Opinião (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 55 · Setembro 2012Página 167 min
Contudo, é justo perguntarmo-nos: - se temos que ser brandos e compreensivos na palavra e no pensamento, e utilizar a verdade apenas como amparo ao que carece de suporte na sua caminhada evolutiva, então como é que se desencadeia a justiça? Simão justificava o seu procedimento com a necessidade de “amparar estes homens com a verdade…” o Senhor lhe respondeu: “- Sim, eu falei em “amparar”, nunca te recomendaria aniquilar alguém com ela…” E depois convidou os quatro publicanos para cearem com Ele, ofertando- lhes reconforto e nobreza nas palavras.
Conciso mas imprescindível o ensino de utilizar a verdade que nos foi ofertada ceder perante o engano e a mentira? De não afrouxar perante a perfídia e o abuso? Não devemos ser nós aniquiladores do erro e defensores da verdade? Precisamente acerca da utilização da verdade, chega-nos interessante narrativa, em que Jesus, quando deixava a casa de Jeroboão em Corazim, solicitou a Simão que amparasse com a verdade quatro consulentes (Estante da vida: XIX).
Eram Eliúde, O nosso país, em particular, está submetido a momentos de austeridade que nos mergulham em tempos de miséria e desespero económicos, que julgávamos não voltarem a ter que ser redigidos na História. Em resposta, assistimos a uma mobilização da sociedade civil sem precedentes, demonstrando uma elevação moral ímpar, ainda que na linha do que é a noção tradição: um milhão de pessoas; num só protesto; sem qualquer confronto!
Neste cenário, no qual cada um de nós está inserido, cabe-nos, como espíritas, encontrar o devido lugar. Como pensar? O que dizer? Como agir? Outros povos tiveram histórias semelhantes, porventura mais opressoras. Um desses povos foi o judeu, nomeadamente à época do Cristo, em que se sentiam subjugados à ocupação militar dos exércitos romanos e traídos por uma hierarquia social e política que não defendia o povo empobrecido, sucessivamente esvaziado do pouco que ia tendo.
Imponentes perante o ferro das armas romanas, os judeus recorriam à força da palavra que se inspirava na lei religiosa, para defender o que tinham como verdadeiro nas suas tradições; verdadeiro e justo. Mais tarde reconheceriam no Messias o enviado de Deus, mas de quem esperavam a revolução política ao invés da salvação espiritual. Por isso não raros foram os que a Ele recorreram na esperança vã de auscultar intenções de tomada de poder e repartição de títulos, após o derrube do representante de César.
Atendendo à similitude de cenários, busquemos excertos de alguns desses diálogos, para com o Salvador encontrarmos orientação para questões como o uso da palavra, a verdade, a justiça, em suma, como proceder perante a injustiça. Nem todas as parábolas contadas pelo Cristo foram perpetuadas nos textos do Novo Testamento. Narra-nos a psicografia de Chico Xavier que certo dia, em Cafarnaum, alguns aprendizes argumentavam sobre o poder da palavra.
Perante a necessidade de regenerar o mundo, debatia-se se optar pelo “verbo contundente” se pela “frase branda e compreensiva” (Contos e apólogos: X). Para tornar acessível a lição, o Mestre narrou-lhes uma parábola simples, que ilustrava como a palavra boa pode conduzir um reino à prosperidade e tranquilidade, enquanto a palavra maldizente provoca a desarmonia, promove o conflito estéril e faz o reino descambar na miséria.
Feita a distinção entre a “palavra preciosa” e a “palavra infeliz”, sublinhou que essa mesma palavra não é mais do que a extensão do pensamento, pelo que deverá ser logo neste que a vigilância deve ser exercida. Nós, espíritas, conscientes da importância do verbo, temos que ter presente a importância de o gerir com cautela, sobretudo nos instantes de instabilidade, em que a insensatez do grupo promove a deturpação da palavra menos zelosa.
A palavra preciosa harmoniza-se, pois, na frase branda e compreensiva. Porém, a questão pode não ser assim tão simples. Não tem o espírita a tarefa de dissipar as trevas do mundo? De não Perante a injustiça a conduta de Jesus Moabe, Zacarias e Ananias. Vinham inquirir pelo caminho que lhes guiaria o coração até ao Reino de Deus. Mas Simão, conhecedor dos crimes praticados por cada um, quando a sós com os quatro, desmascara-os à vez, expondo os enganos de que eram portadores e revelando a verdade sobre cada um.
Finda a cena, o Cristo entra no espaço privado e quando O planeta Terra demora-se na travessia do leito da perturbação, servindo de moradia para os derradeiros conflitos antes da transformação regeneradora. somente como instrumento de amparo e nunca como de aniquilação. Contudo, é justo perguntarmo-nos: - se temos que ser brandos e compreensivos na palavra e no pensamento, e utilizar a verdade apenas como amparo ao que carece de suporte na sua caminhada evolutiva, então como é que se desencadeia a foto arquivo NOVEMBRO.
