Opinião (pág. 13)
Jornal de Espiritismo nº 59 · Julho 2013Página 135 min
Combalido pela extrema violência e dura realidade do que me era mostrado, a conclusão veio na forma retumbante de uma frase do brilhante poeta e dramaturgo Irlandês Oscar Wilde, sobre uma tela enlutada de desilusão: “Ao criar o Homem, Deus sobrestimou a sua capacidade.” Perturbou-me não tanto o simplismo desta visão divina mas sobretudo o pessimismo no potencial humano. Responsabilizar de alguma forma Deus pela ignorância e pela crueldade do homem é um equívoco que não é de hoje.
No século XIII, reinou em Leão e Castela, D. Afonso X, conhecido pelo cognome “El Sábio”. Afonso, avô do rei português D. Dinis, para além de monarca e jurista, foi um distinto poeta, amante das artes, da natureza e das ciências astronómicas. Os historiadores consideram-no um dos mais notáveis reis de Castela e de Espanha, admirado pelo empenho demonstrado na área científica e cultural, apesar de alguns estudiosos o acusarem de ser mais habilidoso com as artes e ciências do que propriamente com os problemas políticos do reino.
O palácio real, em Toledo, assemelhava-se a uma oficina escola, uma academia de artes e ciências astronómicas frequentada por estudiosos árabes, cristãos e judeus, partilhando ideias, informações e teorias. No entanto, apesar das contribuições significativas para o desenvolvimento do reino, o povo de Castela desconfiava do seu rei. Conta a lenda que, o irreverente monarca, quando estudava Astronomia com os outros sábios, teria dito: “Se eu tivesse sido conselheiro de Deus no momento da criação, tinha-lhe dado valiosos conselhos!
”. Esta afirmação transformou-o num herege. Os problemas que enfrentou ao nível político e familiar, sendo derrotado pelo seu filho Sancho numa guerra civil e acabando os seus dias, proscrito e abandonado, no palácio real de Sevilha, foram considerados como um castigo divino pela ousadia e pretensão de pensar que poderia fazer melhor do que Deus. Tomada por blasfémia no século XIII, hoje percebe-se o desabafo de Afonso como um grito de inconformismo em relação às trôpegas explicações que então eram dadas para os fenómenos físicos e naturais.
A astronomia reinante era a de Ptolomeu, confundida com a astrologia, acreditando-se que a Terra plana estava parada no centro do Universo e os corpos celestes que se conheciam orbitavam à sua volta através de uma estranha e complexa combinação de círculos, transportados em esferas de cristal; os fenómenos naturais eram praticamente todos explicados com recurso ao sobrenatural e a criação do mundo estimada ao ano de 6000 A.
C. depois de seis dias de intenso trabalho divino. O problema não estava na inteligência e no génio criativo de Deus mas na limitação do conhecimento humano. Com o avanço da ciência, o Homem foi descobrindo maravilhado a extraordinária magnificência e ordenação que compõem o Universo e a Vida. Ao nível micro, compreendeu-se que a bioquímica de uma única célula é um mundo extraordinário de processos físicos e químicos regulados, que o funcionamento de um átomo é de uma tal complexidade tal que são necessários biliões e biliões de dólares, a mais avançada tecnologia e centenas de cientistas a trabalhar durante vários anos para tentar comprovar uma teoria sobre o seu funcionamento; ao nível macro, a ordem e a elegância do mecanismo de funcionamento do Cosmos é algo que intriga o mais céptico dos estudiosos.
Míopes pelo tanto que ainda desconhecemos e racionalmente incapazes de repetirmos a frase de Afonso em relação aos processos físicos e orgânicos, tal como Oscar Wilde e a SICnotícias, ainda se procura responsabilizar Deus pelo sofrimento e pelas misérias que se encontram à nossa volta. Isto é o mesmo que afirmar que se nos fosse possível criar o mundo não o faríamos com tantas debilidades sociais e humanas. Se Afonso estava limitado pelo conhecimento da época, não estaremos nós cingidos por uma visão restrita sobre Deus, a vida e sobre a própria natureza humana?
A maldade é humana, não foi Deus que a criou. Atos da mais ardente barbárie têm como causa o orgulho e o despotismo, não a vontade ou a inabilidade de Deus. Já dispondo de potencialidades intelectuais e morais para se recriar a si próprio, para desenvolver o seu mundo e orientar a sua vida de uma forma ética e sustentável, a centelha divina que em nós vibra está pronta para novos desafios: Elevar-se acima da ignorância e da natureza animal, partilhar a atividade criativa de Deus e tornar a sua vida o mais significativa possível para si e para os outros.
E isto só pode ser alcançado se o homem tiver a plena liberdade para escolher de acordo com a sua vontade. Obviamente que a liberdade para escolher significa que tanto podemos escolher bem como escolher mal, porque se apenas fosse possível ao Homem escolher o bem, não seríamos verdadeiramente livres mas marionetas da vontade de Deus. Aprendizes na estrada da vida, sermos Humanos é seguir um trilho que nos eleve acima dos nossos instintos, escolhendo livremente entre o bem e o mal, adquirindo com essa experiência, sabedoria e moralidade.
Se escolhermos ser egoístas e gananciosos, Deus não nos irá impedir de o sermos; Se optarmos pela violência e crueldade, ele não irá proibir que a nossa mão execute as intenções perversas da nossa mente; Deus não nos impede de sermos déspotas, autoritários ou insensíveis; Mas foto arquivo O medo e o talento escondido Todos carregamos medos. Uns mais silenciosos outros mais perturbadores, dentro de nós convivem os mais diversos receios sobre ameaças reais ou imaginárias que a concretizarem-se nos provocariam sofrimento.
JULHO.AGOSTO 2013 ro será ferido”. O Messias que repudiou mágoas, vingança, também referiu a harmonia cósmica sem favores nem perdões, que uma vez lesada pede reparação “até ao último ceitil” (Mat 5: 18, 26). Sendo causa e efeito proporcionais entre si, “expiar até ao último ceitil” significará repor cada um integralmente a harmonia que ofendeu, por expiação depuradora ou ação enobrecedora do Amor. Causar cegueira deliberadamente, por exemplo, move contra o ofensor a mecânica exata das leis do Universo, que o levarão também à cegueira (princípio de “karma”, no Oriente).
Todavia, não necessariamente: se ele, arrependido, labutar generoso em prevenção e assistência à cegueira, ou em benévolas atividades similares, o AMOR que assim exercer “apaga uma multidão de pecados” (Lucas 7:47; 1ª Pedro 4:8); isto é: a energia “positiva” agora acionada, extingue a de sinal contrário que antes desencadeara. A noção eclesiástica de inferno (Deus “odiar” eternamente os condenados) não tem suporte lógico nem teológico.
Tamanha desproporção entre pena e infracções afronta o Deus-Amor da boa nova messiânica, inacessível a ódio ou sequer indiferença pelas criaturas: AMA-AS necessária e eternamente, não acidentalmente por variações de humor.
