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Reportagem

Jornal de Espiritismo nº 53 · Abril 2012Página 106 min

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Viver além da crise O mote das Jornadas de Cultura Espírita, realizadas sob a égide da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, foi “Viva Além da Crise” e decorreu no fim-de-semana de 21 e 22 de abril no auditório municipal A Casa da Música, em Óbidos, no Centro de Portugal. Se tivéssemos de resumir estas Jornadas numa frase, escolheríamos um trecho de «O Evangelho Segundo o Espiritismo»: «A ideia clara e precisa que se faz da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista pelo qual eles encaram a vida terrena.

foto arquivo JULHO.AGOSTO 2012 é mais do que rápida passagem, uma breve permanência num país ingrato. (…)». Estas palavras, tão significativas da doutrina espírita, não podem ser letra morta, e é nos momentos difíceis que ganham maior significado. Há que viver com os pés na terra mas com os olhos no céu. Paulo Mourinha, médico, analisou o stress e a depressão apontando o caráter cíclico e necessário das crises, conducentes a novos paradigmas.

Neste caso, o paradigma que desponta parece apontar para um reequilíbrio entre “ter” e “ser”, após um período de materialismo exacerbado. Francisco Curado, cientista, assinalou que o Universo não evolui de forma linear, da micro à macro-escala, e que há momentos de aceleração. Apresentou análises de diversos pesquisadores sobre o movimento cíclico evolutivo e citou exemplos históricos, como o da civilização Maia ou da que viveu na ilha de Páscoa.

Lembrou que alguns pesquisadores compararam a Terra a esta ilha, o que é um poderoso alerta para a forma como usamos os nossos recursos. Como naturalista, Jorge Gomes estabeleceu um interessante paralelo entre as crises humanas, e a geologia e a biologia. Da natureza colhemos a lição de que a vida pressupõe níveis de instabilidade. E o espiritismo lembra-nos que já enfrentámos muitas crises, em anteriores existências.

O exemplo do lobo de menor estatuto da alcateia, que chega a ser expulso e sozinho faz das fraquezas forças, foi sugestivo. Andreia Nunes, psicóloga clínica, embora não sendo espírita acedeu a palestrar no evento, e encantou a audiência com uma dissertação sobre as dificuldades conjugais que se agravam nestes tempos difíceis. Os problemas são muitos, mas são entusiasmantes os desafios que se apresentam aos pares que o amor uniu.

Foi especialmente tocante a sua sugestão de que ambos a cada dia procurem completar a frase “Hoje fui feliz porque…”. Mesmo que só tenham jantado um prato de sopa, acrescentou. A Amélia Reis, professora aposentada, Estava a Europa posta em relativo sossego, e eis que a famosa crise económica invade os lares com assustadoras perspetivas para o futuro. Na TV pontificam os economistas encartados, falando uma nova língua feita de “subprimes, bubbles, spreads”, e outros palavrões que para o comum cidadão se traduzem em desemprego, falta de dinheiro e dificuldades crescentes.

A crise económica será apenas um acidente de percurso na engenharia financeira, um capricho inexplicável desse deus dos dias atuais que é o “mercado”? Ou será a ponta de um iceberg que faz adivinhar uma crise mais profunda, a dos valores? Foi à volta destas apreensões e destas interrogações que a ADEP resolveu escolher o tema “Viva Além da Crise” para esta edição das suas Jornadas de Cultura Espírita. Nesse fim-de-semana todos os caminhos foram dar ao auditório situado dentro das muralhas da histórica e encantadora vila de Óbidos.

A transmissão via internet não foi possível, por motivos técnicos, mas os vídeos ficaram disponíveis no site da ADEP. Tratando-se de um evento espírita, ninguém ia na expectativa de encontrar receitas milagrosas para obter fortuna, como acontece em certas correntes “new-age” e setores religiosos que prometem fazer chover dinheiro. Em vez disso, a audiência foi brindada com reflexões sérias mas agradáveis de seguir, sobre as crises nos contextos histórico, antropológico, psicológico, geológico, biológico, económico, social, familiar e espiritual.

