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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 59 · Julho 2013Página 129 min

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De tempos a tempos surge o debate sobre como definir Espiritismo. Moral ou religião? Qual a sua relação com a religiosidade? E sobretudo, qual a importância deste debate? São expostos argumentos commumente sustentados num conjunto circunscrito de textos e que, por ausência de novidade, dão azo à exposição de convicções pessoais que pretendem os seus autores sejam representativas da doutrina espírita. De nossa parte, apresentamos somente uma síntese de um conjunto de reflexões resultado de pesquisas em torno do tema.

Cumpre começar por esclarecer que o assunto está longe de ser novidade. Já no final do século XIX tal diferença de opiniões conduziu a um extremar público de ideias que despontou numa intensa desarmonia, quebrando a união entre a falange de espíritas. O problema não adveio tanto do debate de opiniões, mas da falta de verdade, respeito intelectual e fraternidade com que foi feito, levando a que tertúlias e artigos fossem formulados para “atacar” opiniões divergentes e seus autores, bem ao estilo incendiário da época.

Entre 1875 e 1895 prolongou-se a disputa entre “científicos” e “místicos”, mais tarde apelidados de “religiosos”. Mas o que os distinguia? Na segunda metade do século XIX foi ganhando adeptos uma ala mais científica, que privilegiava o aperfeiçoamento do método (de investigação) em todas as práticas. Não abdicando de um questionamento constante, entendiam a Codificação como um compêndio ultrapassado que carecia de atualização.

Introduziram ainda idealismos iniciáticos importados das práticas maçons, promoveram o abandono das preces e elitizaram as funções atribuídas em cada casa, consequência da supervalorização dos títulos académicos. Procuravam demarcar- -se dos que designavam por “religiosos”, que caracterizavam como recuperadores do pressuposto católico da culpa-castigo e implementadores de rituais próximos da Igreja de Roma. Criticavam estes por importarem um conjunto de procedimentos do catolicismo, entendendo os atendimentos como uma outra forma da confissão católica, as preces como novas novenas, a reflexão evangélica como uma moderna sacristia, a água fluidificada uma diferente comunhãoeo passe uma benção original.

Tal contenda só apaziguou com a chegada de Bezerra de Menezes à Federação Espírita Brasileira (FEB), tendo o processo culminado na valorização da orientação evangélica e com a ala religiosa a assumir o controlo da FEB (1895). Desconhecemos em detalhe quais os textos que serviram de base para o duelo filosófico, mas provavelmente não foram muito diferentes dos de hoje. Porém, talvez como consequência de se ter sentido preterida perante o desfecho de 1895, a escola científica, na atualidade, pontualmente retoma o debate.

Interroguemos-nos pois: - Será o Espiritismo uma religião? Se sim, onde foi escrito por Kardec? Se não, qual a relação que o “codificador” traçou entre a doutrina espírita e a religião? Poderíamos começar por dissertar sobre os diferentes significados que a palavra “religião” pode comportar, mas isso levar-nos-ia a um rol de interpretações inócuas. Mais importante do que interpretar na atualidade, importará perceber como Kardec geriu o conceito à época.

Curiosamente não se suporta de nenhuma obra linguística. Encontramos esta interpretação numa intervenção proferida em dezembro de 1868, registada na “Revista Espírita” sob o título “O Espiritismo é uma religião?”. Allan Kardec expõe que no seu entendimento, religião ”... em sua acepção ampla e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças; consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé.

” Definição simples? Porventura menos complexa do que a queremos tornar. Aqueles que defendem que a doutrina espírita não é religião sustentam maioritariamente a sua argumentação num momento deste mesmo discurso, quando o “apóstolo de Lyon” esclarece “Por que, pois, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? (…) O Espiritismo, não tendo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não se poderia, nem deveria se ornar de um título sobre o valor do qual, inevitavelmente, seria desprezado”.

