opinião Deus: o criador incriado Antes de começar a dissertar acerca d
Jornal de Espiritismo nº 6 · 2004Página 119 min
Antes de começar a dissertar acerca do tema em questão, queremos sublinhar o respeito que o Espiritismo tem para com as inúmeras religiões que existem no mundo, pois os postulados espíritas recomendam a liberdade de pensamento.
O Espiritismo recomenda o amor entre as criaturas, independentemente da crença religiosa. Jamais afirmou que é o dono da verdade, jamais se colocou acima de qualquer religiãoenão admite, em hipótese alguma, o julgamento da crença alheia. Muitas vezes, por erro humano, confunde-se a excelsa perfeição dos postulados da Lei do Amor, olvidando-se que o ser humano está muito longe da perfeição dos espíritos puros. E mesmo aquelas pessoas que afirmam não acreditar em Deus tem o seu tempo para reflectir acerca da Verdade.
Como costuma dizer uma uerida companheira da nossa instituição: “Toda a ?rufa tem o seu tempo para amadurecer!”, Vale lembrar que acreditar por acreditar não é o suficiente. Costumamos dizer que já não acreditamos, temos a certeza. Acreditar é ter fé que exista, ter a certeza é basear a fé em provas concretas que nos confirmam a existência. Nada mais do que Kardec tinha aconselhado: “ Fé inabalável é somente aquela que encara a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade.
” E necessário pesquisar, procurar a instrução no Conhecimento Cósmico para que a Fé seja fortaleza e não casebre desabrigado à forte tempestade. Reconhecemos que se determinada pessoa está feliz no Catolicismo, no Protestantismo, no Judaísmo ou Ãualquer outro ismo, deve continuar ao serviço do Amor e da Paz conforme a sua crença. Todas as religiões, doutrinas ou filosofias são boas, desde que processem uma transformação do homem para melhor.
Anotamos inúmeros pontos positivos que o religiosismo tradicional possui. No entanto existem pontos equivocados nos diversos segmentos, totalmente contrários à lógica, ao bom senso e à razão. A concepção de Deus, por exemplo, é um ponto em que a coerência choca com o que tem sido ensinado no decorrer de milénios. Por exemplo: As escrituras antigas afirmam que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, entretanto, o homem, na sua ignorância e vaidade, começou a inverter as coisas e achar que Deus é quem é semelhante a ele, inclusive possuindo as Suas paixões e as suas imperfeições variadas.
Criouse um ser de barbas brancas, sentado num trono a controlar o que se passava no planeta. O homem chega a admitir e pregar Deus como violento, cruel, sanguinário, vingativo, vaidoso, mesquinho, irresponsável, inconsequente, machista ao extremo, apreciador de bajuladores, temperamental, de veneta e discriminador. No entanto sabemos que Deus é incomparavelmente superior ao melhor homem quíjá pisou na face da Terra, que, como nos avisam os Espíritos Superiores, n'O Livro dos Espíritos na questão 625, foi Jesus.
Apetece referir a sábia palestra ãe Voltaire na Loja Maçónica Nove Irmãs, em Paris, ao receber o Grau 33: “Eu não creio no Deus que os homens fizeram, mas creio no Deus que fez os homens”. Deus é, por isso, soberanamente Bom, Misericordioso e Jjusto em todos os momentos e em todas as situações. Jamais castiga os seus filhos, pois, a Sua Justiça é praticada de forma totalmente diferente daquilo que o homem está acostumado a ver: É o próprio ser que errou que escolhe a sua sentença, em consciência e através da reencarnação expia esses erros, caminhando rumo à perfeição.
Existe algum sistema jurídico no nosso planeta mais justo que este? E podemos perguntar-nos: “Mas se sou eu a escolher o meu caminho, vou pedir sempre o luxo, o desafogo, a felicidade, a harmonia, etc., etc.!!” Mas destes valores alguns são transitórios e outros apenas se adquirem com dor e mérito próprio, sendo que o tempo escasseia neste planeta. Teremos outros mundos para evoluir e o Pai oferece-nos a Eternidade como bênção para que a trabalhemos na direcção que o Mestre nos indicou: “Sede pois perfeitos como perfeito é o Pai dos Céus”.
