65 — índice de conteúdos

preciso respeitar o direito à diferença” – ouve-se gritar de forma con

Jornal de Espiritismo nº 65 · Abril 2014Página 168 min

Partilhar
Idioma

“É preciso respeitar o direito à diferença” – ouve-se gritar de forma convincente. É uma afirmação tão óbvia que nem deveria ser preciso repeti-la tantas vezes, mas uma coisa são as palavras que se atiram ao vento e outra bem distinta é o que se faz com elas. Em tempos não muito distantes, os homens construíram muros à volta das cidades para se defenderem dos ataques dos salteadores e dos exércitos inimigos. Reclusos dentro dos seus cárceres sentiam-se seguros e invioláveis, mesmo reconhecendo que a maior fortaleza poderia ser vergada pela persistência de um grande exército.

O tempo foi transformando as muralhas em vestígios arqueológicos, mas o Homem não extinguiu a necessidade de levantar novas barreiras que o protegessem do medo e da suspeição que as diferenças continuavam a provocar-lhe. Umas mais visíveis do que outras, em todas as paredes de segregação que foram e continuam a ser construídas, ficam gravadas as dores e os vícios morais que ainda nos atormentam como Humanidade. “É preciso respeitar o direito à diferença” – ouve-se gritar de forma convincente.

É uma afirmação tão óbvia que nem deveria ser preciso repeti-la tantas vezes, mas uma coisa são as palavras que se atiram ao vento e outra bem distinta é o que se faz com elas. Vivemos numa época em que a informação é global, abundante e propaga-se a velocidades impensáveis. Basta um toque num minúsculo botão para ficarmos em contacto com outra pessoa em qualquer lugar do planeta, acumulamos amigos virtuais com quem partilhamos mensagens, ideias e opiniões, as redes sociais ostentam os mais minuciosos detalhes das vidas privadas e daquilo que queremos que os outros saibam sobre nós.

Aparentemente poderia pensar-se que esta é uma época de grande comunhão fraternal e igualdade, mas talvez não seja bem assim. Ao sairmos do virtual para o real, não pode deixar de ser com incredulidade e muita preocupação que em pleno século XXI assistimos na Europa ao aprofundar das desigualdades socias, ao crescimento do nacionalismo, do racismo e do preconceito contra grupos minoritários, à proliferação de atitudes xenófobas em recintos desportivos e de criação de leis cada vez mais rígidas contra os emigrantes.

Isto significa que esta sociedade da nanotecnologia, e que se julga tão avançada, ainda se encontra cheia de medos e perversidades medievais que, reconhecendo virtualmente o direito à diferença, demonstra muita dificuldade em libertar-se da ignorância e dos preconceitos. No fundo, parece que a diferença é tolerada se estiver bem escondida, delimitada por altas muralhas ou reduzida à sua dimensão superficial, mas o caso muda de figura quando ela é ostentada no cenário da vida quotidiana e passa a criar incómodos às convicções íntimas ou aos interesses instalados.

O preconceito é um facto real das nossas vidas. Movimenta-se camuflado atrás do politicamente correcto e da aparência, perceptível por detrás de gestos de desprezo, esgares incomodados e expressões brincalhonas. É um muro gigantesco que acicata a desconfiança, alimenta o ressentimento, promove a exclusão e que vai reduzindo o sentido de dignidade que reconhecemos ao outro, ou seja, o direito que lhe atribuímos para ser tratado, compreendido e respeitado em toda a sua humanidade.

Apesar do caminho percorrido, como indivíduos e sociedade, ainda há muito que caminhar em direcção à comunhão para com todos os que são, agem e pensam de forma diferente. Para alcançarmos esse objectivo seria necessário ter a coragem para galgar as fronteiras do nosso mundinho acanhado e bafiento, dos muros construídos pelo medo e pela ignorância. Muros que geram competição, ciúmes e dependências, que criam polaridades exaltando a urgência da posse, do poder e do domínio sobre os outros.

Muros que têm retalhado o mundo entre o preto e o branco, o certo e o errado, o bom e o mau, o nosso e o deles, entre ricos e pobres, inteligentes e preguiçosos, evoluídos e sofredores, entre aqueles que são filhos de Deus e os que são meros enteados do criador. Muros que nos impedem de sentir o outro na sua singularidade, de tocar as suas dores, ambições e vontades, muros que não nos deixam compreender. Os princípios básicos do Espiritismo oferecem-nos uma capacidade para ver o mundo e a vida em sociedade de uma perspectiva privilegiada.

Essa perspectiva aguça-nos não apenas a tolerância, que por vezes é demasiado limitada e condescendente, mas sobretudo a compreensão. A forma mais transcendente como o Espiritismo nos leva a encarar a vida, deveria permitir-nos perceber as diferenças sociais, sexuais, culturais, ideológicas, raciais e religiosas que nos distinguem como indivíduos únicos e especiais, como o resultado natural de um mundo de oportunidades, experiências e comportamentos diferentes em vidas sucessivas que vão construindo através das nossas escolhas, erros, conquistas, lágrimas e sorrisos, aquilo que somos e que evidenciamos.

A interiorização generalizada dos princípios espíritas seria suficientemente eficaz para erradicar o preconceito da nossa sociedade. Compreendendo o verdadeiro sentido da reencarnação, como nos mantermos preconceituosos sabendo que numa outra vida poderíamos ter tido, ou poderemos vir a ter numa vida futura, as características sociais, biológicas, sexuais ou culturais que são o alvo desse preconceito? A vivência do Espiritismo empurra-nos para a fraternidade.

