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Cinema / Literatura

Jornal de Espiritismo nº 55 · Setembro 2012Página 175 min

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CINEMA / LITERATURA Pinga-Fogocom Chico Xavier Este livro foi organizado pelo conceituado jornalista Saulo Gomes que, em 1968, conquistaria a amizade de Chico Xavier . Após estar mais de duas décadas afastado dos grandes órgãos de informação públicos por motivos ponderáveis, como veremos, Chico, pelas mãos do então jovem Saulo Gomes, grava, pela primeira vez, uma entrevista para a televisão, a dia 2 de maio de 1968. Tal entrevista seria exibida no dia 14 do mesmo mês, na TV Tupi, canal 4 de São Paulo.

Recordemos, agora, os factos que levaram o abnegado médium a afastar-se dos “media” durante cerca de 25 anos. Em 1944, dois jornalistas da extinta revista «O Cruzeiro», do Rio de Janeiro, apresentaram-se em Pedro Leopoldo disfarçados de repórteres americanos, com o objetivo de desacreditar o médium e, por extensão, o Espiritismo que, nos anos 30 e início dos 40, deixaria o Brasil perplexo, nomeadamente a sua elite mais culta, pois a sabedoria que escorria pelas suas mãos tumultuava os espíritos.

Eram eles os jornalistas David Nasser (redator) e Jean Manzon (fotógrafo), que colheriam dias depois e já no Rio uma lição que jamais esqueceriam, na altura em que a edição de 14 de agosto de 1944 da revista mencionada já se encontrava no prelo. Tal facto, importante para a História do Espiritismo, pode ser lido em diversas biografias de Chico Xavier . Como dizíamos, em maio de 1968, 24 anos depois do triste episódio, Chico Xavier é entrevistado pela primeira vez na TV pelo jovem repórter Saulo Gomes, estabelecendo-se, desde essa época, uma forte amizade entre ambos que seria, se assim nos é permitido afirmar, a preparação para a presença do médium no programa «Pinga-Fogo», em 1971, na TV Tupi, canal 4.

O que era, afinal, o «Pinga-Fogo»? O «Pinga-Fogo» foi um programa de televisão que se estreou em 1955, terminando no ano de 1980. Nele eram exibidas entrevistas e variedades que encerravam a programação noturna das terças-feiras da TV Tupi, sempre com transmissão em direto. Os convidados pertenciam a todas as áreas da atividade humana, com particular incidência na política. A sua duração prevista era de uma hora, mas com Chico Xavier o tempo previsto foi sempre excedido.

A primeira entrevista, em julho, ultrapassou as três horas; a segunda, em dezembro do mesmo ano, consequência da inusitada audiência da anterior, atingiu as quatro horas. Além das questões propostas pelos entrevistadores convidadoscinco em cada um dos dois programaso médium respondia também, à queima-roupa, às que eram propostas pelo público presente que enchia por completo o auditório e as galerias do estúdio, e ainda às provindas dos telespetadores, via telefone.

Entre dezenas de perguntas provindas de todo o lado, não faltaram as questões-tabu da época e as mais polémicas a que Chico, com serenidade, segurança, bom senso, mas sempre com uma objetividade clara, respondia, dignificando, em todas as circunstâncias, o pensamento espírita. Foram abordados temas sobre sexo, homossexualidade, aborto, transplante de órgãos, operações plásticas, pena de morte, suicídio, cremação, entre outros.

A autenticidade das obras dos Espíritos por ele recebidas foi questionada por mais que uma vez, assunto de suma importância, pois que toca em dois pontos basilares da Doutrina Espírita: a imortalidade da alma e a comunicabilidade dos Espíritos. Como se sabe, na época, vivia-se em plena vigência do regime militar autoritário, não faltando a questão melindrosa sobre a matéria que poderia ser devastadora se respondida para agradar .

