61 — índice de conteúdos

Tudo cessou quando sentiu uma brisa libertadora trazida por um olhar d

Jornal de Espiritismo nº 61 · Novembro 2013Página 163 min

Partilhar
Idioma

Tudo cessou quando sentiu uma brisa libertadora trazida por um olhar de bondade e harmonia. Jesus havia-o libertado. A mediunidade com ausência de disciplina é sempre promotora de desequilíbrio individual e desajuste social. Porém, não obstante a evidente necessidade de esclarecimento, nem todos o procuram, talvez porque ao fazê-lo frequentemente se tornam vítimas do preconceito colectivo. A libertação do obsidiado geraseno é um dos mais interessantes pela forma inequívoca como reporta: o fenómeno da subjugação, o diálogo entre encarnado e desencarnados, o magnetismo que proporciona a cura e, finalmente, a reflexão sobre o dilema da reforma íntima.

Analisemos alguns aspectos. Cumpre esclarecer que, consoante a versão, poderemos encontrar referências a gadarenos ou gerasenos. Note-se que Gerasa e Gadara são dois locais diferentes. Contradição? Não. Na tradução de Haroldo Dias, em qualquer dos evangelhos a localidade nunca é dada com rigor. Fala-se sempre na “região dos ...”, dando a entender referir-se ao local de residência e não de naturalidade. Também Amélia Rodrigues refere inicialmente ambos, mas depois precisa o local em Gadara (Dias Venturosos: 5), a norte de Gerasa, a aproximadamente 2 km do mar.

A tradição local assinala a localidade de Cursi como do episódio. Em Cursi a principal ocupação seria a criação de suínos, daí ser comum encontrarem-se extensas varas pelos campos. Entre os residentes, deambulava um homem profundamente obsidiado, que em função dos inúmeros espíritos que o subjugavam dava pelo nome de Legião. E tudo começara com a entrega a “jogos de prazer nos antros de perdição” (Primícias do Reino: 12).

Havia então abandonado a família que envergonhou e amargurou profundamente, passando a habitar entre porcos e sepulturas. A manifestação violenta da sua mediunidade forçava os residentes a amarrá-lo com correntes e cadeados. Foi entre Dezembro e Janeiro, entre os anos 31 e 32, que Jesus atravessou o mar da Galileia para se dirigir aquele grupo tão incrédulo quanto materialista. Legião, contudo, buscou o Mestre e sentiu em si a fúria dos espíritos que o obsidiavam, que perante a autoridade do Cristo eram forçados a abdicar do processo subjugatório.

Quando Legião tomou consciência da sua libertação, deu por si num túmulo dos que haviam sido escavados entre as encostas rochosas. Compreendeu que havia sobrevivido na mais completa selvajaria. Feridas e hematomas nos membros e a boca ensanguentada, eram indícios de disputas, quer com os animais dos bosques pelos restos dos alimentos, quer com os seus algozes espirituais que o perseguiam constantemente. Tudo cessou quando sentiu uma brisa libertadora trazida por um olhar de bondade e harmonia.

Jesus havia-o libertado. Transformado, quis permanecer junto dele, mas o Mestre não o permitiu. Os genesarenos haviam solicitado ao Messias que os abandonasse, para se precaverem de perder mais porcos. Preferiam isso a escutar a Boa Nova pelos lábios daquele galileu distinto. Não desistindo, Jesus deixou-lhes o novo Legião, como sinal da possibilidade de profunda transformação que, com a anuência de Deus, estava ao alcance mesmo dos mais perdidos.

A custo, o ex-obsidiado permaneceu, mas, ao contactar com os gadarenos, estes o receberam com insultos e pedradas. A inveja, o orgulho e o materialismo impediam-nos de lhe admirarem a mudança. O seu testemunho era selado com pequenas gotas de sangue. Legião abandonou então Cursi, atravessou o Mar da Galileia e permaneceu junto de Jesus, acompanhando-O incondicionalmente, até ao momento de sua crucificação, tornando-se num elemento permanente de Sua comitiva.

Mais um doente que se tornou são. Hugo Batista e Guinote Legião – o obsidiado que seguiu Jesus OPINIÃO NOVEMBRO.