Uma fraternidade que salta das páginas dos livros, da complexidade das ideologias e dos cómodos mundos virtuais, e que vem concretizar-se pela aproximação ao outro e à sociedade, através de uma solidariedade que faz cada um sentir-se responsável por todos, de uma humildade que reconhece que não existem senhores nem privilegiados e em que todos os seres humanos têm os mesmos direitos e dignidade. “É urgente o amor!” Escreveu o poeta Eugénio de Andrade, e é urgente destruir certas espadas.

Em cada muro derrubado, em cada preconceito vencido, em cada lágrima que não seja chorada em solidão, em cada gesto de bondade arrancado ao egoísmo, em cada passo dado na compreensão da diferença, todos ficarão mais próximos da humanidade real. Ficaremos mais perto da concretização do sonho a que um bondoso carpinteiro dedicou a sua vida: a fraternidade universal. Por Carlos Miguel Murodepreconceitos OPINIÃO “Zaqueu, desce dessa árvore porque é preciso que eu me aloje hoje em tua casa.

” - Jesus foto loucomotiv JULHO.AGOSTO.2014 Bruno Alves era um professor de psiquiatria atormentado pela morte da sua jovem esposa. Não conseguindo suportar a angústia da perda de quem mais amava, entregou-se ao alcoolismo e à depressão de tal forma que passava os seus dias a deambular entre os botequins e as ressacas. Sem qualquer sentido que sustentasse a sua vida, o suicídio parecia-lhe a única solução. Mergulhado na indiferença de uma avenida em hora de ponta, preparava-se para saltar de um viaduto e concretizar a sua intenção, quando um varredor de rua aproximou-se dele e ofereceu-lhe “O Livro dos Espíritos”.

Na contracapa escreveu a dedicatória: “Esse livro mudou a minha vida!” O gesto surpreendeu de tal forma o protagonista, que ele acabou por desistir temporariamente dos seus intentos. O momento em que começou a ler o livro de Allan Kardec iria marcar o início de uma jornada de restauração do seu equilíbrio através da compreensão dos mistérios da vida espiritual, do seu papel no mundo e do entendimento da forma como o passado, presente e o futuro se interligam pelas escolhas, sentimentos e comportamentos que evidenciamos.

“O Filme dos Espíritos” não é um filme deslumbrante, de realização e desempenhos artísticos surpreendentes, mas possui uma história simples que emociona, personagens reais com quem é fácil nos identificarmos e uma mensagem instrutiva que nos faz reflectir sobre a vida. Assim é também o Espiritismo. Ele não é um sistema doutrinário concebido unicamente para assimilação ou deleite intelectual, para se digladiarem argumentos contrários ou para se esgrimirem diferentes convicções, ideias ou ideais.

O Espiritismo fala ao coração, fala à nossa consciência. É sobretudo para ser vivido pela renovação íntima, através de um trabalho de sublimação interior, sendo no silêncio da nossa alma, num lugar onde mais ninguém perscruta, que o Espiritismo encontra os preciosos ingredientes de que precisa para cumprir a sua missão regeneradora. Através da leitura atenta de “O Livro dos Espíritos” e da vontade em compreender mais sobre aquilo que lia, Bruno foi gradualmente mudando comportamentos, transformando ideias, sublimando sentimentos.

Abriu o seu coração e começou a viver o Espiritismo. Viver o Espiritismo não é sujeitar-se a uma atitude de ascetas, sem máculas nem equívocos. Viver o Espiritismo é incorporá-lo à nossa forma de ser e agir, assimilá-lo profundamente na nossa consciência. É colocar em prática os seus princípios. Esses princípios espíritas, devidamente aplicados, mudam a nossa vida e podem mudar o mundo. A certeza de que a morte não existe, de que a vida é um ciclo interminável de experiências e desafios que nos aproximam da felicidade, liberta-nos.

Interiorizando estas verdades, ninguém pode mais ficar fechado e escondido no pequenino mundo das suas questiúnculas quotidianas, dos seus medos, aflições, desconfianças e implicâncias crónicas, atormentados por coisas que ainda não aconteceram, doridos por um passado que está à espera de ser vencido, esmagados por problemas passageiros que não têm qualquer relevância para a sua vida infinita. Só seremos coerentes com os novos conhecimentos adquiridos quando nos dispusermos a modificar a nossa própria vida, encarando-a como um processo contínuo, de expansão e de libertação do nosso Espírito, de realização de nós mesmos para gáudio do Universo.

Nessa altura, não nos prenderemos mais do que o necessário às preocupações rotineiras, sofrendo angustiados pelos percalços da existência. Conseguindo ver a vida de uma perspectiva mais transcendente, passamos a compreender todos os seus acontecimentos como ondas que sulcam a imensidade da evolução universal, ondas ora tranquilas ora tenebrosas, mas que sempre nos empurram para o crescimento e sublimação. Com o tempo e através da compreensão do Espiritismo, Bruno foi aprendendo a acompanhar esse impulso.

Foi acertando o passo com a vida, seguindo o seu ritmo, a sua cadência, mantendo a serenidade mesmo com o coração dorido, a confiança mesmo quando fracassado, compreendendo que por mais voltas que a vida pudesse dar, ele estaria no caminho em direcção à felicidade. “O Livro dos Espíritos” por si só não pode mudar a vida de ninguém, mas marcará certamente o início da transformação íntima em quem estiver verdadeiramente comprometido nessa mudança.

Título Original: “O Filme dos Espíritos” Realização: André Marouço Com: Reinaldo Rodrigues, Nelson Xavier, Ana Rosa, Sandra Corveloni Brasil, 2011 - 101 min.