A resposta é aparentemente clara. Espiritismo não é religião. Contudo, simplificar a conclusão desta forma desvirtua claramente a opinião expressa no momento. Com efeito, se voltarmos à definição de religião apresentada por Kardec, perceberemos que existem duas ideias distintas que são focadas nesse comentário: - o conjunto de sentimentos, princípios e crenças que unem os homens; e a forma como foram codificados. Ora se valorizarmos somente a segunda ideia e ignorarmos a primeira, passaremos a ter um conceito necessariamente diferente do original.

É o próprio Kardec que começa por expor que no seu entendimento “Todas as reuniões religiosas, (…) são fundadas sobre a comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que ela [religião] deve e pode exercer toda a sua força, porque o objetivo deve ser o desligamento do pensamento das amarras da matéria.” Acontece porém que, conforme observa, “a maioria se afastou deste princípio, à medida que fizeram da religião uma questão de forma.

” E é somente por ter ocorrido este desvirtuar da ideia original, que Kardec hesita em considerar o Espiritismo uma religião. O problema não está, então, na primeira parte do conceito, que é o da união de pensamentos. Reside antes na adulteração empreendida através da institucionalização de rituais e hierarquias, das quais o “codificador” quer preservar o Espiritismo, afastando-o da conotação negativa que, em pleno movimento positivista, qualquer ideologia concebida através do método dogmático pudesse ter.

Mas independente da intenção com que o comentário foi feito, apenas surgiria debate se o próprio Kardec tivesse dito, no mesmo momento, o contrário; ou seja, que Espiritismo era uma Religião. Acontece que, de facto, antes de expor porque o Espiritismo não é uma religião, Kardec explicou primeiro porque... é! Interpelando a assembleia que o ouvia, interroga: “... dir-se-á, o Espiritismo é, pois, uma religião?” E esclarece logo em seguida “Pois bem, sim!

sem dúvida, Senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e disto nos glorificamos, porque é a doutrina que fundamenta os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.” Será que Kardec daria duas respostas contrárias para a mesma pergunta? Das milhares que clarificou, seria a única. O bom senso e, sobretudo a lógica, obrigam-nos a aprofundar mais o assunto.

Muitos optaram por solucionar o problema apenas classificando o Espiritismo como uma ciência e filosofia, da qual decorrem consequências morais. Assim julgaram poder apartar religião de Espiritismo. A opção tem valor mas parece-nos ignorar a relação entre Moral e Religião. É o próprio Kardec que nos esclarece na obra “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, ao assumir com uma clareza irrefutável, no capítulo I, item 8, que “A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral.

” Logo, outra não pode ser a conclusão que não a de que a religião revela as leis do mundo moral que, recorde- se, são precisamente o título da parte terceira de “O Livro dos Espíritos”. Afirme- se pois, sem dúvidas, que a Religião é parte integrante do Espiritismo, até porque a convicção não é originalmente nossa; é de Kardec. Resta-nos perguntar: - será que Kardec optou propositadamente por uma resposta aparentemente dúbia?

No primeiro texto acima transcrito foi suprimida uma parte que agora importa recuperar. O “codificador” explica a caráter duplo da sua ideia mas aponta ser “Pela razão de que não há senão uma palavra para expressar duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; que ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, e que o Espiritismo não a tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria nele senão uma nova edição, uma variante, querendo-se, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com um cortejo de hierarquias, de cerimónias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo, e dos abusos contra os quais a opinião frequentemente é levantada.

“ Ora esta dicotomia encerrada num mesmo conceito é então a causa porque não podemos considerar o Espiritismo uma religião. Ao fazê-lo estaríamos a simplificar mas silmutaneamente a desvirtuar a doutrina espírita. Mas ao negá-lo também estamos a incorrer em erro. Como encontrar a verdade? Os adeptos da opinião de que o Espiritismo não é religião apresentam como argumento último da sua convicção, o facto de, no discurso que aqui analisamos, Kardec primeiro apresentar a ideia de que Espiritsmo é Religião para, depois, concluir que não é.

