55 — índice de conteúdos

Entrevista Novembro.dezembro (pág. 12)

Jornal de Espiritismo nº 55 · Setembro 2012Página 126 min

Partilhar
Idioma

ENTREVISTA NOVEMBRO.DEZEMBRO 2012 em que seu o estudo se insere nem com a própria doutrina. Na fase chamada das cartas consoladoras, a psicografia de Chico Xavier permitiu entregar mensagens de jovens desencarnados a suas famílias. Há alguma evidência de que Chico conhecesse pormenores sobre a vida desses jovens e a linguagem própria de cada um? Cíntia Alves da Silva – É difícil afirmar de que maneira Chico Xavier tinha acesso a todas as informações presentes nas cartas psicografadas nas sessões públicas realizadas no Grupo Espírita da Prece, na cidade de Uberaba (MG), onde atuou por décadas.

De acordo com relatos da Associação Médico-Espírita do Estado de São Paulo – AME, em “A vida triunfa” (1991), Chico Xavier realizava um curto diálogo com os familiares, antes das sessões de psicografia. Esse diálogo era feito semanalmente com 60 pessoas, em média, vindas de todas as partes do Brasil, e durava poucos minutos – o suficiente para que cada um se identificasse e comentasse a razão pela qual estava ali. Há quem prefira pensar que era assim que o médium mineiro obtinha informações sobre os “espíritos comunicantes”.

Entretanto, isso explicaria somente a presença de informações de conhecimento da família nas cartas que Chico escrevia. Como é possível explicar a presença de informações completamente desconhecidas pelos familiares, pelo médium e pela audiência presente nas reuniões públicas, e que eram, muitas vezes, comprovadas posteriormente ao recebimento da mensagem (como exemplo, indico a leitura do “Caso Irineu”, que incluí nos anexos da minha dissertação)?

Por exigência do rigor metodológico, meu estudo jamais entrou no mérito dessas questões, restringindo-se apenas ao aspeto linguístico e semiótico dessas cartas, às formas pelas quais elas criam esse efeito de “verdade” e “autenticidade”. No entanto, há atualmente um estudo em andamento, realizado pelos pesquisadores Alexandre Caroli Rocha e Denise Paraná, na Universidade de São Paulo – USP, acerca das formas de obtenção das informações contidas nas cartas psicografadas por Chico Xavier.

Após esta pesquisa, conserva reservas sobre a correspondência do estilo das cartas psicografadas com as personalidades que as assinam? Cíntia Alves da Silva – Bem, a minha pesquisa não teve como objetivo estabelecer uma comparação entre o estilo de cada autor quando vivo e, supostamente, depois de morto. É por esse motivo que não posso posicionar-me quanto a uma correspondência ou não de estilos. A única comparação a que me ative foi a do estilo post-mortem de cada um dos autores, analisando a sua coerência interna, tanto em termos textuais quanto discursivos.

Em sua opinião, a que se deve o interesse crescente pela obra de Chico Xavier, nomeadamente por parte do cinema? Cíntia Alves da Silva – No Brasil, o cinema e a televisão têm produzido uma série de filmes e novelas de temática espírita, nos últimos anos, com grande sucesso. Esse fenómeno, denominado pelos veículos de imprensa de “onda espírita”, intensificou-se a partir do centenário de Chico Xavier, em 2010. Embora pareça inusitado, esse movimento é o resultado de décadas da existência de um bem sucedido mercado editorial espírita.

“Nosso Lar”, um best-seller espírita, cuja tiragem ultrapassou os dois milhões de exemplares, foi transformado no filme de mesmo nome, atingindo enorme sucesso de bilheteria no ano de 2010 (segundo o Ministério da Cultura, “Nosso Lar” consagrou-se como a terceira maior bilheteira do cinema brasileiro, desde a sua “retomada”, no ano de 1994). Esse exemplo demonstra, em grande medida, o apelo que as obras psicografadas por Chico Xavier exercem sobre o público brasileiro.

Não se pode negar, portanto, que esse “súbito” interesse do cinema funda-se em razões claramente mercadológicas. Na obra de Chico Xavier tem preferência por autores ou livros? Cíntia Alves da Silva – A obra de Chico Xavier é bastante extensa e diversificada em seus géneros e estilos, mas, além das cartas psicografadas, tenho predileção pelas obras atribuídas aos espíritos André Luiz e Emmanuel. Que tipo de reações tem tido relativamente a este seu trabalho?