Se tivéssemos de resumir estas Jornadas numa frase, escolheríamos um trecho de «O Evangelho Segundo o Espiritismo»: «A ideia clara e precisa que se faz da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista pelo qual eles encaram a vida terrena. Para aquele que se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é infinita, a vida corporal não coube abordar um dos problemas dos nossos dias: o impacto da separação dos pais na vida dos filhos.

Uma abordagem lúcida, responsabilizadora e enaltecedora das responsabilidades de mães e pais. Uma apresentação invulgar, com uma dinâmica de “sketch”, foi trazida por José Lucas e Noémia Margarido, que se atreveram a tratar os temas do suicídio, homicídio, pena de morte e aborto, com o otimismo inquebrantável que a doutrina espírita possui. Na última mesa-redonda do dia Gláucia Lima, psiquiatra, presença habitual nas Jornadas, juntou-se ao painel e respondeu a questões do auditório, relacionando psiquiatria e espiritismo.

O segundo dia abriu com a jovialidade de Lígia Pinto, médica, que abordou outro tema quente, a eutanásia. Aliando conhecimento científico e solidez doutrinária, destacou o papel do livre-arbítrio, da emancipação moral que o espiritismo aponta a uma Humanidade que se liberta dos ditames religiosos dogmáticos e vai entrando na maioridade espiritual. Especialista em Informática, professor e webmaster da ADEP, Vasco Marques, destacou o papel das redes sociais na atividade humana em geral e na divulgação do espiritismo.

Isaías Sousa, economista, surpreendeu o auditório com um tema invulgar – “A Economia do Espírito” – demonstrando que em espiritualidade, quanto mais capital se divide, mais capital se multiplica. O “mercado da virtude” ou as dívidas que Deus transforma em oportunidades foram algumas das imagens usadas, numa comunicação cativante, que conseguiu o feito inédito de comover corações com economia, gráficos e números. A última comunicação coube ao professor Reinaldo Barros, que sintetizou tudo o que fora dito, na sua palestra “Reaprender a Viver”.

Com efeito, em tempos em que a Economia está na ordem do dia, a ideia que fica é de que a Humanidade terrena está sentada sobre uma mina de ouro que ainda não descobriu. Urge não cometer os mesmos erros que os habitantes da Ilha de Páscoa outrora cometeram, esgotando-se em lutas estéreis e consumindo totalmente os seus recursos materiais. A Espiritualidade – neste caso interpretada pelo modelo espírita – é o precioso recurso que ainda não exploramos eficientemente.

É inesgotável, e se usado caritativamente, poderá enformar a nova sociologia, a nova economia, a nova era de paz e harmonia que a Humanidade busca. Citando Paulo Mourinha, “O Espiritismo é o movimento social mais revolucionário que a Humanidade já conheceu”. Na intervenção de encerramento, João Xavier de Almeida, aposentado, ex-presidente da Federação Espírita Portuguesa, membro honorário e presidente da Assembleia Geral da ADEP, lembrou, com desarmante singeleza, que Deus está com todos nós.

“Está aqui neste momento e basta que pensemos nele uns segundos para sentirmos a sua paz.” Rejeitando a busca obstinada de culpados exclusivos das crises, lembrou que cada um de nós tem a sua parcela de virtudes e fraquezas. A progressiva sintonia com Deus trará a progressiva perfeição das instituições e sociedades humanas. O decano dos espíritas portugueses não precisou de falar muito para dizer muito. Uma palavra para os belos momentos musicais oferecidos pelo jovem pianista Rafael Araújo, pelo grupo juvenil do Centro de Cultura Espírita, e pelos adultos Reinaldo Barros, Inês Guinote, João Paulo e Filomena, que viriam a interpretar em conjunto uma memorável versão de “Essa luz ao fim da tarde”, já quase no final do evento.

Lamentou-se, mais uma vez, a ausência da Imprensa não espírita, que ainda não se interessa pela candeia que a ADEP teimosamente insiste em colocar sobre o alqueire.