Questão semelhante à que, há mais de 2 mil anos, foi proposta a Jesus a respeito da licitude do tributo a pagar a César . Chico tinha plena consciência da transitoriedade do poder do momento, assim como do objetivo essencial do Espiritismo ser outro; não o de tumultuar a sociedade já tão perturbada e sofrida. Menos de uma década depois, sem violência, o regime diluiu-se. Se o médium tivesse feito como o mundo pretendia, teria desvirtuado a doutrina, transmitindo uma mensagem equivocada aos espíritas e à sociedade em geral, desviando-os do seu objetivo precípuoa evolução rumo à perfeição.

A 27 de julho de 1971, às 23h30, inicia-se o «Pinga- Fogo I», com Chico Xavier . Almyr Guimarães (1924-1991), jornalista de referência, licenciado em Economia, dotado de apurado senso crítico e ético, entrevistava e coordenava mais cinco conceituados jornalistas da época: João Scantimburgo (1915-), intelectual católico, professor universitário, membro da Academia de Letras e escritor; Helle Alves (1927- ), repórter de grande experiência internacional, que entrevistara a rainha Elisabeth de Inglaterra, Pablo Neruda, entre outros, dando a notícia, em primeira mão, em 1967, da morte de Che Guevara, e sendo, igualmente, uma estudiosa dos fenómenos espíritas; Reali Júnior (1939-), um dos mais experientes repórteres políticos do Brasil; o nosso já conhecido Saulo Gomes (1928-), o mais experiente repórter de investigação do Brasil; e, por fim, José Herculano Pires (1914-1979), jornalista dos «Diários Associados», escritor, professor universitário, sendo ainda por muitos considerado o maior intérprete do pensamento de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo.

Às 22h00 do dia 20 de dezembro de 1971, tem início o «Pinga-Fogo II», com Chico Xavier . Almyr Guimarães seria ainda o responsável por orientar a entrevista, juntamente com mais cinco convidados especiais: Vicente Leporace (1912-1978), radialista popular, actor de cinema e televisão, redator, locutor e apresentador de programas jornalísticos de televisão; Freitas Nobre (1921-1990), jornalista, escritor e professor universitário, deputado e líder da oposição (MDB), fundador do primeiro jornal espírita, intitulado «Folha Espírita», colocado nas bancas públicas, fora dos centros espíritas, com o apoio de Chico Xavier; Hernâni Guimarães de Andrade (1913-2003), engenheiro civil, investigador da fenomenologia espírita de renome internacional, fundou em 1963 o Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas, tendo estabelecido uma ponte entre a Parapsicologia e o Espiritismo; Durval Monteiro (1945-), ex-diretor de jornalismo da TV Tupi, ex-diretor de comunicação institucional da Unilever, autor de novelas de televisão com o pseudónimo Yves Dumont, tendo sido o mais jovem dos entrevistadores participantes, mantendo, durante parte do programa, um papel académico e crítico; e, por último, e uma vez mais, Saulo Gomes.

Ao final de ambos os programas, Chico Xavier, após a criação de ambiente de silêncio com música de fundo, recebe, na madrugada de 28 de julho, o espantoso soneto de Cyro Costa (1879-1937), poeta paulista, intitulado «Segundo Milénio» e, na madrugada de 22 de dezembro, o épico poema «Brasil», da autoria do príncipe dos poetas brasileiros, Castro Alves (1847-1871). A presente obra está enriquecida com 118 notas de rodapé ─ 66 referentes ao «Pinga-Fogo I» e 52 alusivas ao «Pinga-Fogo II» ─, bem como mais de uma centena de notas marginais que permite ao leitor situar-se no âmago da época e no desenrolar das entrevistas.

Esta obra, que contém um índice remissivo bem elaborado, editada pela InterVidas, de Catanduva, São Paulo, com a sua primeira edição publicada em 2009, deve integrar qualquer biblioteca espírita no setor da História do Espiritismo. PorCarlosAlbertoFerreira NOVEMBRO.