Cíntia Alves da Silva – O meu trabalho tem sido recebido com muito respeito e interesse por parte da comunidade académica, tanto dentro da Universidade a que sou vinculada – a UNESP de Araraquara (SP) – quanto nas outras instituições de ensino superior e nos eventos em que tive a oportunidade de apresentá-lo. Creio que essa recepção positiva se deva a uma compreensão da comunidade sobre a relevância da escrita psicográfica no contexto brasileiro, cuja repercussão editorial é evidente.

Está nos seus projetos continuar a pesquisa na área da psicografia? Cíntia Alves da Silva – Sim, atualmente a minha pesquisa de mestrado se desdobra no doutorado, também no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da UNESP de Araraquara, sob a orientação do prof. Dr. Jean Cristtus Portela e com o fomento da CAPES. Neste momento, estudo a psicografia como prática semiótica. Minha pesquisa intitula-se “A prática da psicografia: enunciação e memória em relatos de experiência mediúnica”, que terá como base relatos orais de médiuns psicógrafos da cidade de Uberaba (MG).

No Brasil, o cinema e a televisão têm produzido uma série de filmes e novelas de temática espírita, nos últimos anos, com grande sucesso. Esse fenómeno, denominado pelos veículos de imprensa de “onda espírita”, intensificou- -se a partir do centenário de Chico Xavier, em 2010. Pedimos-lhe uma mensagem para os leitores do “Jornal de Espiritismo”, em especial para os que pensam abraçar projetos como o seu… Cíntia Alves da Silva – Gostaria de agradecer aos leitores do “Jornal de Espiritismo” pela atenção dispensada, sugerindo àqueles que queiram se aprofundar no estudo das cartas psicografadas, que acessem o blogue “As cartas de Chico Xavier” (http://www.

cartasdechicoxavier. blogspot.com.br), onde terão acesso ao texto completo da minha dissertação, entre outros materiais relacionados. Para os que pretendem dar início a uma pesquisa académica de temática espírita, creio que a recomendação mais importante seja a de manter em mente que só se pode contribuir com a ciência e com o espiritismo a partir de um posicionamento racional e não proselitista. É preciso dedicar-se ao exercício do distanciamento, muitas vezes penoso, mas indispensável para o fazer científico, e sem o qual, por vezes, se pode pôr a perder uma excelente pesquisa.

Como dizia Richet “É necessário ser tão audacioso na hipodissertação como rigoroso na experimentação”. Deixemos que os dados falem por si. Por Mário Correia fotos arquivo Claro que não, serve para todos os que desejem reflectir sobre os seus conceitos, tão ligados à natureza humana. De que outras formas mudará o espiritismo, sinónimo de doutrina espírita, a vida de quem o estuda? À partida, ocorre uma maior harmonização da vida diária.

As condutas inspiradas pela ética desta doutrina previnem sarilhos e acabam por espalhar benefícios em volta, mantendo presente a noção de que as provações são temporárias – cada um deve ficar atento para a emergência do seu término a fim de melhorar a própria vida. Entre tantas pessoas que sentem a aflorar em si a sensibilidade mediúnica, é comum o receio de falar do assunto - «Se falar disto vão pensar que sou doido».

Poucas percebem que quase todas as famílias têm alguma história de um transe estranho que abordava a personalidade de algum membro, de alguém que via vultos ou que até falava com eles, que tinha pressentimentos certeiros, ou que assistiu a batidas peculiares, de causa indefinida. «Estes não precisas de recear. Sabes que chega uma altura em que partimos desta vida material, tantas vezes sem percebermos. Estes não te vão aplicar um colete de forças, nem te vão dar injeções.

Não precisas. Só te querem ajudar. Vais entrar numa fase muito melhor, agora estás livre». É tudo uma questão de sintonia. Aprender a melhorar esse ponto exato e transformar perturbação em harmonia é um dos aspetos que se podem aprender com a doutrina espírita, mas ninguém pode evoluir por outrem, cabe a cada um percorrer o seu caminho de autodescoberta, amparado. Sendo ou não o seu caso, é de ir em frente! A solução vai surgiu e, de resto, Deus está no leme.