Sociedade
Jornal de Espiritismo nº 63 · Outubro 2014Página 115 min
dia para se alimentarem e muito tempo livre de sobra. Espertos, têm uma mente inquieta. Resultado: frequentes tumultos sociais e psicológicos – afinal, algo muito parecido connosco, os humanos. Estes bandos de primatas podem alcançar uma centena de membros, com poderosos machos dominantes, normalmente mais agressivos, a alcançarem regalias tais como comida mais fácil e fêmeas acessíveis e abundantes. Ah! E lacaios também.
Imagine o leitor que caldinho de stress que salpica dali para fora. O cientista, através de análises de sangue de numerosos indivíduos do bando, percebeu uma relação invariável: os babuínos nos patamares inferiores da escala hierárquica do grupo tinham níveis altos de hormonas de stress . Somavam a essa peculiaridade um ritmo cardíaco mais acelerado e uma pressão sanguínea maior, bem com um sistema reprodutor a soçobrar.
Diz o investigador que durante a pesquisa houve uma alteração das chefias. Tudo porque, do lixo de um aldeamento turístico nas imediações do território dos babuínos, uma boa parte deles se alimentou de carne contaminada com tuberculose. A maior parte dos indivíduos mais agressivos e detentores de escassos laços sociais morreu. Machos do grupo, de hierarquia mais baixa, ascenderam na pirâmide social, mas curiosamente não transportaram para o seu comportamento a agressividade que caracterizava os chefes depostos pela doença.
Esta nova chefia dispunha a partir daí do dobro de fêmeas e as relações sociais que estabeleciam acabavam por criar mais laços solidários, socializavam. Isso transformou muito a atmosfera interior do bando. Mesmo quando babuínos adolescentes que tinham abandonado o seu grupo e dispersavam passando a integrar este bando, quando ali chegavam em meio ano percebiam que nesta nova ordem não se cultivava a agressividade como era habitual – aprenderam assim a passar mais tempo a catar-se uns aos outros e a criar laços sociais de proximidade.
Estes machos mostram ser mais calmos entre si, não hostilizam as fêmeas por um mero rasgo de mau humor, disse o cientista, adiantando que, duas décadas depois, ainda continuam assim. Bem, o que podemos nós, humanos, aprender com isso? Na verdade, para os mais observadores não será necessária a experiência citada se conversarem com alguém conhecido que tenha passado por algo idêntico. Recordo que um amigo, também estudioso do espiritismo, partilhou comigo uma história verídica ocorrida na altura em que andou no serviço militar obrigatório.
Contou ele que a dada altura, finda a recruta, foi colocado num quartel da Póvoa e assim que chegou teve uns poucos de dias para receber tarefas de administração de quem estava a terminar o serviço obrigatório. Disse ele que era tanta gente que ficava a seu cargo que demorou um par de semanas a identificá-los. O curioso nisto é que a chefia que vinha substituir era de gancho, autoritária, e ele, que punha em primeiro lugar o respeito humano e a gentileza, nos seus 20 e poucos anos não pensava muito nos efeitos das suas opções.
Para abreviar, até aqueles mais refilões, passado um par de meses quase lhe vinham “comer à mão”, como se costuma dizer. O capitão, comandante de companhia, por vezes perguntava: «Não acha que lhes está a dar licenças a mais?». Dizia: «Não, está tudo controlado, o serviço não fica prejudicado». A verdade é que a confiança explicada, o simples sorriso quando se tratava do serviço, a bonomia perante um pedido de licença depressa cativou até os mais revoltados.
E havia gente revoltada ali! Pais com filhos recém-nascidos, que tinham um ordenado normal, viram-se obrigados a aceitar um salário esquelético durante ano e meio… O mundo atual A vénia à competição desenfreada que se observa um pouco por todo o lado na história da humanidade contrasta com as épocas em que surgem os impulsos de humanismo. Nesta fase, na nossa região, quem serve Mamon, que no evangelho simboliza o culto do ouro, cria condições para subalternizar as qualidades solidárias do ser humano.
O dia-a-dia revela tornar-se uma procura incessante de resultados exteriores – estão criadas as condições para que o stress se configure como um fosso em que cada cidadão invariavelmente vai caindo. Como agir? Reagir não é bom, pois as repostas automáticas, tendo em vista a economia de recursos, tornam-se simplistas e ostentam a médio prazo uma incapacidade difícil de sustentar. Mas agir pode trazer bons resultados, se não atirar a toalha a chão nos primeiros passos da caminhada.
Uma ajuda inicial poderá vir da definição de áreas dinâmicas de influência – quem manda no nosso mundo interior? Teremos de dar respostas automáticas e incontornáveis aos cenários em que movimentamos a nossa evolução pessoal, naturalmente de natureza interior? Espíritos sábios Em «O Livro dos Espíritos» na pergunta 486, Allan Kardec indaga: «Os Espíritos interessam-se pelos nossos infortúnios e pela nossa prosperidade?
Os que nos querem bem afligem-se pelos males que experimentamos na vida?». E a resposta elucida: «Os bons Espíritos fazem todo o bem que podem e sentem-se felizes com as vossas alegrias. Eles afligem-se com os vossos males, quando não os suportais com resignação, porque então esses males não vos dão resultados, pois procedeis como o doente que rejeita o remédio amargo destinado a curá-lo». Nem sempre é fácil, mas as leis da vida não abrem muitas outras soluções: no quotidiano cercam-nos situações de que não gostamos e situações que apreciamos.
Curiosamente, umas e outras, entendidas pelo resultado final, têm em comum um somatório indistintamente negativo ou positivo. É assim porque nem sempre o que nos agrada é o melhor que nos poderia acontecer e vice-versa. Disse ele então à imprensa que os babuínos têm cerca de três horas por dia para se alimentarem e muito tempo livre de sobra. Caso verídico: tenho um amigo que foi despedido há uma dúzia de anos. Ganhava pouco mais que o salário mínimo.
Quando a empresa o empurrou, ele viu-se forçado, sem fé nenhuma de facto, a procurar trabalho. Foi um drama difícil. Certo é, porém, que de onde ele menos esperava apareceu-lhe uma opção de rendimento, um pouco mais longe de casa. Na nova empresa, disse-me depois, depressa gostaram dele e em poucos meses, sem pedir, viu-se a ganhar mensalmente quase o triplo do que acontecia na empresa anterior e a fazer algo bastante mais próximo da sua vocação.
Sofreu muito nas semanas de saída da empresa que extinguiu o seu posto de trabalho, mas a alegria de fazer depois o que gostava surgiu com toda a força. Desdramatizar parece ser o lema. E não deixar cair os braços também. Os bens materiais são adereços do cenário evolutivo em que nos movemos. O que temos dentro do ser imortal, em última análise nós próprios, é o verdadeiro tesouro onde brilham afetos e luminosas aspirações a um mundo melhor.
Tudo isto pode ser feito com muito menos stress, não acha? Texto: Jorge Gomes Info: http://news.stanford.edu/ news/2007/march7/sapolskysr-030707.html MARÇO.ABRIL.
