Sociedade
Jornal de Espiritismo nº 52 · Março 2012Página 105 min
Sono e sonhos: viagens além do véu? O sono cria espaço a outro tipo de atividade mental – o sonho. Para uns este último não é mais do que o devaneio de um indivíduo adormecido, podendo desenhar no sono a libertação da censura social que leva a revelar anseios reprimidos. Para outros são retalhos mnemónicos da vida num plano etéreo. Afinal, que se passa nesse mundo que visitamos todos os dias? A doutrina espírita, ou espiritismo, admite que os sonhos podem ser, com frequência, algum tipo de memória das experiências que o ser espiritual vive fora do seu corpo físico.
foto loucomotiv ABRIL.MAIO 2012 O sono possui várias fases que são e serão estudadas em laboratório. Independentemente disso, há uma certeza residente: ele é vital para a nossa saúde. Tanto assim é que a privação do sono acaba por matar. Há até uma doença genética rara que se costuma manifestar em adulto e que leva à partida deste plano material por progressivo esgotamento. Não se descortinou ainda uma cura. Durante esse período em que o cérebro do corpo físico atravessa estados alterados de consciência há um imprescindível reordenamento energético do organismo.
Ao acordar, lembramos, ou não, fragmentos dos pensamentos elaborados durante esse estado de adormecimento. Quando isso ocorre com alguém essa pessoa afirma ter tido um sonho. Além do véu A doutrina espírita, ou espiritismo, admite que os sonhos podem ser, com frequência, algum tipo de memória das experiências que o ser espiritual vive fora do seu corpo físico. Fora deste âmbito, há uma série de fenómenos que evidenciam que a consciência da personalidade humana pode sair do corpo físico e ter perceções visuais, auditivas, que não poderia ter fisicamente, e consegue em certas condições recordar-se dessas experiências.
* Enquanto a máquina corporal se refaz, o espírito liberta-se e procura a atividade com que mais se afiniza, seja ela a de visitar locais ou pessoas a que se sente ligado ou, por exemplo, de se integrar em tarefas de serviço fraterno na lide espiritual. É conhecida a passagem contada pelo espírito André Luiz em “Os Mensageiros”, livro psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier, edição FEB. Nesta obra, o médico desencarnado, André Luiz, é repórter no registo de episódios de atividade desenvolvida no plano espiritual.
Acompanhado do mentor espiritual, observa no plano extrafísico a conversa entre uma avó, também já desencarnada, e a neta, encarnada, porém desdobrada do corpo físico, por ocasião do sono. Diz a avó: “A calúnia, Nieta, é uma serpente que ameaça o coração; entretanto, se a encararmos de frente, fortes e tranquilas, veremos, em breve tempo, que a serpente não tem vida própria. É víbora de brinquedo a se quebrar como vidro, pelo impulso de nossas mãos“.
No dia seguinte, já no corpo físico, a neta relata, durante o pequeno-almoço com familiares, o “sonho” que tivera com a avó que, segundo ela, lhe mostrara uma serpente de vidro a despedaçar-se. Por vezes, nos sonhos há também fluxos que parecem incompreensíveis. Não admira: imagine uma sequência de fotogramas com omissões no meio. Nieta estranhara o sonho e não compreendera por que razão, no sonho, a avó lhe mostrara uma serpente, que depois se esboroou.
O instrutor espiritual comenta que a neta não tinha condições espirituais de guardar todo o teor da conversação mantida com a avó, mas registara o mais importante na sua mente, relembrando-se, ao despertar, apenas da figura usada pela avó ao aconselhá-la. O alvitre, não obstante, tinha sido dado e estava gravado na consciência da neta como advertência. Oportunamente, quando acontecimentos iminentes criassem oportunidade, Nieta teria hipótese de escolher agir conforme a avó aconselhara.
Por vezes, nos sonhos há também fluxos que parecem incompreensíveis. Não admira: imagine uma sequência de fotogramas com omissões no meio. É um pouco o que aconteceria se numa longa-metragem de cinema cortassem umas dúzias de fotogramas e se colassem as partes restantes. Haveria decerto depois um filme incongruente. Tipologia É habitual distinguir três tipos de sonhos: os sonhos reais, os sonhos do subconsciente e os mistos.
Os primeiros reúnem os sonhos que refletem vivências efetivas ocorridas no plano espiritual. Podem ser impressivos, coloridos e costumam deixar algum tipo de sentimento residual ao retornar à vigília (estar acordado). Os segundos são os sonhos em que, mesmo quando desprendido do corpo físico, o espírito se embrenha nas suas preocupações da vida terrena e com isso vê passar na sua mente imagens mais ou menos intensas que reflectem essas situações vinculativas.
Os sonhos mistos são os que, como o nome sugere, misturam elementos das duas tipologias anteriores. Independentemente disso, os sonhos não têm de ser a previsão de algo que vai acontecer. Podemos estar a rever durante o sono cenas que tememos que ocorram ou que desejamos que aconteçam. Muitas vezes não se concretizam. E algumas vezes sim: «Sonhei com o meu irmão, que morava a quase 2 mil quilómetros de distância. Lembro-me que no sonho ele abriu a porta do meu quarto e se despediu.
Disse que era hora de partir. Acordei, suado, com medo, olhei para o relógio, eram 2h35 da madrugada. Duas horas depois chegou a notícia: o meu irmão tinha falecido de paragem cardíaca e o que mais me impressionou foi que sonhei com a hora exata de sua morte”, diz António, de 54 anos, algures na internet, à semelhança do que encontramos em diversa bibliografia anterior. Espíritos afins podem ter a preocupação e as condições para se comunicarem em situações extremas, como terá acontecido neste sonho premonitório.
Cabe aqui uma referência a sonhos indesejáveis: os pesadelos. Podem ser males acontecidos a entes queridos que raramente se concretizam, pode sentir-se perseguido por pessoas ou animais durante o sonho, entre muitas outras situações. Em qualquer caso, trabalhar a auto- estima, confiar nas suas próprias possibilidades para resolver os seus problemas, são itens que ajudam sobremaneira a enfrentar os temores nos sonhos com a atitude de serenidade que se deseja.
Os hábitos de uma prece tão simples quão sincera antes de dormir, de gratidão pelas oportunidades do dia que finda, criam o pórtico de paz que enseja ao espírito desprendido do corpo caminho para iniciativas mais felizes. Sonhos regressivos Às vezes, o relaxamento propiciado pelo sono pode também deixar escapar fragmentos de memórias de vidas passadas. Havendo em curso estímulos que despoletem ligações e despertem situações do passado mal arquivadas no inconsciente podem repescar e projetar imagens e vivências antigas nos sonhos.
Isso no fundo quer dizer que o nosso psiquismo está constantemente a rearquivar experiências de vida no inconsciente, gerando interpretações de onde resultam conceitos vistos pelo próprio como verdades práticas de uso imediato no seu dia-a-dia, de forma traumática ou não. De uma ou de outra forma, o sonho é uma janela para a vida que funciona como uma extensão do quotidiano. Interessa, assim, que este seja visto como uma página em branco cada vez que se acorda, no entendimento de que existe com a finalidade de ali deixar desenhadas as atitudes de fraternidade e sabedoria que todos, mesmo sem querermos, estamos a aprender.
