65 — índice de conteúdos

Calendário

Jornal de Espiritismo nº 65 · Abril 2014Página 124 min

Partilhar
Idioma

Os fenómenos aí estudados, inerentes à natureza humana, tão antigos quanto ela, eram entendidos confusamente até 1857, ano histórico da publicação de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, o primeiro da codificação. Cético a princípio, Allan Kardec estudou exaustiva e metodicamente os fenómenos paranormais então muito em voga, sistematizando-os em doutrina espírita, Espiritismo: “o cristianismo redivivo”, na expressão do espírito Emmanuel.

Determinada para a Verdade e aberta àquilo que novos conhecimentos tragam de diferente, a doutrina espírita não foi vazada em moldes de crença nem de inflexibilidade dogmática. Pelo universalismo da sua matéria de estudo, e contra a presunção dalguns prosélitos, o Espiritismo recusa ditar “a verdade” e “pureza doutrinária” a defendermos “intransigentemente”. Acessível a quantos o busquem, contenta-se como caminho para a Verdade, ciente de não ser único nem obrigatório; ciente também de quanta luz pode facultar a todos os outros caminhos, e receber deles.

Intransigente no pior sentido era o farisaísmo, e o Bom Pastor não lhe poupou admoestações. Ao codificar o Espiritismo, com prudente critério e assistido superiormente, Allan Kardec pôde apreender-lhe a conformidade aos ensinos de Jesus; analisou-a em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, deduzindo um lema capital: “fora da caridade não há salvação”. Nada permite afirmar que esse livro constitua cedência de Kardec à hegemonia sociocultural do clero, como sustentam alguns confrades nossos, que subestimam o Evangelho e demarcam dele o Espiritismo.

Têm os seus argumentos (e a minha fraterna consideração) mas também alguma desatenção ao teor cósmico e perene do magistério evangélico: sempre actual, ele transcende contextos históricos, geográficos ou socioculturais, despertando hoje interesse científico na mecânica quântica, neurociências, psicologia e outras áreas do conhecimento académico, sobretudo terapêutica médica convencional. Fertilíssimo em recursos para a evolução humana, o Evangelho foi anunciado pelo modelo e guia da humanidade; o erudito Kardec, sob inspiraçãoenão por considerações mundanas, dedicou à sua análise um livro inteiro – o terceiro, na codificação – onde a luz espírita clarifica passagens anteriormente obscuras.

A visão renovadora desse livro (1864) legou à humanidade riquíssimo filão de conhecimento e progresso moral. Rompendo a suposta incompatibilidade entre fé e razão, introduz o conceito de fé raciocinada, única susceptível “de encarar a razão em todas as épocas”. O luminoso conceito resgata o pensamento de Santo Agostinho (354-430), um dos mentores espirituais da codificação: “intellige ut credas, crede ut intelligas” (entende para crer, crê para entender).

Cem anos mais tarde, o refrescante Concílio Vaticano II (1962-1965) corrobora-o com os arejados princípios de ecumenismo e liberdade de consciência, tão caros ao bom João XXIII. A evolução do pensamento religioso destrona a milenar fé cega apadrinhada por Tertuliano (sensivelmente, 155-220): ”credo quia absurdum” (creio porque é absurdo), raiz de mitos e dogmatismo, só questionada mais de mil anos depois pelo princípio luterano do “livre exame”, e só por uma parte da cristandade, revestindo ainda, mais tarde, a ímpia forma inquisitorial do “crê ou morres”.

Enfim, O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, muito mais do que um incidente no processo da codificação espírita, configura um expressivo repositório de conhecimento e sabedoria. Existem mais divergências no seio do movimento espírita. Por exemplo, o maltratado roustainguismo sustenta ser fluídico (não encarnado fisicamente) o corpo em que Jesus viveu na Terra. A tese de Jean Baptist Roustaing tem tido não poucos aderentes, afirmando não contrariar a doutrina espírita.

Mesmo admitindo isso, a tese não ganha realidade factual; Kardec refuta-a no capítulo XV de A GÉNESE, com típica serenidade e objectividade (não hostilizando ou desconsiderando o opositor, como nem sempre acontece quando reacendemos essa e outras controvérsias). Medra na seara espírita o joio duma aguda carência: cultivarmos, como Kardec, a união na divergência, buscarmos caridosa e lucidamente a Verdade ansiada por todos.

Não existe na Terra unanimidade absoluta, nem conviria; mas divergência não tem que ser intolerância ou dissensão, deve antes incentivar a busca desapaixonada da verdade, a vivência efectiva dos valores evangélicos, que induzem luz para cada problema e fomentam UNIÃO (não unicidade nem divisão), necessária à convivência útil e sã de divergências que sempre teremos. Urge banirmos erros graves que já No sesquicentenário de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” professámos no século XVI, no cristianismo romanizado: intolerantes ante o inspirado surto histórico da Reforma, gerámos desagregação, numerosas seitas rivais, anátemas, morticínios.

Quão diferente podia ter sido! Opinam alguns historiadores que Lutero e Calvino, sem espírito de separação esperavam beneplácito papal para as teses reformistas que propunham à semipagã ortodoxia pontificante. De frisar o altíssimo conceito em que Lutero, que então excomungámos, é tido hoje quer pelo nosso respeitável confrade Hermínio Miranda, quer por teólogos com o prestígio dos padres Ives Congar, Joaquim Carreira das Neves, Bento Domingues.

Espíritos nobres como Bezerra e Emmanuel exortam os espiritistas a instituírem UNIFICAÇÃO de metas. Sem pretender infalibilidades, hegemonias de tendência, mas consensualidade e colegialidade decisória, ela uniria ideias comuns em produtiva cooperação fraterna, superando divergências inevitáveis que não deixaríamos serem pomos de desunião e estagnação. Kardec, “o bom senso encarnado” do discurso fúnebre de Camille Flamarion, sagrou-se exemplo admirável pela sua obra grandiosa e a adoção do conspícuo lema: “trabalho, solidariedade, tolerância”.

Desencarnado há 145 anos em plena lide doutrinária, honremos com mais coerência o labor do varão justo e fiel, portador de edificante curriculum que já trazia de há séculos, ao serviço do Cristo. Por João Xavier de Almeida foto loucomotiv Este ano de 2014 perfaz século e meio após a publicação de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, terceiro dos cinco livros base em que Allan Kardec (pseudónimo do notável académico francês Hippolyte Léon Dénizard Rivail) compilou o núcleo da codificação espírita.

A visão renovadora desse livro (1864) legou à humanidade riquíssimo filão de conhecimento e progresso moral. Rompendo a suposta incompatibilidade entre fé e razão, introduz o conceito de fé raciocinada, única susceptível “de encarar a razão em todas as épocas”. JULHO.AGOSTO.