54 — índice de conteúdos

Jesus nas bodas de Canã

Jornal de Espiritismo nº 54 · 2012Página 147 min

Partilhar
Idioma

Os ensinamentos que Jesus foi deixando à humanidade certamente cumpriram propósitos antecipadamente delineados.

Seria imprudente pensar-se que qualquer dos eventos que o Cristo sabia virem a ser narrados para a posteridade, resultariam do improviso e destituído de uma mensagem. Contudo, um dos mais intrigantes momentos imortalizados no Novo Testamento é aquele que comummente é conhecido como o episódio das Bodas de Canã. Terá sido verdadeiro ou parábola? E qual o seu significado? Consultando diferentes fontes obteremos algumas respostas.

O episódio é somente relatado no Evangelho segundo João e terá ocorrido em Canã de Galiléia, a cidade natal do discípulo Natanael, que estava presente juntamente com Filipe. Decorria o mês adar (março], dois meses após a saída de Jesus de Nazaré para o início da sua missão pública (Quando Voltar a Primavera: 2). O Mestre chega já durante o evento e, após um diálogo com sua mãe, terá operado a transformação de água em vinho. O Evangelista descreve que “... tendo acabado

o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: - Eles não têm vinho. Respondeu-lhes Jesus: Mulher, que tenho eu contigo [com isso)? Ainda não é chegada a minha hora. Disse então sua mãe aos serviçais: - Fazei tudo quanto ele vos disser. [...) Ordenou-lhe Jesus: - Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. (...] Quando o mestre-sala provou a água tornada em vinho, não sabendo donde era, se bem que o Sabiam os serviçais que tinham tirado a água, chamou o noivo e lhe disse: - [...) tu guardaste até agora o bom vinho. - Assim deu Jesus Início aos seus sinais em Canã da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele.” (João:

11; 1-11) A singularidade do momento é sublinhada pelo facto de ser o único que se passa em ambiente proporcionado por

um evento de alegria transitória, que decorre em cerimónia com alguns excessos. E este terá sido o único que decorre em imbuído

Contudo, este pode ser um dos mais enigmáticos relatos da passagem de Jesus; eadúvida começa assim que questionamos a sua veracidade. Encarnados como Kardec sugere uma interpretação, mas a espiritualidade através de Humberto de Campos e Amélia Rodrigues, apresentam visão oposta. Com efeito Kardec, baseado na lógica, sustenta as suas convicções em como se trata não de um episódio real, mas antes de uma parábola. O codificador racionaliza sobre os factos e aí suporta a sua opinião, sem o contributo de qualquer espírito: “Este milagre (...)

deveria ter sido um dos mais notados. Entretanto, bem fraca impressão parece haver produzido, pois que nenhum outro evangelista dele trata. (...) (O Cristo é) “de natureza extremamente elevada, para |... promover] efeitos puramente materiais, próprios apenas a aguçar a curiosidade da multidão que, então, o teria nivelado a um mágico. [...)

é se reconheça aí uma daquelas parábolas...”. (A Gênese: XV; 47). Pastorinho, mais tarde, viria a corroborar deste posicionamento. Porém, Amélia Rodrigues declara especificamente que João narra o episódio “em linguagem clara e precisa, sem retoques nem confusas imagens de retórica” (QVP:2) E Simão, sabemos através de Humberto de Campos, em conversa posterior com o Mestre, refere-se ao momento como se não houvesse equivocos sobre a sua real ocorrência “...Senhor, em face dos vossos ensinamentos, como deveremos interpretar a vossa primeira manifestação, transformando a água em vinho, nas bodas de Canã?” (Boa Nova:12)

Aliás, a psicografia de Divaldo Franco relata o fenómeno acrescentando que Jesus distendeu as mãos em silêncio sobre a água e, num instante curto e discreto, opera a transformação, apenas percecionada pelos que estavam próximos (QVP:2). Mas se considerarmos como verídica a transformação da água em vinho, como responder às interrogações formuladas por Kardec? Qual o propósito com que o Mestre teria efetuado esta manipulação fluídica?

Talvez se se perceber a mensagem possamos mais facilmente compreender todo o episódio. E para o esclarecimento desta dúvida, existem dois momentos cujo esclarecimento se torna essencial: - Porquê escolher, como cerimónia onde realiza o primeiro de seus feitos notáveis, um casamento; e qual o significado do vinho.

O casamento eracomo é hojeuma cerimónia cujo simbolismo social celebra a assunção pública do compromisso de união entre dois seres. Na sociedade Jjudaica, o casamento perfeito era o que

o homem tinha com Deus. Por essa razão Jesus, nas suas parábolas, recorre metaforicamente à boda nupcial; explica, na linguagem pragmática tão própria

do povo judeu, a importância da relação íntima, profunda e permanente a ter com o Criador, que o tem a ele como intermediário. Assim, nas bodas de Canã temos o cenário apropriado para explicar a importância que o Cristo atribui à sua relação com o Homem. Perante tal interpretação é justo admitir-se que dificilmente existiria melhor cerimónia para servir de metáfora ao início da tarefa missionária do nosso governador espiritual. É precisamente isto que é confirmado através da psicografia de Divaldo Franco ao especificar que Jesus ilustra, nas bodas de Canã,

o “sublime noivado com a criatura humana, ao mesmo tempo convidando-a para as excelsas núpcias que se realizarão no reino espiritual, o Seu reino além deste mundo.” (QVP:2). Ainda assim, permanece por esclarecer qual o simbolismo do vinho nesta mensagem.