Não criou o trabalho como um castigo para os homens e sim como uma bênção sendo uma das Leis Naturais, tal como Ele não pára de trabalhar e de criar. Também é comum ouvirmos nos círculos em que nos cruzamos a questão: “Quem é Deus?”, o que Kardec observou estar errado pois Deus não é uma pessoa e sim tudo o que existe. Então, sabiamente, questionou os espíritos: “Que é Deus?”, questão muito mais racional.
porque o homem é espírito, parte divina do Pai Universal. Todos os seres fazem parte desta Centelha Divina desde a criação. A forma como Deus criou o Homem, outro objecto de polémica, numa óptica observadora, coerente e rTacional, está muito além da estória infantil de Adão e Eva e que continuam a passar às pessoas como se elas todas fossem preguiçosas quanto a capacidade de raciocínio. Como poderiam existir enas dois seres criados por Deus, terem dois filhos e depois um desses filhos fugir e encontrar uma mulher noutro local?
A história da raça adâmica reporta-nos para o senso comum dos anjos caídos. Na Revue Spirite de Março de 1860 encontramos o seguinte trecho de Allan Kardec: “(...) diz a Bíblia que o mundo foi criado em seis dias e fixa a data de cerca de 4000 anos antes da Era Cristã. Antes disso, a Terra não existia, fora tirada do nada. O texto é formal. E eis que a Ciência positiva, inexorável, vem provar o contrário. A formação do globo está escrita em caracteres imprescritíveis no mundo fóssil; e está provado que os seis dias da Criação são outros tantos períodos, talvez de várias centenas de anos cada um.
Isto não é um sistema, uma doutrina, uma opinião isolada: é um facto tão constante quanto o movimento da Terra, que a Teologia não pode deixar de admitir. Assim, só nas pequenas escolas é que se ensina que o mundo foi feito em seis vezes vinte e quatro horas, prova evidente do erro em que se pode cair, tomando ao pé da letra as expressões de uma linguagem frequentemente figurada. Teria sido a autoridade da Bíblia atingida, aos olhos dos teólogos?
Absolutamente. Eles se renderam à evidência e concluíram que o texto podia receber uma interpretação. Escavando os arquivos da Terra, a Ciência reconheceu a ordem na qual os diferentes seres vivos apareceram em sua superfície. A observação não deixa dúvidas, quanto às espécies orgânicas quíipertencem a cada período; e esta ordem está de acordo com o que é indicado no Génesis, com a diferença de que esta obra, em vez de ter saído miraculosamente das mãos de Deus em algumas horas, realizou-se, semKÍre por sua vontade, mas conforme as leis das forças da Natureza, em alguns milhões de anos.
Por isso será Deus menor e menos poderoso? Sua obra será menos sublime por não ter o prestígio da instantaneidade? Evidentemente não. Seria preciso fazer da Divindade uma ideia muito mesquinha, para não reconhecer sua omnipotência nas leis eternas por ela estabelecidas para reger os mundos.” Deus jamais mataria ninguém. Ele não seria inconsequente para criar os seus filhos e destruílos, de forma discriminada, fazendo-os apodrecer e desintegrar sem nenhuma razão.
O homem é um espírito eterno e não um corpo frágil e perecível. ACFerda do corpo que usamos não implica na perda da individualidade e do património existencial e experimental adquirido. O Espiritismo, baseado no bom senso, jamais admite Deus como um velho vaidoso e inútil que, em determinado dia do nosso calendário, discriminará um grupo de bajuladores para ficar ao Seu lado, sem ter o que fazer, na ociosidade absoluta, tocando harpa para toda a eternidade e outra parte num tal inferno, queimando também eternamente.
Sinceramente, não sabemos o que vai queimar no inferno, porque o corpo, que era a parte material da pessoa, já foi totalmente desintegrado com a morte. Quem conhece a composição química do fogo e das verdades evangélicas, sabe que fogo só queima a matéria, e que o espírito não arde senão no fogo proporcionado pela consciência atormentada. Deus deu-nos e continua a dar um mundo farto em recursos naturais que precisamos para o nosso aprendizado e a nossa sobrevivência.
