Entrevista (pág. 9)
Jornal de Espiritismo nº 65 · Abril 2014Página 98 min
fluidificada e dava choques, quem me tocava até estalava. Disseram que não estava a fazer bem, que era demasiado. Será? Os centros espíritas são, como qualquer organização, entidades constituídas por pessoas que dão às tarefas um certo uso, de acordo com o seu entendimento e com as normas de funcionamento de cada uma. Leonor LealOlá Joana e Marta, obrigada pelas vossas questões, que vou tentar responder a ambas numa única resposta.
Os centros espíritas são, como qualquer organização, entidades constituídas por pessoas que dão às tarefas um certo uso, de acordo com o seu entendimento e com as normas de funcionamento de cada uma. Ao serem constituídas por pessoas, existem afinidades que se revelam ou não. E ainda que a doutrina seja a mesma, a prática desta nem sempre se mantém uniforme, fruto das imperfeições de entendimento que ainda possuímos em graus diferenciados, pelo que, o facto de não nos termos afinizado com este ou aquele centro espírita não deve determinar, por si só, o afastamento da doutrina, se em nós mesmos, entendermos estar no caminho certo.
Em qualquer situação, e o centro espírita não é exceção, o que mais importa reter é o esclarecimento que cada um de nós deve adquirir para que possamos fazer melhor as nossas escolhas, imperando o bom senso. Quanto à terapia pelos passes, é uma terapia de refazimento espiritual, isto é, uma transfusão de energias psíquicas e espirituais que intervêm, positivamente, na saúde física, psíquica e espiritual do ser necessitado.
Entenda-se “ser” como o Espírito, encarnado ou desencarnado (sendo o passe uma terapia de auxílio em ambos os planos da vida), mas também animais, plantas e outros compostos da natureza, como acontece com a água, que sendo um dos mais simples da natureza é facilmente alterado. O nosso corpo é constituído de cerca de 75% de água, sendo este um meio eficiente e de fácil assimilação, pelo que a água fluidificada deve ser utilizada como complemento do passe.
Contudo, importa referir que tratando-se de uma terapia, o passe eaágua fluidificada, só as devemos utilizar quando estamos necessitados, por alguma desarmonia interior ou estado de debilidade física, emocional ou espiritual e não por hábito ou rotina. E aqui, uma vez mais, é a responsabilidade de cada um que determina a escolha. O passista, num ato de doação, disponibiliza-se a ser canal das energias curadoras vindas da equipa espiritual, que prepara os fluidos, alterando as suas propriedades de acordo com as necessidades de cada um.
Estes fluidos derivam do Fluido Cósmico Universal, matéria cósmica primitiva, geradora do mundo e dos seres, no qual o Universo se encontra mergulhado, assim como na Terra estamos mergulhados na atmosfera. Na Terra, o ar é o veículo do som, no Universo, o Fluido Cósmico Universal (FCU) é o veículo do pensamento, mas enquanto as vibrações do ar são circunscritas no espaço e no tempo, as do FCU estendem-se ao infinito.
É assim através destes fluidos, pela ação do pensamento e da vontade, que se opera esta transfusão de energias. No passe espírita, momento de doação e entrega, de reflexão interior em que, pela prece, nos ligamos à Espiritualidade Superior, estabelecemos uma corrente fluídica na qual o pensamento, por ação da vontade, que é um atributo do Espírito, “ser inteligente da criação”, em conjunto com a Espiritualidade Superior que conhecendo as reais necessidades de cada um, atua sobre o FCU, transformando-o.
O passista, sendo canal destas energias, é também doador, emitindo energia do seu perispírito ou corpo espiritual. Cabe a este, responsabilizado pelo conhecimento e esclarecimento adquiridos, adotar uma conduta de automelhoria e aprimoramento moral, e ao recetor, iniciar, se ainda não o fez, o mesmo processo, já que esta transfusão de energias opera-se tanto melhor quanto ambos os intervenientes (dador e recetor) se encontrem em sintonia íntima com a Espiritualidade Superior.
O recetor deverá adotar uma postura de entrega e confiança em Deus, nos guias espirituais, na justiça e bondade divinas por forma a incrementar esta doação fluídica, operando em si mesmo as melhores condições à receção dos fluidos reparadores. Para uma melhor eficácia, necessário se torna o conhecimento de todo o processo, a consciência de que somos Espíritos, imortais, ainda que temporariamente revestidos de um corpo carnal; o entendimento da Lei de Causalidade (colhemos de acordo com o que semeamos), trabalhando em nós a confiança em Deus e no porvir da vida, certos de que cabe a cada um fazer o que está ao nosso alcance para o processo de autoconhecimento que nos levará ao melhoramento e aprimoramento moral referidos.
Este processo de autoconhecimento e consequente melhoria íntima tornar-nos - -á mais esclarecidos em relaçãoanós mesmos, impelindo-nos ao entendimento do funcionamento das leis divinas, nas quais estamos imersos, tornando-nos, necessariamente, seres mais conscientes do Todo e, consequentemente, agentes ativos na construção da nossa saúde física e espiritual. A grande importância deste caminho, fazendo aqui uma analogia com a doença, está em não necessitar de um medicamento que iniba determinados sintomas, mas, ao invés, identificar a causa e tratá-la , ou até, pela mudança que reside em cada um de nós, a operar-se, nem vir a ser necessária a doença como processo de melhoria.
