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Mas chega sempre o tempo em que a fome espiritual faz o espírito rever

Jornal de Espiritismo nº 63 · Outubro 2014Página 166 min

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os seus hábitos, atitudes e buscas. Todos os invernos percorro as ruas da cidade só para admirar a beleza das cameleiras. Porém, por não ter olfato, não posso sentir-lhes o aroma. Esta limitação do meu corpo físico poderia ser motivo para deixar de gostar de camélias, mas não é. Nas mais diversas situações da nossa vida, quando nos confrontamos com alguma limitação nossa, dos outros ou do mundo temos de escolher entre rendermo-nos a essa limitação ou olhar para além dela.

Por isso, em todos os prazeres do mundo, as suas limitações devem ser questionadas. Quais são essas limitações? A primeira é ser impermanente. Existe um sofrimento inerente para se conquistar algo bom e um sofrimento inerente quando esse algo se perde. A segunda limitação é relativa ao tempo e à qualidade do que queremos usufruir. Nem sempre o que conquistamos preenche todas as projeções que o esforço criou. Parece que falta sempre mais alguma coisa.

A nossa mente só conhece a felicidade dessa forma limitada, efémera e, portanto, tem o hábito de correr para aquilo que já conhece, para o palpável. Todo o espírito encarnado na Terra goza da condição de filho pródigo. Cabe-nos escolher entre gastar essa herança com a consciência da presença divina em nós ou os prazeres que serão sempre limitados e que, por vezes, nos afundam em conflitos existenciais. O desejo pelo mundo não nos muda, pois, tal como disse Jesus, a felicidade não é deste mundo.

Mas chega sempre o tempo em que a fome espiritual faz o espírito rever os seus hábitos, atitudes e buscas. Nesse momento, os nossos gostos e aversões já não têm tanto interesse. O que sobra, então? Discernimento, desapego e auto- conhecimento. Quando estes se tornam firmes, o desejo de si e por Deus torna-se mais forte do que tudo o resto. Percebemos que as limitações e dificuldades que fomos plantando no nosso caminho (rebeldia, orgulho, caprichos, angústias, etc.)

são apenas a negação do bem. Quando reconhecemos este desejo por retornar à casa do Pai, já não o podemos ignorar mais. Aliás, que este desejo surja em nós é a maior bênção que podemos ter enquanto espíritos encarnados. No início, esse desejo fundamental é frágil como uma planta a crescer. Para isso nos alerta Jesus quando diz: “quem não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas, XIV, 28-33). Sem o nosso cuidado, esse desejo é invadido pelos outros desejos e conceitos equivocados (ex: o conceito de “meu”).

Só a pessoa com esse desejo fundamental e ardente pode entender-se como espírito e filho (pródigo) de Deus. Por isso, é importante que a mente seja mantida intensamente em Deus, na visão objetiva de nós enquanto espíritos e olhando o mundo com as lentes do conhecimento das leis divinas. A neurociência explica que revivemos um acontecimento sempre que o recordamos. A memória não é um arquivo paralisado, mas sim um circuito neuronal que responde ao impulso da mente, reproduzindo as produções neuroquímicas do evento original.

O compromisso connosco mesmos e com o desejo da felicidade em Deus é a única forma de eliminarmos o cansaço espiritual que, segundo Ermance Dufaux, pela psicografia de Wanderley Oliveira, resulta de erros e vivências estéreis do passado. O nosso desafio atual não é só com a prática do bem, mas sim o compromisso definido e definitivo com o bem enquanto caminho de paz para as nossas consciências. Porque se aceitar calmamente o facto de não sentir o aroma das camélias, posso amá-las com a alegria que nos dá o amor imanente de Deus a sustentar-nos a vida.

Texto: Filipa Ribeiro O desejo fundamental OPINIÃO O mais importante é cada um fazer o melhor que conseguir na observação, respeito e reverência pelas leis de Deus. MARÇO.ABRIL.2014 foto jorge gomes E se o Espírito de uma adolescente de 13 anos nos pudesse contar a sua história funesta a partir de uma perspetiva mais ampla da realidade? Como seria? De que forma sentiria ela o desespero da sua família? Como reagiria à confrontação das suas emoções perturbadoras?