O ar foi-nos entregue puro. Se o homem o polui é quem arca com as consequências e não pode alegar castigo algum da parte do Criador. Os rios e os mares também nos foram dados límpidos e sadios. Se nós os adulteramos, que arquemos com as consequências também. Se um fumador adquire um enfizema pulmonar que lhe causa sofrimento, tem sentido culpar Deus por possível castigo? É um absurdo!
coisas, sorvendo o prurido da inveja, é justo que acusemos Deus de nos castigar quando vêm até nós exactamente essas coisas com que tanto procuramos nos afinizar? , A Lei de Causa e Efeito é uma realidade! É a Lei Divina que está presente para sempre nas nossas vidas. Diz o povo sabiamente: “Quem semeia vento, colhe tempestades”, sublinhando o aviso do Rabonni: “Como fizeres, acharás!” Colhemos o que plantamos, sempre.
É preciso consciencializarmo-nos que Deus está em nós, que somos os únicos responsáveis pelos fardos e cruzes da nossa vida e parar de atribuir a responsabilidade pelas inúmeras asneiras que fazemos todos os dias, para castigos de Deus ou a tentações de Satanás, esse personagem que inventaram para atrapalhar e confundir a cabeça das pessoas. , Deus é Eterno, Imutável, Imaterial, Unico e Soberanamente Bom e Justo. E apesar de ser tão superior a nós, está muito perto de nós.
Basta que queiramos percebê-Lo. À pessoa, quando se aprofunda nos estudos espíritas, passa não apenas a crer em Deus, e sim a conhecer Deus, o que é muito mais importante, pois adquire fé raciocinada, incomparavelmente melhor que a fé cega. Vive muito mais feliz e tem consciência de onde veio, o que está a fazer aqui e para onde vai. Não interessa, no estado evolutivo que nos encontramos, saber qual a natureza íntima do Pai.
Se ainda nem a nossa conhecemos realmente. Mas interessa que o Criador viva em nós para podermos ser os co-criadores. Se olharmos às palavras de Sócrates, no conhece a ti mesmo, saberemos que transportamos aquilo que somos. Aliás, só podemos libertar-nos para sentir Deus quando mergulharmos nas profunzfezas do conhecimento de nós mesmos e da Verdade que Liberta. Tanto uma como a outra está dentro de nós em estado latente esperando a explosão da vontade e do livre-arbítrio.
Enumerar aqui os atributos da Divindade, tal como está na Codificação, não nos interessaria pois que para as sabermos basta consultá-los, prática que deve ser, se não diária, pelo menos semanal. E por muitos que nos esforcemos por explicar nunca vamos conseguir realmente, pelo mesmo motivo alegado pelos espíritos superiores: a nossa compreensão e linguagem é ainda limitada para a grandeza inatingível do Criador. É a Divindade, como está escrito, divide-se numa trindade em que concebemos três momentos.
No primeiro momento Deus é Inteligência que idealizou a concepção da Lei Perfeita e os Principio pelos quais se regeriam o Todo. Tal quaf o Arquitecto planetário, salvaguardando-se a cósmica distância, o Pai elaboraria toda a existência assente na Sua perfeição. No segundo momento, Deus é a Vontade Suprema, concretizadora de todo o Plano Divino. E num terceiro momento, Deus é a obra realizada, ou simplesmente tudo o que existe.
Se pensarmos desta forma temos descodificada a Santíssima Trindade do Catolicismo: Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai é o Verbo ou a Inteligência. O Filho é o ser concebido e o Espírito Santo a sua Concepção ou a concepção do Todo. As três pessoas da Trindade são iguais embora que apresentadas em momentos distintos. E assim se deu a Criação, nascida de dentro de Deus, por isso chamada de Filho, termo antropomórfico para que o entendimento da Verdade fosse acessível ao Homem.
E a partir da Criação, Deus continuou a obra, e embora fosse de maneira diferente, a Trindade é Eterna como o Pai, ois continuará a existir sob a forma de Força %irectora dos Universos num primeiro momento, Vontade Realizadora ( Até hoje o Pai cria sem descansoJesus), dando origem a novos sistemas e a Obra Ampliada, os infinitos sistemas criados noutros infinitos Universos. Assim se sintetiza a Divindade, segundo o entendimento humano.
está a grandeza do Pai!” Texto: Frederico HonórioAssociação Espírita Alvorada Nova Aveiro. Sugestões: frederico.honorioGnetvisao.pt * alvoradanova&iol.pt

