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Opinião (pág. 13)

Jornal de Espiritismo nº 56 · Maio 2013Página 132 min

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Fátima vinha com ar cansado e dolorido, via-se na sua expressão facial, onde as rugas não escondiam as dores da alma. Contou-nos o seu drama íntimo: o seu filho, de 40 anos, estava na fase terminal de um cancro no cérebro. Falámos acerca do que a doutrina espírita (ou espiritismo) pensa do assunto, de como explica as dissemelhanças de oportunidades, alicerçadas na justiça divina e na reencarnação, onde todos somos iguais perante Deus e ninguém é privilegiado.

Conversámos muito, esclarecemos dúvidas. No dia seguinte, Fátima apareceu com uma amiga no curso básico de espiritismo (gratuito), onde estudamos em grupo, com a maior das naturalidades e sem pretensões de ensinar a ninguém: aprendemos em conjunto. Fátima voltou, voltou e foi voltando, até que um dia disponibilizámo-nos para visitar o seu filho. Ela ficou de ver da viabilidade da visita, sem forçar a vontade alheia. O filho, cético, e muito marcado pela vida, acedeu em receber-nos.

Ficámos felizes, pois sempre que temos uma oportunidade de sermos úteis, ficamos sempre em débito para com quem nos proporciona tais serviços ao próximo. No dia marcado, lá fomos, com naturalidade, sem discursos ocos e preparados, pedindo a Deus que nos intuísse para podermos ser úteis. Nos primeiros segundos, houve uma grande empatia entre o visitante e o visitado. Não interessava se era cético ou não. Não interessava se era deste ou daquele clube, desta ou daquela cor.

Era um ser humano que está na iminência de largar o corpo de carne, e que estava apavorado em virtude do desconhecido. Falámos sobre a vida para além da morte, não como crença, mas baseado em factos, em pesquisas científicas que ainda hoje continuam a ser efetuadas. Falámos da lógica da vida, dos princípios básicos da doutrina espírita, de como a vida continua no mundo espiritual, de vários casos passados connosco que atestam a imortalidade do ser humano.

Acima de tudo ficámos amigos. Voltámos, e agora a conversa era franca: ele sabe que está quase a partir para o mundo espiritual. Falámos abertamente sobre o que iria acontecer, o que iria sentir, e a confiança estampava-se no seu rosto, levemente molhado por teimosa lágrima que insistia em rolar face abaixo. Ficámos amigos. Fiquei de voltar. Não sei se voltarei a tempo… Combinámos que quem partisse primeiro, ajudaria o outro quando chegasse a hora do outro partir para o mundo espiritual.

Ficou combinado! Voltei a casa. Fátima, a sua mãe, dizia-me pelo telefone que se sentia estranha, porque, apesar de tudo, estava muito calma, serena, e a encarar tudo com foto loucomotiv O meu filho tem cancro… JANEIRO.FEVEREIRO 2013 nhar, portanto, disse esse meu amigo, que a companheira não aceitasse tais constatações. Quantos de nós seremos capazes de tais observações em relação ao companheiro de jornada? Na jornada evolutiva inúmeros serão os obstáculos, muitas serão as oportunidades, porém, a certeza é que teremos de vencer a nós mesmos, rompendo com as imperfeições.