Que turbilhão emocional seria gerado pela impotência em se agarrar àquilo que ainda julgaria como “a vida”? Como se relacionaria com o ambiente espiritual à sua volta? Como seria esse ambiente espiritual? Quais os sentimentos que a dominariam ao pensar no seu carrasco? Estas são algumas das reflexões que o filme “Visto do Céu” procura levantar a partir de uma narrativa na primeira pessoa da adolescente Julie Salmon, vítima de um crime brutal no solitário regresso da escola, num dia em que até se sentia particularmente feliz.

Realizado por Peter Jackson – mais conhecido por mega- produções como “O Senhor do Anéis”, “O Hobbit” e “King Kong” – contando ainda com o envolvimento na produção de Steven Spieldberg, esta é uma adaptação ao cinema do romance “Lovely Bones” da escritora Alice Sebold, que em 2002 esteve durante várias semanas no topo dos livros mais vendidos nos Estados Unidos da América. Trata-se de um filme de cariz espiritualista com uma forte carga dramática, procurando não apenas descrever uma perspectiva espiritual da vida mas combiná-la com o retrato da dor que trespassa a protagonista e uma família em lágrimas.

Visto de Céu é um filme emocionalmente intenso, com cenas de uma envolvência dramática exigente e em que o realizador se mostra pouco preocupado com o conforto do espectador, sendo muitas vezes quase possível tocar e sentir a angústia, o sofrimento e a dolorosa expectativa das personagens. Mesmo não tendo cenas de violência gratuita, é desaconselhado o seu visionamento por crianças. Não sendo um filme Espírita, existem alguns pontos muito interessantes que merecem uma reflexão à luz do Espiritismo.

O mais evidente é o da influência quase simbiótica que se estabelece entre a filha desencarnada e o seu pai. Ao sentir que uma vida cheia de sonhos, fantasias e projectos por concretizar foi interrompida de uma forma tão precoce, a menina não consegue suster a revolta e frustração que a dominam, alimentando o rancor e os desejos de se vingar do seu agressor. Vulnerável por estas emoções corrosivas, incapaz de se desligar de tudo o que havia deixado, encontra no pai o elo mais vulnerável à manifestação dos seus sentimentos, criando com ele uma intensa simbiose emocional.

Estabelece-se desta forma o início de um mecanismo obsessivo entre filha e pai, mais comum do que se pensa, com prejuízo emocional e espiritual para ambos. A filha, alimentada pela raiva mas também pelo conforto que a proximidade do pai lhe oferece, não se consegue libertar para a plenitude espiritual permanecendo agarrada às sensações mais físicas; o pai, não bastando ter de enfrentar um processo de luto tão doloroso, acumula sentimentos de ódio que o afundam cada vez mais no desequilíbrio e na mais amarga perturbação.

A morte, ou a separação física daqueles que amamos, é muito dolorosa. Mas se o luto é um processo necessário para preencher o vazio que qualquer perda origina, é imprescindível não permitirmos que a dor se transforme num sofrimento sufocante que prejudica não apenas quem fica mais também quem parte. Para isso, é preciso colocar a morte no seu devido lugar, interiorizando que ela é apenas uma aparência. Obviamente que as lembranças são inevitáveis mas é imprescindível prosseguir com a vida confiante no reencontro, transformando a saudade numa eterna lembrança, trocando o desespero pela confiança, os lamentos obsessivos por manifestações de carinho, formas sublimes de comunicação, de oração.

Julie Salmon percebeu esta realidade ao sentir-se uma prisioneira. E já não era o seu carrasco quem subjugava a sua liberdade. Julie encontrava-se refém da sua raiva, do desejo de vingança e da desilusão de não poder perseguir os seus sonhos da forma como tinha idealizado. A compreensão do seu equívoco foi a chave mestra que a libertou do seu cárcere, sentindo gratidão pelo que a vida lhe tinha proporcionado e abrindo o seu coração para o muito que ainda teria para lhe oferecer.

Então, pôde finalmente abraçar o mundo. Título Original: “The Lovely Bones” Realizado por Peter Jackson EUA/NZ/GB, 2009 - 135 min.