magee refere: “É raro encontrar alguém tão delicado e aberto como

Jo. Na sua jornada, ela fez um longo percurso para compreender; na realidade, ela percorreu mais do que meio caminho para me encontrar. Para mim, é uma enorme lição de humildade.”

Este depoimentos, retirados do TheForgivenessProject.com, apresentam diferentes atitudes diante de uma agressão. Se analisado de um modo distante e racional, não alimentar sentimentos perturbadores, que produzem efeitos ao nível emocional

e espiritual, é sempre a atitude mais saudável.

O perdão é o melhor caminho, no entanto, aceitar a dor ou o prejuízo infligido, abdicando do desejo de que os seus causadores provem do amargo sofrimento que nos impuseram, é uma tarefa muito difícil. Perdoar é uma atitude exigente. Ao longo de muitas vidas criámos hábitos milenares de defesa que nos fazem reagir de forma instintiva às dores, ofensas e humilhações,

e é por isso que, quando feridos, os instintos se sobrepõem muito facilmente à razão.

Será que perdoar é esquecer o mal que alguém nos fez? Quem age dessa forma é imprudente, pois fica vulnerável a novas agressões. Então, perdoar é negar as próprias mágoas? Ainda é normal ficarmos magoados quando nos desiludem, quando há um prejuízo deliberado ou existe uma traição na

confiança depositada em alguém.

As mágoas são a consequência natural das ilusões alimentadas, das expectativas não concretizadas, das ideias distorcidas sobre aqueles que nos rodeiam, sobre a vida e sobre nós próprios. Mágoas são falsos entendimentos ainda doridos pelo choque com a dura realidade.

Advirto que a simplicidade pode chocar os mais impressionáveis: perdoar é não odiar, não embarcando na viagem tortuosa pelos caminhos do ressentimento e do desejo de vingança.

Qualquer que seja a ofensa, o perdão está sempre no extremo oposto da vingança, respondendo às ofensas a partir de uma postura compreensiva. Para isso, não é necessário pactuar com os erros alheios nem ser passivo diante da brutalidade de alguém; para perdoar basta não rebater o mal com o mal. Perdoar é um esforço para compreender. Mas o que há para compreender? Ele agrediu-me, prejudicou-me, por causa dela fiquei sem emprego, insultaram a minha família, humilharam o meu amor-próprio, ele roubou a minha namorada, fui traído no meu amor, envenenaram o meu cão... O que há para compreender?

A crueldade que o Homem ainda evidencia, e que é difundida de um modo

tão sensacionalista pela comunicação social, é muitas vezes fonte de enormes perturbações e dúvidas sobre a idela de justiça.

Há tanto para compreender! Treinar

a compreensão é desenvolver a benevolência que nos possibilita o entendimento das razões do outro: sentir os violentos latejos de dor escondidos atrás de posturas de confrontação;

a humanidade encoberta por uma educação deficiente, uma infância martirizada ou uma cultura belicista; a perturbação espiritual latente nos comportamentos mais agressivos. Perdoar é atingir um grau supremo de lucidez espiritual que permite sentir aquilo de que carecem os agressores e, em vez de lhes desejar mal, treinar a compaixão. Nem sequer é necessário que quem agrediu mostre arrependimento, o perdão deixa a inveja para os invejosos, a maldade para os maldosos, a violência para os violentos, percebendo que estes são comportamentos corrosivos, causadores de ardente