Crónica
Jornal de Espiritismo nº 52 · Março 2012Página 74 min
Cheirinho de férias Com um cheirinho de férias, este tempo já vai criando um preâmbulo para o descanso estival. Mas há quem regresse de férias mais cansado do que quando as começou. Depois de um ano de labor intenso pensar que se vai entrar de férias sabe bem, para a maior parte. Mas quem está muito envolvido com o seu trabalho não pensa assim, sobretudo quando mentalmente não se desliga o suficiente das preocupações supervenientes ou então quando sente o mesmo por outras razões, nomeadamente problemas familiares.
Em casos mais sérios, e não são poucos, procura-se trabalho há demasiado tempo para prover ao próprio sustento. Em qualquer dos casos, contudo, a lei do trabalho explica a necessidade que todos temos de estar ativos, no desempenho de iniciativas construtivas. Trabalho, para a doutrina espírita, é toda a atividade útil, independentemente da remuneração, que até pode nem existir. No movimento espírita não existe mesmo, é regra clara.
Se a necessidade de trabalhar se mantém em pauta, é porque nos proporciona exercícios dinâmicos de aprendizado em todas as frentes. Os problemas exercitam a inteligência e o relacionamento entre pessoas treina e aperfeiçoa as emoções, que frequentemente pedem equilíbrio. O labor supõe também repouso, entendendo-se este como um espaço que existe para recarregar energias, com vista a um regresso ao serviço em melhores condições.
Porém, há casos em que se vai de férias e se chega mais cansado do que ao fim de um ano de trabalho. Assim não adianta: descarregar o lazer no ócio não é a melhor opção. O lazer merece mais, e o leitor também. O ócio paralisa. Abra janelas para assuntos novos, segundo a sua vocação, a fim de aprender mais, por puro prazer. Trabalho, para a doutrina espírita, é toda a atividade útil, independentemente da remuneração, que até pode nem existir.
Lições naturais Fazemos parte de um todo, inclusive nesta passagem terrena. «Tudo se encadeia na natureza, do átomo ao arcanjo», lê-se o dito célebre em «O Livro dos Espíritos». E agora, quando a maior parte da população vai pôr um pezinho na praia, dificilmente deixamos de fazer o mesmo. Toalha na areia, sol, banho nas ondas. Como já fazemos isso desde pequenos, a dada altura há uma sensação de monotonia para quem vive no litoral.
Mas ocorrem outras possibilidades. Levante os olhos e veja: há dunas onde está? Parecem destruídas? Que pena! São a primeira linha de defesa contra os agravos do mar face ao solo firme. E as suas plantas? Se as houvesse, vê-las-ia em flor, com borboletas em viagem e até discretos ninhos de aves por ali. É o princípio inteligente em exercícios evolutivos no palco da vida. Com ameaças e capacidades de defesa, reflexos condicionados e outras caraterísticas que aproximam esses seres vivos de nós.
Se observar bem estes sistemas naturais detetará lições de cooperação e aprenderá a conhecer-se melhor a si próprio. Por exemplo, há uma ave em que poucos reparam, os borrelhos. No entanto, é habitual ao longo da costa. De maio a julho costumam fazer ninho até em dunas degradadas. Os ovos são uma daquelas coisas que é preciso ver para acreditar: por várias vezes, a um metro dos seus pés, pode demorar alguns minutos até os conseguir ver.
São cor de areia. Ali perto, com frequência os progenitores estão preocupados. E se o perigo é maior para ovos ou crias, sem terem aprendido teatro, fingem-se feridos, com uma perna ou asa partidas, e arrastam-se, fingidores, no fito de nos levarem para longe, atrás deles. Não é o máximo este empenho na proteção da prole? Se um dia lhe vier a ideia de estender toalha nas dunas, esqueça: se forem pisadas, as plantas desaparecem e depois a estabilidade do cordão dunar.
Se for para a serra, pode aprender a ouvir as paisagens sonoras e aprender a ler melhor o livro da natureza de que faz parte. Conhece as espécies mais habituais? Piscos e alvéolas, chascos e verdilhões, chapins e tordos, entre outros, são uma revelação. Alguns oferecem presentes (alimento) à fêmea do seu coração para lhe garantirem que serão bons pais. Sempre em frente Também não faltarão flores. E aí abelhas, moscas, borboletas e tantos outros animais.
Com um guia de campo, começará a conhecer melhor esta escola esférica de cor azul, se vista do Espaço, em que estamos a aprender. E poderá até apaixonar-se, com as melhores vibrações afetivas, por estes surpreendentes companheiros de viagem. Até porque, repare, uns e outros não têm asas, seja enquanto ovo ou larva; mas passadas as transformações necessárias, a seu tempo conquistam-nas e dominam o voo. Não é uma imagem interessante quando comparada com a nossa evolução espiritual?
É evidente. E se nos intervalos for lendo uma página de um bom livro espírita, de uma revista ou de um jornal esclarecido, então dificilmente perderá de vista o objetivo desta passagem terrena, que é aprender a pensar de forma edificante e criar estrutura afetiva para o exercício pleno da caridade, tal como a entendia Jesus. Sendo assim, decerto será mais fácil para todos um tranquilo regresso das férias, com novas energias para empreender melhor todos os projetos construtivos em que esteja envolvido.
Por isso, se ainda as pode gozar, boas férias e... bom trabalho! Texto: JG foto loucomotiv ABRIL.