Logo, de acordo com as regras da dialéctica, seria a última ideia a que serviria de conclusão. Esse argumento tem algum valor; mas obriga-nos a analisar o texto até ao fim.Ora consultando o final do discurso proferido por Kardec nessa noite, vemos que ele termina enumerando os princípios fundamentais da doutrina espírita expostos em “O Livro dos Espíritos”, designando-os no final de um modo elucidativo para este raciocínio.

Kardec intitula estes princípios como “eis o Credo, a religião do Espiritismo”. Mais claro não podia ser: - o Espiritismo não é uma religião, mas tem uma religião. A praxis que conduz a criatura a religiar-se ao Criador. Por isso o “codificador” explica com detalhe que esta é a “religião que pode se conciliar com todos os cultos, quer dizer, com todas as maneiras de adorar a Deus.” E conclui recuperando a sua ideia original: “É o laço que deve unir todos os espíritas em uma santa comunhão de pensamentos, à espera que una todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.

” O espiritismo não é uma religião, mas como se torna evidente, quer os seus princípios doutrinários quer as leis morais, são religião na doutrina espírita. De tudo o que aqui foi analisado se conclui que negar a presença da Religião no Espiritismo, é amputar este de algo que o constitui. Seria desvirtuar a doutrina. Talvez fortalecê-la enquanto ciência, porventura adorná-la enquanto filosofia, mas inevitavelmente torná-la em algo que deixava de ser Espiritismo.

Fazê-lo aliás, seria indiciador de olvidar a riqueza do raciocínio de Kardec e desvalorizar um conjunto de revelações que a espiritualidade nos vem deixando, sempre com o cuidado de se sujeitar ao rigor do método deixado pelo próprio Allan Kardec. Tal erro seria repetir um outro que condenou a Humanidade ao período das trevas, quando propôs que Ciência e Religião fossem apartadas. O Espiritismo não veio para as separar, mas para as unir.

E a insistência em tal erro pode mesmo ser o comprometimento do futuro do próprio Espiritismo. Por isto é importante o debate. Texto: Hugo Guinote JULHO.AGOSTO 2013 Espiritismoereligião: duasversões umaverdade através da Lei de Causa e Efeito, com um objectivo puramente pedagógico e de aperfeiçoamento espiritual, Deus vincula a nossas atitudes e comportamentos às suas consequências, consequências muitas vezes geradoras de sofrimento ao longo de muitas vidas se não soubermos identificar as causas, corrigi-las e repará-las.

Assim, o mal nasce das vicissitudes do comportamento humano, do uso perverso da liberdade, das máculas que a sua alma ainda não conseguiu superar, das escolhas feitas em nome da preguiça, da vaidade, do medo e do apego. Oscar Wilde foi um génio intelectual e literário de uma sensibilidade fora do comum que a sociedade vitoriana do final do século XIX humilhou e destruiu. Doente e deprimido, passou os seus últimos dias em Paris na miséria, abandonado pela família, pelos amigos e pelos admiradores.

A causa deste sofrimento foi sobretudo o preconceito dos homens, daí a sua desilusão! Mas é reconfortante perceber que, pouco mais de um século depois, Oscar Wilde teria sido tratado de maneira diferente. Em cem anos, mesmo à custa de muito ódio e sofrimento, a humanidade elevou-se acima de muitas das suas ideias intolerantes e discriminatórias, tornando-se mais humana. Diante de algumas injustiças é fácil encontrarmos conforto na desilusão.

Às vezes as injustiças parecem tão grandes que chegamos a colocar tudo em causa e desiludimo-nos com a própria humanidade. Mas sendo um prodigioso produto criativo da Inteligência Suprema, o ser humano pode errar muitas vezes mas dispõe desta capacidade extraordinária de se transcender e aperfeiçoar continuamente, desenvolvendo e fazendo prosperar a potência divina que lhe ilumina a existência. É por isso muito mais do que uma esperança, é uma convicção firme, de que daqui a cem anos, as imagens que a SICnotícias hoje revela de forma tão dramática, serão apenas a triste lembrança de tempos em que o homem era mais ignorante, egoísta e indiferente.

De tempos em que o Homem era muito menos humano.