Entrevista Novembro.dezembro
Jornal de Espiritismo nº 55 · Setembro 2012Página 116 min
ENTREVISTA NOVEMBRO.DEZEMBRO 2012 Estas cartas incontornáveis ganharam uma nova dimensão recentemente no Brasil: serviram de tema para a tese universitária da investigadora Cíntia Alves da Silva com o título “As cartas de Chico Xavier, uma análise semiótica”. O estudo foi apresentado no verão passado na UNESP, a Universidade Estadual Paulista. Vamos às perguntas… A sua dissertação de mestrado chama-se “As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica”.
Como poderemos definir semiótica, de forma acessível ao grande público? Cíntia Alves da Silva – De forma sucinta, podemos compreender a Semiótica como uma teoria da significação que propõe-se a explicitar conceitualmente os processos de apreensão e produção de sentido. A Semiótica da Escola de Paris ou Semiótica greimasiana, como é mais conhecida, foi preconizada nos anos de 1960 por Algirdas Julien Greimas e seus colaboradores.
Essa perspetiva teórica trabalha com a dimensão linguística do texto, tomando o sentido por objeto privilegiado. A Semiótica auxilia-nos a descrever e analisar não somente o que um texto diz, mas “como” ele diz, o que pode ser feito por meio do estudo dos seus mecanismos de construção do sentido. Pode descrever, por favor, os objetivos e os resultados da sua pesquisa? Cíntia Alves da Silva – O objetivo principal da minha pesquisa foi o de compreender como se dá o processo de construção das autorias espirituais (ou “imagens” de enunciador) nas cartas “familiares” ou “consoladoras” de Chico Xavier.
O estudo também pretendeu demonstrar como é possível caracterizar as cartas psicográficas enquanto um tipo de texto em particular, diferente dos textos epistolares “típicos”. Além de se configurar como um género, essas cartas traçam um percurso editorial bastante peculiar, que possibilita que elas sejam compreendidas em outros contextos além do centro espírita, onde é produzida. O córpus analisado foi composto de dez cartas psicografadas publicadas entre os anos de 1974 e 1980 e atribuídas a três autores: Augusto César Netto, Jair Presente e Laurinho Basile.
Nessas cartas, buscamos observar as recorrências presentes nos textos atribuídos a cada autor: o vocabulário empregado, os temas abordados, suas buscas e paixões, a coerência narrativa estabelecida ao longo de uma sequência de cartas, etc. O estudo permitiu-nos observar diferenças discretas, mas significativas, entre os autores espirituais e, sobretudo, as similaridades existentes entre eles. No fim da pesquisa, pudemos constatar que, nas cartas psicográficas, delineia-se uma imagem (éthos) dual, ambígua, de enunciador: o éthos doutrinário (vinculado à imagem do médium) em articulação com o éthos do jovem, como se duas identidades se revezam na tarefa de comunicar, ora alternando-se, ora sobrepondo-se uma à outra.
Como surgiu o seu interesse pela Linguística, e dentro desta, pela psicografia? Cíntia Alves da Silva – O meu interesse pela Linguística surgiu durante o curso de graduação em Letras, na Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Desde os primeiros contatos com a disciplina, senti que a Linguística era capaz de responder a muitas das questões que eu me fazia enquanto lia e interpretava os textos. Sempre fui uma leitora voraz, e interessava-me, sobretudo, compreender como seria possível delimitar as possibilidades de interpretação de um texto, isto é, os seus possíveis “caminhos de leitura” (afinal, como limitar as possibilidades de interpretação de um texto, que pode ser compreendido de modos tão diversos por diferentes leitores?)
A problemática da interpretação levou- -me, desde os meus primeiros estudos de iniciação científica, a dedicar-me à compreensão dos processos de produção de sentido. Em relação à psicografia, devo admitir que, como leitora de obras espíritas desde os meus 14 anos, ela sempre me intrigou muitíssimo, embora eu nunca tenha tido a menor pretensão de estudá-la mais seriamente. No entanto, esse interesse intensificou-se em 2008, quando tive contato com um recorte de jornal em que se comentava sobre a existência da AJE-SP (Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo).
Na época, essa associação discutia a possibilidade de se utilizar cartas psicografadas como meio de prova nos tribunais. A partir da leitura dessa notícia, passei a buscar e organizar informações sobre os casos que envolviam a escrita mediúnica de Chico Xavier. Assim, o que era um passatempo, inicialmente, tornou-se tema da minha pesquisa de mestrado entre 2009 e 2010, quando ingressei no curso de Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, a UNESP de Araraquara (SP), sob a orientação do prof.
Dr. Jean Cristtus Portela. A importância sociocultural e editorial da psicografia no Brasil foi, sem dúvida, o principal motivo que me levou a considerar o estudo académico desse tema. Na sua opinião, a que se deve o encanto e o interesse do público pelo género epistolar psicográfico? Cíntia Alves da Silva – O género epistolar exerce, por sua própria constituição, um grande apelo afetivo. É por ele que os sujeitos, afastados no espaço e no tempo, podem se aproximar, tomar forma, constituir-se como imagens, tal como se estivessem um diante do outro.
Isso é um efeito de sentido, algo construído pelo discurso, e que faz parte do encantamento “particular” que o género epistolar é capaz de criar em sua receção. É um processo bastante peculiar, que instaura uma espécie de “duplo destinatário”, como se houvesse duas camadas de texto, uma dirigida para o familiar enlutado, outra para o leitor comum. Acredito que o interesse do público pelo género epistolar psicográfico se deve, em grande parte, à eficiência dessa prática tão peculiar de produção e de edição textual.
É simpatizante da doutrina espírita? Cíntia Alves da Silva – Sou adepta do Espiritismo desde 2007, embora tenha sido leitora de obras espíritas desde os meus 14 anos. Considera que a simpatia de um pesquisador por determinada filosofia ou determinado autor pode prejudicar a sua objetividade? Cíntia Alves da Silva – Creio que a simpatia de um pesquisador por um determinado autor, tema ou filosofia não represente qualquer empecilho à objetividade da pesquisa, desde que os seus objetivos sejam bem estabelecidos e que as suas questões tenham relevância científica e social, de modo a despertar o interesse de mais pessoas além dele mesmo.
A ciência exige do pesquisador um movimento natural de distanciamento do seu objeto de pesquisa, independentemente da temática com a qual se lide. No caso das pesquisas de temática espírita – ou mesmo daquelas que envolvam religião, de um modo geral – esse cuidado é ainda mais essencial. Encontrou resistência em relação ao tema da sua dissertação, ao ingressar no meio académico? Cíntia Alves da Silva – Não, muito pelo contrário.
Desde o primeiro contato com os professores da universidade em que estudo, recebi incentivos para que prosseguisse com a proposta de tomar as cartas psicográficas como objeto de pesquisa. Tive o privilégio de contar com professores que souberam perceber a importância da psicografia no contexto brasileiro, seu impacto editorial e as singularidades textuais e discursivas desse tipo de escrita. Que tipo de dificuldades implica este tipo de pesquisa?
Cíntia Alves da Silva – As dificuldades implicadas em uma pesquisa de temática espírita têm a ver, mais especificamente, com a necessidade de distanciamento “afetivo” do pesquisador em relação ao seu objeto de estudo. Esse distanciamento é necessário em estudos de qualquer temática, mas torna- -se ainda mais crucial naqueles que envolvem a crença religiosa, de modo mais amplo. É preciso cuidado para que a adesão a uma crença não leve o pesquisador a fazer proselitismo em vez de fazer ciência.
É aí que reside o maior risco desse tipo de pesquisa.
