Opinião (pág. 13)
Jornal de Espiritismo nº 63 · Outubro 2014Página 136 min
ual MARÇO.ABRIL.2014 pois independente, foi mais recentemente o haitiano Joel Goldsmith (1892-1964), cujos livros e cartas (traduzidos para Português pelo prof. Huberto Rodhen) atraíam pela singeleza e limpidez do discurso sobre o transcendente, tão “misterioso “ para profanos; leitores seus espalharam grupos de estudo pelos Estados Unidos. Entretanto, sob várias denominações religiosas crescia o movimento pentecostalista.
Comum a todas, era a busca dum cristianismo genuíno, com o desaparecido elemento de cura que a Sra. Eddy notoriamente recuperara e disseminara. O movimento inclui núcleos católicos de “renovação carismática”; uma das suas grandes figuras é o recém-falecido padre Emiliano Tardif, canadiano: sucediam muitas curas durante as missas que celebrava, em inúmeros países que solicitavam a sua visita. O padre Tardif, já ordenado, aderira aos grupos carismáticos depois da sua cura repentina de grave tuberculose pulmonar.
Caso notabilíssimo de cura espiritual muito bem documentada, foi em 2009 o do neurocirurgião americano Dr. Eben Alexander, meticulosamente narrado no seu livro Uma Prova do Céu (ed. Lua de Papel). Notável como espantosa ocorrência médica (recuperação total após meningite aguda de tipo raro, coma profundo e sete dias de morte cerebral), e notável por o protagonista, narrador convicto e convincente, ser professor de neurociências.
Sabe-se como a intensa formação materialista newtoniana dos neurocientistas tende a fazê-los encarar toda a fisiologia do cérebro como bio-reacções e interacções neuronais. O dr. Alexander, além da narração metódica e minuciosa, mobiliza o seu conhecimento de química, biologia, física quântica, para demonstrar que a experiência de consciência espiritual por si vivida, extremamente lúcida e real, foi alheia de todo a elaborações do seu cérebro: este achava-se totalmente inibido pelo coma e pela doença, com espessa camada de pus refractária aos potentes antibióticos ministrados.
Vai mais longe o autor: sempre baseado em dados científicos e na assombrosa experiência fora do corpo, discorrendo com fluência abeira-se da ansiada “teoria de tudo” (de formulação tão procurada desde Einstein, com o seu admirável sentido de cosmo-unidade), e do monismo idealista, espiritual, de Ubaldi (A Grande Síntese, 1937), mesmo sem usar estes termos. O dr. Alexander arreda totalmente algo que antes nem questionava: o monismo materialista, que faz a maioria dos neurocientistas terem a matéria por ponto de partida para formação do Universo, e o espírito como simples elaboração biológica do cérebro.
Eben Alexander demonstra a impotência de tal sistema para explicar a consciência viva e real por si experienciada fora do corpo. Tentemos abordar a cura espiritual, com Kardec e com a fonte óbvia do Evangelho, que alguns companheiros nossos incrivelmente subestimam. (Estranhamente, parecem não vislumbrar a perene actualidade e cosmicidade do seu teor; talvez os desencante o marca-passo e leveza com que por vezes retinimos a forma literal e literária dos textos sagrados, sem lhes roçarmos a profundeza que certamente perfumaria todo o nosso agir.
Mas sejamos gratos por todas as excepções que felizmente nos edificam, estimulam, e em verdade catalisam o progresso geral). Prossigamos: A verdade que liberta e faz prodígios não é dada a ninguém, mas adquirida por cada um em perseverante conquista pessoal Falando à multidão, afirmou Jesus: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8: 31, 32).
Ponderemos o que é a verdade, e do que pode ela libertar. Certamente o Mestre não se referia a “verdades” comezinhas do mundo: relativas, contingentes, parcelares, que de nada libertam (como: um mais um igual a dois, a esfericidade da Terra, o peso ou o volume exacto disto ou daquilo, etc.) Falava, sim, da verdade total e imutável do SER, a verdade ontológica de cada ser e de todos eles, dele próprio, “caminho, verdade e vida” (João 14:6), não como o cidadão Jesus nazareno mas enquanto Cristo de Deus.
Noutro passo, exorta (Mateus 6:33): “Não vos preocupeis… Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e tudo mais se vos dará por acréscimo”. O Rabi demonstrou repetidamente o que ensinava: conhecedor da Verdade (portanto, livre de sujeição a leis a ele subalternas) e cumpridor impecável do reino de Deus e Seus mandamentos, sem possuir bens materiais tinha poder para obter o que desejasse, para si ou para as multidões: pagar ao cobrador de impostos o tributo de Pedro e o seu, curar enfermos, saciar famintos, etc.