Esta é a proposta da doutrina espírita: pelo pensamento crítico, pelo conhecimento e consequente esclarecimento do funcionamento das leis divinas, nas quais estamos imersos, posicionarmo-nos e movimentarmo-nos nelas de forma mais consciente, e pela reeducação espiritual, tornarmo-nos melhor que nós mesmos, construindo hoje o nosso amanhã, mais saudável, mais justo e mais feliz, conhecedores que nos tornamos das causas, dos processos e dos efeitos, certos de que o auxílio sempre vem, na hora certa e na justa medida de cada um.
Faço votos de que tenham um caminho iluminado, pleno de harmonia e paz. Isilda pergunta, por sua vez, a Isaías Sousa: Isilda Serralheiro – Isaías Sousa, a que dívidas se refere no seu tema «Contabilidade espiritual» quando diz que não contraímos dívidas, uma vez que estamos num mundo de provas e expiações? Isaías Sousa – Querida Isilda, dívida é todo o compromisso passado que uma entidade, pessoa ou organização não consegue honrar ou cumprir.
Significa isto que a pessoa ou entidade, que está endividada, perdeu parte ou a totalidade do seu património e em casos extremos ainda fica no vermelho. Ou seja, a pessoa ou organização entra num processo chamado de insolvência terrena. A título de exemplo citemos o seguinte: uma determinada pessoa comprou uma casa e não tendo todo o dinheiro disponível contraiu um empréstimo a pagar em X anos. Com este ato, não se pode dizer que a pessoa esteja endividada.
Isto significa que a pessoa assumiu um compromisso, que com a entrega da coisa (casa) ela se compromete a pagar aquela obrigação nos anos acordados. A pessoa só fica endividada quando, não podendo honrar este compromisso, a casa se torna insuficiente para cumprir obrigação e ainda perde, eventualmente, parte ou a totalidade de outro património que tenha conseguido no passado pelo esforço do seu trabalho. Concluímos, por este exemplo, que a pessoa ou organização teve um retrocesso na sua vida.
E na vida espiritual isto acontece? Será que em alguma circunstância, por compromissos assumidos, a pessoa retrocede, ou ficará eternamente estagnada? As respostas a estas questões, vamos encontrá-las nos itens 118 e 116 de «O Livro dos Espíritos», respetivamente onde é referido que os Espíritos não degeneram, nem se conservam eternamente nas ordens inferiores (estagnação). E, é dentro destes ensinamentos que se chega à conclusão que as Leis de Deus são infinitamente justas e bondosas, entre outras características.
Se assim não fosse, seria a negação daquilo que acabamos de dizer, se por alguma situação menos feliz da nossa vida eterna, perdêssemos parte ou a totalidade do nosso património espiritual, porquanto as Leis de Deus não são coercivas. No entanto devemos entender que quando estamos na erraticidade a prepararmos uma nova encarnação, e porque não há influência da matéria, cada um de nós, dentro da sua responsabilidade e do seu livre-arbítrio chega à conclusão que para evoluir necessita de assumir determinados compromissos, tendo como objetivo principal atingir a perfeição de uma forma gradual.
E onde nós podemos executar os compromissos assumidos? Um dos palcos é precisamente o nosso mundo de provas e expiações (Terra). Mas devemos entender que quando se falar de provas, elas significam um teste à nossa capacidade de pôr em marcha os conhecimentos adquiridos e ao mesmo tempo rentabilizar o património que inicialmente nos foi ofertado e adquirido ao longo dos diversos ciclos da vida eterna. Não devemos entendê-las como uma punição, mas sim como um ato de nos testar aquilo que se aprendeu.
E, com este teste, vamos garantir a confiança que depositaram em mim. Porém, tendo em conta as ameaças e as adversidades que rodeiam o indivíduo, nem sempre os compromissos assumidos são executados na sua plenitude. Será que por não se ter conseguido a totalidade se perdeu tudo? Claro que não, como atrás foi explicado. Vejamos um exemplo. Uma pessoa que tem tendências suicidas, e que antes de iniciar uma encarnação, assume o compromisso de no plano terreno combater aquelas tendências e que vai trabalhar na sua própria renovação para atingir esse objetivo.
Podem acontecer dois cenários: 1 - chega ao termo da encarnação e consegue atingir o objetivo: (prova superada); 2- apesar dos esforços, não consegue superar a prova e por conseguinte põe termo, antes do tempo, à sua vida. Neste caso embora possa parecer que se endividou perante as leis divinas, a realidade é bem diferente, porquanto as leis divinas não são coercivas. O que vai acontecer é que ele continua com o compromisso perante as leis divinas e esta prova, numa próxima encarnação, converte-se em expiação, ou seja a situação vai exigir um maior esforço pelo facto de estar a repetir a prova.
Ou seja tudo o que o indivíduo alcançou jamais perde esse património. Simplesmente vai exigir mais tempo para alcançar aquele objetivo. E tudo o que acaba de se dizer encontra sustentabilidade na infinita justiça, bondade, misericórdia e imutabilidade das Leis Divinas. Jamais as Leis de Deus nos cobram e nos retiram aquilo que foi alcançado. Esperamos ter esclarecido a diferença entre o conceito de dívidas e o conceito de compromisso.
Saudações fraternas! JULHO.AGOSTO.