DEZEMBRO 2012 ciados para indivíduos com os mesmos direitos, em algumas situações pode levar à agressividade e à violência. O ódio à diferença foi – porventura, ainda éo móbil mais destruidor que a história da humanidade já conheceu. Não se espere encontrar em Paranorman, um retrato fiel da mediunidade, da vivência espiritual ou da relação entre vivos e mortos. Mesmo assim, é muito agradável que um filme de animação aproveite para tratar a mediunidade de uma forma descontraída e natural, retirando-lhe a carga perturbadora com que normalmente é inserida nos guiões da sétima arte, proporcionando dessa forma óptimos momentos de diversão ao mesmo tempo que nos oferece interessantes motivos para refletirmos.
Um conselho para os pais: apesar de este ser um filme de animação divertido e despretensioso, catalogado para maiores de seis anos, o seu visionamento deverá ser evitado por crianças que sejam impressionáveis, pois possui algumas cenas mais sombrias e assustadoras que pretendem precisamente induzir o sobressalto. Título original: ParaNorman Realizadores: Chris Butler, Sam Fell Vozes da versão portuguesa: João Miguel Pacheco, Tiago Monteiro, Pêpê Rapazote, Sandra Faleiro, Ana Guiomar, Eduardo Madeira, César Mourão Género: Animação/Aventura Classificação: M/6 Outros dados: EUA, 2012, Cores, 93 min.
Por Carlos Miguel Paranorman Norman é um miúdo tímido de 11 anos que vive numa pequena e pacata cidade. À primeira vista, há pouco que o distinga dos outros miúdos da sua idade mas Norman possui uma particularidade que o torna diferente aos olhos de todos: a sua capacidade para ver e falar com os mortos. Pressionado pela sua família para que se comporte de uma forma normal, vítima de bullying na escola e constantemente ridicularizado pelos habitantes da cidade, Norman aceita a sua diferença de uma forma natural.
A perturbação de Norman é causada pelos vivos que não compreendem a sua sensibilidade, não pelos mortos. Em vez de se procurar encaixar naquilo que os padrões sociais julgam como “normal”, ele encontra no isolamento a defesa possível para a incompreensão que o rodeia, preferindo a amizade e companhia dos espíritos que mais ninguém vê. A sua melhor companheira é a avó, já falecida, que fica sentada no sofá a fazer tricot enquanto Norman vê os seus programas de televisão favoritos.
Numa cena curiosa do início do filme, Norman dirige-se descontraído para a sua escola, cumprimentando alegremente os simpáticos amigos invisíveis que encontra no caminho enquanto se afasta timidamente dos vivos que com ele se cruzam. Só que Norman vê-se obrigado a sair do isolamento a que se submeteu para poder salvar a sua cidade de uma antiga maldição secular lançada por uma bruxa. Utilizando a sensibilidade que o caracteriza e a coragem que vai aprender a usar, ele tentará compreender o que se passou naqueles tempos passados para conseguir convencer o Espírito da suposta bruxa a perdoar o mal que lhe fizeram, escolhendo um caminho diferente ao da vingança e do rancor .
Paranorman é um filme de animação – estreou nos cinemas em Portugal a 13 de setembro deste ano – que retrata a mediunidade infantil de uma forma ligeira, descontraída e muito engraçada. Mas Paranorman não é apenas um filme sobre um miúdo que vê espíritos e que procura aprender a lidar com os desafios que isso representa, mas dá-nos sobretudo uma oportunidade para refletir sobre a discriminaçãoeo preconceito, mostrando--os como filhos genuínos da ignorância e do medo, e como sendo fatores geradores de uma crescente violência e do ódio mais insano.
Todo o filme desenrola-se a reboque de ideias pré-concebidas e de várias representações de medo ao que é diferente, seja ele a mediunidade, a homossexualidade, miúdos gordinhos, bruxas, os chamados mortos, ou um grupo de zombies assustadores que, em vez de fazerem mal, apenas pretendem ajuda para terminar com os tormentos que sofrem por causa da maldição da bruxa. O filme é muito feliz ao não embarcar no maniqueísmo habitual do bem e do mal, procurando que o espectador entenda todas as perspectivas e comportamentos.
A própria intolerância é tratada de uma forma compreensiva, justificando a sua manifestação individual e colectiva como o resultado da mais pura ignorância. A diferença, seja ela expressa em ideias, comportamentos ou características físicas, tende a provocar medo e suspeição. Como sociedade, todos temos muito que caminhar em direcção a uma convivência mais saudável e tolerante com todos aquele que são, pensam e revelam comportamentos que se afastam daquilo que a maioria convencionou como “normais”.
O animal gregário que ainda existe dentro de cada ser humano prefere viver em rebanho, entre os que são mais parecidos consigo. Trata-se de um reforço para a sua ideia de normalidade. Se ele é como todos os que o rodeiam, se não possui sentimentos, ideias ou pensamentos que se diferenciem, se age de acordo com os costumes, tradições, normas e padrões do grupo a que pertence, ele confirma- se no caminho certo porque se sente “normal”.
No entanto, quando se depara com a diferença, fica assustado e inseguro porque essa diferença ameaça as bases em que assentam os alicerces da sua suposta normalidade.