Para Pastorinho, o vinho pode ser utilizado como símbolo de “sabedoria profunda, o sentido simbólico (místico] e espiritual, que inebria os sedentos da Verdade, e que alegra o coração |...) da criatura” (Salmo, 104:15); ou como símbolo de deterioração "quando a doutrina não é pura, Isaías o revela com estas palavras: o teu vinho está misturado com água” (Is. 1:22). Contudo, nenhuma destas hipóteses está de acordo com os relatos da espiritualidade.

Desta vez é Chico Xavier quem psicografa um texto que indicia a solução para esta interrogação, tendo Jesus dito em resposta a mais uma interpelação de Simão: “...O vinho, all, foi bem o da alegria com que desejo selar a existência do Reino de Deus nos corações. Estou com os meus amigos e amo-os a todos. Os afetos da alma, Simão, são laços misteriosos que nos conduzem a Deus. Saibamos santificar a nossa afeição, proporcionando aos nossos amigos o máximo da alegria...

” (BN:12). A boda simbolizava a união entre Cristo e a humanidade. O vinho era a alegria que pretendia proporcionar aos que se deixam conduzir até ao reino moral onde exerce o seu reinado. E substituía a água, que sempre simbolizou a necessidade de saciar a fé.

Finalmente e no seguimento das interrogações de Kardec, cumpre esclarecer que este episódio impressionou mais do que pode parecer explícito na redação dos textos evangélicos. Precisamente a este aspeto refere-se mais uma vez Amélia Rodrigues quando relata que “Natanael e Filipe se destumbram com o fenómeno da transformação da água em vinho...' mas não foram os únicos. Todos os presentes acabam por tecer comentários sobre o ocorrido e, particularmente, sobre como o Messias o havia feito. E precisamente este episódio faz com que “desde ali,

Seu nome se fez conhecido, facilmente identificado” (QVP:2). Talvez mais correto seja explicar porque somente João relata este episódio. AÀ resposta pode residir no simples facto de João ter convivido com Maria desde a partida de Jesus e dela poderá ter recolhido tal testemunho.

Em Canã Jesus iniciou, aquando da sua passagem, a utilização do fenómeno para o propósito da evangelização. À união firmada na celebração do matrimónio simbolizava o seu casamento com todos os necessitados, passando Maria a ser a intercessora privilegiada. A alegria metaforicamente trazida pelo vinho, substituía a água que simboliza a fé, como prémio para os que, seguindo a justiça e verdade, alcançam o Reino dos Céus. Conclui-se então que nas bodas de Canã, é indicado o percurso que inúmeras vezes viria a ser repetido como o conducente à felicidade eterna; mas se ainda hoje nos é difícil percebê-lo, quanto mais cumpri-lo na plenitude...

Por Hugo Batista e Guinote OPINIÃO

Agosto, geralmente é sinónimo de férias, animação, emigrantes, turistas, sol, alegria, cultura, eventos musicais entre outras atividades. Na cidade em que vivo, tal como noutras cidades, as touradas são também uma tradição. Mas o que é que o espiritismo tem a ver com isto?

Ao longo dos milénios vamos assistindo ao evoluir da humanidade, ao refinar dos seus gostos, das suas tradições, dos seus hábitos.

A tal ponto que, as guerras, outrora cruéis, tornaram-se hoje mais sofisticadas, já não sendo o soldado que espeta a baioneta no inimigo, mas o simples “clic" num botão, que permite matar com mais “humanidade”, de uma maneira aparentemente “menos” cruel.

No que concerne às tradições, umas vão desaparecendo e outras vão ficando, até que um dia desapareçam por Sua vez e deem lugar a outras, novas,

que aparecerão. Faz parte da dinâmica das sociedades, da evolução grupal e individual.

Com a doutrina espírita (ou espiritismo), que não é nem mais uma seita nem mais uma religião, aprendemos que o princípio espiritual, criado por Deus, evolui ao longo dos milénios,

no reino vegetal, transitando para o reino animal, culminado este “estágio” milenar no reino hominal, onde aí, o princípio espiritual se torna um Espírito, adquire a sua personalidade, e começa então as suas primeiras vidas em planetas primitivos, evoluindo por sua vez, ao longo dos milénios, intelectual e

espiritualmente, até que um dia atinja a angelitude (ver “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardecl.

Neste sentido, o espiritismo vê os animais como nossos irmãos menores, seres vivos, seres orgânicos, apenas noutro estado evolutivo, no reino animal, digamos que num degrau abaixo do nosso atual estado evolutivo. Os animais merecem-nos o maior respeito, acompanhamento, auxílio, e devemos contribuir para o seu bem-estar, para que a sua evolução se faça também o melhor possível, sem sofrimento, tal como faríamos a um ser humano. Invocar em defesa das touradas (es-