Opinião Julho.agosto
Jornal de Espiritismo nº 53 · Abril 2012Página 92 min
OPINIÃO JULHO.AGOSTO 2012 Breve crise de fé foto loucomotiv Permitam-me divagar um pouco, sem pretensões de lavrar aqui doutrina, o que aliás seria impossível, à luz do pensamento oficial, dada a minha condição de crente em Deus. E se antes ficava perplexo por não encontrar Deus quando olhava pelo microscópio ou pelo telescópio, de não o encontrar nos modelos atómicos ou nas fórmulas matemáticas, comecei a encontrá-lo precisamente aí quando olhava pelo microscópio ou pelo telescópio, de não o encontrar nos modelos atómicos ou nas fórmulas matemáticas, comecei a encontrá-lo precisamente aí.
Porque entendi, com o passar dos anos, que qualquer obra tem o seu autor. E que do Nada não pode brotar alguma coisa. Mas também porque a realidade Quando entrei no liceu (o equivalente ao atual sétimo ano de escolaridade), lembro-me de, numa conversa vadia com um amigo, ter-lhe confidenciado que de repente tinha como que perdido Deus de vista. As horas árduas agarrado à Física, à Química e às outras ciências “duras”, produziam, no cérebro de um garoto de 12 anos, a estranha sensação de se ter o Universo todo na palma da mão, resumido, peneirado, filtrado e decantado sob a forma de protões, neutrões e eletrões.
Nessa altura a ideia de Deus pareceu-me infantil, para sempre reduzida ao encanto ingénuo das figurinhas coloridas do meu catecismo da Igreja Católica. A comunhão solene, que tanta preparação me havia requerido e tanta felicidade me proporcionara, parecia-me reduzida ao ato de engolir um pedaço de pão, que os sucos gástricos prontamente digeriram. E nada mais. Tinha 12 anos. Depois cresci. E se antes ficava perplexo por não encontrar Deus da mediunidade entrou na minha vida sem pedir licença, e entendi que se a vida continua após a morte do corpo, é altamente provável que o argumento de que Deus não existe porque não se vê não faça muito sentido.
Hoje li no jornal “Público” que «a revista ”Science” conclui que o que explica o ateísmo é o pensamento analítico». A mesma ciência que nega obstinadamente que haja mais no Universo do que átomos e espaços vazios, como sentenciou Demócrito, eleva ao estatuto de descoberta científica estudos que mal riscam a superfície do problema. Se posta perante evidências, digamos, da imortalidade da alma, esta ciência não hesita em declarar definitivamente como erros os estudos de um prestigiado prémio Nobel, Charles Richet.
Esta ciência que gravou para todo o sempre na pedra a máxima de Demócrito, esquece-se por exemplo de Sócrates, seu contemporâneo, que era espiritualista e que acabou por ser, já então, vítima da mesma intransigência. Sob a forma de uma infusão de cicuta, se bem se lembram. É sempre hipnose, delírio, alucinação, fraude, efeito placebo, conluio, precipitação, tudo o que possa dar o flanco à terrível possibilidade de Deus afinal existir mesmo, e destronar os sábios que nada admitem acima de si mesmos.
Em último caso, assobia-se para o lado e recorre-se à piadola fácil. Neste estudo, de que o “Público” fala, concluiu-se que «as crenças religiosas diminuíam quando as pessoas estavam a cumprir tarefas mais analíticas». Fez-me lembrar a breve e nada dramática crise de fé dos meus 12 anos, isso fez.
