62 — índice de conteúdos

Opinião (pág. 13)

Jornal de Espiritismo nº 62 · Maio 2014Página 132 min

Partilhar
Idioma

Porque é que, quando parte da nossa mente nos injuria, não ouvimos a outra parte que nos pede um carinho para nós? O autoamor é a raiz da vida que escondemos nas terras do nosso ego, das nossas ações, pensamentos e emoções. A ausência e/ou abandono desta raiz é uma das origens de doenças, depressões e da nossa separação de Deus. O homem é sempre chamado a reencontrar-se com a sua natureza divina. Isso é mostrado no Evangelho com a história do paralítico de Bethzatha, uma representação do autoperdão e autoamor que devem orientar-nos na ativação da vontade.

No caso do paralítico, foi Jesus que ativou essa vontade no homem que se desapegou do seu sofrimento, dependência e paralisia (desmotivação) para uma vida plena. Este despertar para as realizações a nosso favor só acontece quando o espírito aprende com as experiências passadas, reconetando-se com Deus. A aprendizagem, ou pedagogia, nas palavras do sociólogo Durkheim, é a preparação racional das nossas escolhas. Levar a cama, como Jesus ordenou ao paralítico, é tomar para si a essência dessas escolhas, amando cada etapa da aprendizagem.

Daí a necessidade da reconexão com o amor de Deus, pois, tal como Jesus reencontrou o paralítico louvando o Criador no templo de Jerusalém, a nossa “saúde é a realização da conexão criatura-criador” . Mas há um único e soberano motivo para nos amarmos: somos uma manifestação de Deus. “Toma o teu catre e anda” Por vezes, a nossa mente sugere-nos motivos para não gostarmos de nós, para nos afundarmos em desalentos. Mas há um único e soberano motivo para nos amarmos: somos uma manifestação de Deus.

Muito à nossa volta leva-nos a um conhecimento impessoal do mundo que separa os valores, as ciências e os indivíduos. O filósofo e cientista Michael Polanyi mostrou que conhecer é uma arte que considera o envolvimento pessoal de quem conhece em todos os atos de compreensão. Esta consciência contraria o processo de idealização do ego que leva o indivíduo a desperdiçar as energias provenientes da centelha divina, construindo uma personalidade artificial que não atualiza as potencialidades divinas da alma.

Segundo Jung, os processos inconscientes que nos levam a repudiar o que somos têm um caráter compulsivo e só podem ser transformados pelo autoamor e (auto)conhecimento de nós enquanto consciência. Que consciência é esta? É o que ilumina todas as manifestações da mente, as várias formas de pensamento e o que nos religa a Deus. O pensamento é momentâneo e está associado ao ego, à ideia do «eu». A mente inclui pensamentos sobre objetos e sobre o nosso «eu» e ambos sofrem mudanças.

Estas mudanças só são reconhecidas por aquilo que não aparece nem desaparece, que não nasce nem morre, não se expande nem retrai, pelo que nunca vai ser tocado, visto nem sentido: a consciência. A nossa natureza enquanto consciência é iluminada por si mesma, é auto-evidente. Reconhecendo isto, percebemos que, enquanto Elevo os meus olhos para os montes O gato acorda das suas sestas e olha para mim, com intensidade e carinho, pedindo-me um mimo com o seu nariz frio – demorando-me um pouco nos olhos dele, pergunto-me: porque não somos capazes de olhar assim para nós?