Opinião (pág. 14)
Jornal de Espiritismo nº 62 · Maio 2014Página 143 min
Jesus de Nazaré, Príncipe da Paz e pedagogo incomparável, naquilo que fazia (no falar, agir, viver, morrer) tanto emanava doçura como sabedoria e solidez. No século passado, a moral do seu discurso não persuadia o renomado filósofo ateu sir Bertrand Russel (ensaio “Por Que Não Sou Cristão”, 1927). E por muita elevação que nós, cristãos, encontremos no aspecto moral da doutrina de Jesus, o Rabi nazareno sagrou-se como muito mais do que um moralista.
A sua vida irrepreensível, a profundeza ímpar do Seu magistério, testemunham a dimensão altíssima da sua inspiração; dessas culminâncias manava a energia do singular potencial comunicativo que impregnava o discurso do divino Amigo, tornando a sua moralidade muito mais do que “mores” (isto é: usos e costumes convencionados, sujeitos a mudar com o tempo, com o espaço, com as culturas humanas); pois tratava-se duma moral universal, permanente, suprassocial, de elevado teor místico (longe de conotar-se ao sentido negativo do termo misticismo).
Pelo discernir metafísico e vivência espiritual, acede-se a noções da docência de Jesus mais fecundas do que permitiria a simples reflexão moral. Dessa perspectiva, já nada se afigura piegas ou mercantil no enunciado da bem-aventurança em pauta, nem em qualquer ensinamento do Bom Pastor. Os misericordiosos alcançarão misericórdia, sim; porque a tónica da misericórdia (distinta de mero acto externo de doação) implica um estado harmonioso de exultação interior que em absoluto prescinde de prémios: ele próprio embebido no venturoso reino de Deus, sacia plenamente sem carecer de mais recompensas.
Sócrates, notável precursor do Cristianismo e do Espiritismo, ponderava que o melhor prémio duma boa acção é tê-la praticado. Quem não viva interiormente aquele júbilo e harmonia, por muito que aparente DAR não está a praticar uma “obra de misericórdia” nem a garantir alguma futura beatitude; pode mesmo estar a comprometer - -se em farisaica sementeira de calculismo, interesse, ostentação… com uma garantida colheita amarga e expiação “até ao último ceitil”.
Uma racionalidade cerebral, analítica, mecanicista (1), sempre válida na esfera da sua aplicação, medida por QI (1), só por si não lograria conduzir-nos aos tesouros de fé crística, a que o excelso Educador da humanidade veio dar-nos acesso. Numa escala de energias, aquela racionalidade situa-se bem abaixo do elemento místico recém-descoberto como “inteligência espiritual”, mensurável por QS (“quocient of spiritual inteligence”); mas, consciente ou não disso, pode ser superiormente inspirada por ele a assomos de “fé raciocinada”, capaz de encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade (cfr “Evangelho segundo o Espiritismo”, capítulos 1.
º e 19.º). Por João Xavier de Almeida A bem-aventurança “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”, parecerá a muitos uma moral de tique mercantil, uma negociata com o Ser Supremo: dar, para vir a receber; personalidades “fortes” poderiam também ver nela uma pieguice para encorajar o ser-se bonzinho. JANEIRO.FEVEREIRO 2014 Os misericordiosos alcançarão misericórdia, sim; porque a tónica da misericórdia implica um estado harmonioso de exultação interior que em absoluto prescinde de prémios O poder do pensamento criador Pensamento sobre o pensamento (Gabriela Junqueira Balassiano) Além desses bosques e montanhas, Meu pensamento se vai; Espalhando pelos céus planetários, O amor plantado em mim pelo Pai.
Além desses bosques e montanhas, Meu pensamento plana; E através de vontade fraterna, Transformo ódio em força que ama. Além desses bosques e montanhas, Meu pensamento transforma; Abraçando a humanidade, Com pureza e reforma. Meu pensamento cria, O seu pensamento também; Unamo-nos num só coração, E criemos somente o Bem.