Não colhe alegarmos que Jesus era Jesus, e nós nem sombra disso; o próprio Bom Pastor enfatizou: “Aquele que acredita em mim fará também as obras que eu faço, e fará obras maiores do que estas…” (João 14:12). O tempo e a história humana têm-no confirmado amplamente, e na Revue Spirite Kardec relata vários casos de cura instantânea, por exemplo nos números de Outubro, Novembro e Dezembro 1866, Outubro e Novembro de 1867, etc.
A propósito de História, é digna de menção neste subtema do Congresso uma obra de singular interesse para o sentimento lusitano: “ISABEL a mulher que reinou com o coração” (Edição Vinha de Luz, 2012, MG Brasil). A historiadora Maria José Cunha, compatriota nossa, estudiosa há muito das vidas de Isabel, expõe o registo notarial da época, de curas espirituais pela Rainha Santa, e analisa a mediunidade desta. Trabalho de feição kardeciana, alia com propriedade fé e razão: à clássica metodologia científica da obra, acrescem frutuosamente critérios, digamos, espirituais.
Esse tipo de critérios, no último século e meio adoptado individualmente por numerosos cientistas, tarda em ser acolhido pela emproada ortodoxia académica newtoniana, materialista. Mera questão de tempo, pois firma-se pouco a pouco o já chamado paradigma einsteiniano, de que Allan Kardec foi precursor, com o conceito luminoso de fé raciocinada. A verdade que liberta e faz prodígios não é dada a ninguém, mas adquirida por cada um em perseverante conquista pessoal; o próprio Modelo e Guia da humanidade não poderia oferecê-la, mas, para todos, indicou pistas seguras que já percorreu, e convida-nos amorosamente à ditosa paz de as seguirmos.
É objectivo hoje mais fácil de entender, com o progresso das ciências, que de tantos modos vão constatando o imenso potencial terapêutico da fé e da espiritualidade. De entre muitos psicoterapeutas, menciono Waine Dyer, docente de psicologia (Universidade St. John, Nova York), autor de livros traduzidos em muitas línguas; em “Dez Segredos para o Sucesso e Paz Interior” (Ed. Pergaminho, 2004), o capítulo “Valorize a sua divindade” explana a nossa unidade com Deus e menciona o conhecidíssimo guru indiano Satya Sai Baba (falecido em 2012), portador duma mensagem de elevada espiritualidade, obreiro de grandes prodígios em público.
Narra Waine Dyer que um jornalista ocidental perguntou ao guru: “Você é Deus?”; ele respondeu serenamente: “Sim, sou Deus”. Com a assistência muda, perplexa, após uma pausa continuou Sai Baba: “Vocês também são; única diferença é eu saber, sentir isso, e vocês duvidarem; quando compreenderem o que são, poderão fazer tudo que eu faço”. Vi uma vez na televisão uma reportagem sobre curas de Sai Baba, presenciais e à distância, apresentando-o a materializar alimentos para um devoto e, para outro, um medalhão de metal que parecia ouro.
Pena não dedicarem tempo de antena à sua mensagem espiritual, só diferente da de Jesus no estilo e na expressão. O Rabi ensinava há dois mil anos: “Vós sois deuses” (João 10:34), e na última ceia orou para que tivéssemos consciência da nossa unidade com o Pai, como Ele próprio já tinha (João 17:22). Entre cura espiritual e cura mediúnica, nem sempre é fácil distinguir. Longe de ser autoridade na matéria, apenas proponho a questão, e conjecturo sem pretensão de fazer doutrina, obviamente submisso a eventual correcção mais analítica.
O próprio Codificador parece - -me admitir a aptidão de cura espiritual como, de algum modo, uma forma de mediunidade, dando-a como passível de desenvolvimento. Quanto às curas de Jesus, parecendo-me claramente espirituais, não lhes são estranhas as mediunidades de vidência, clariaudiência, e porventura outras, se considerarmos Jesus como medium, em termos da definição formal kardeciana. A pasmosa cura do neurocirurgião americano afigura-se - -me nitidamente espiritual; também as efectuadas pelos sanadores cientistas cristãos (sem excluir eventuais casos de interferência mediúnica, mesmo ignorada), e ainda as curas nos meios religiosos pentecostalistas, com a mesma ressalva.
Também espirituais, com igual ressalva, me parecem as curas efectuadas por psicoterapeutas diplomados (alguns, duma primorosa espiritualidade; sem professarem religiões instituídas, indiciam apurado sentido da profundeza delas, oculta em formulações míticas e dogmáticas: por exemplo o citado Wayne Dyer, ou Eckhart Tolle. Helen Schucman e William Thetford, professores de psicologia médica na Universidade de Colúmbia, Nova York, publicaram em 1975 “Um Curso em Milagres”, livro inspirado que se popularizou nos Estados Unidos como “nova Bíblia”; a resumir-se a sua ampla temática numa só palavra, esta seria PERDÃO).
