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Atualidade (pág. 11)

Jornal de Espiritismo nº 67 · Setembro 2014Página 117 min

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de transmissão de mensagens, de perceções, entre ambos os planos de vida. Por vezes as pessoas usam a palavra dom para a definir. Não é bem assim. O termo dom está ligado a dádiva, talento. Mediunidade não é isso. É uma ferramenta que carece de educação, equilíbrio e bom uso, sem qualquer tipo de remuneração. Não é uma prenda. Melhor palavra para a caracterizar é, sem dúvida, faculdade, que até pode ser temporária… A tipologia mediúnica é variada.

Há os médiuns que veem e/ou ouvem entidades espirituais. Designa-se por vidência e audiência mediúnica. Outros entram em transe e tornam - -se veículos de manifestação de Espíritos desencarnados, que falam através deles, a psicofonia. Outros recebem textos ditados pelos Espíritos, fala-se aqui de psicografia. E há outros formatos desta sensibilidade. A lista dos vários tipos de mediunidade e outras informações mais vastas encontra-as numa obra colossal, «O Livro dos Médiuns» de Allan Kardec.

Quando a faculdade é notória, fala - -se de médiuns ostensivos. Nestes a faculdade mediúnica é evidente. Mas no fundo, de alguma maneira, até nos momentos mais vulgares, quando por exemplo um Espírito amigo nos dá uma sugestão útil e nós a ouvimos misturada com pensamentos nossos, até neste caso há fenómeno mediúnico, porém, subtil. Já agora, a haver fenómeno mediúnico tem de haver algum tipo de sintonia: sintonia é o quê?

Neste ângulo, sintonia pode ser vista como a integração de energias afins. Se é assim, podemos ajustar o nosso próprio mundo interior a vários tipos de sintonia, umas piores, outras melhores. Até que ponto estamos em dado momento capazes de reordenar sentimentos e ideias no mundo interior que caracteriza cada um de nós? Com frequência, sem darmos por isso, reagimos a estímulos exteriores com sentimentos descompensados ou, por outro lado, compensatórios.

Por exemplo, se alguém tem uma atitude desagradável connosco, deixamos normalmente que se instale invariavelmente no nosso íntimo uma atmosfera de desencanto. Noutra vertente, mais interessante, quando deparamos com alguma atitude gentil por parte de outrem a tendência é que instalemos no nosso ser um estado de satisfação. O desafio que se nos coloca no presente é o de aprender maneiras de, mesmo quando alguém se distrai e é incorreto connosco, não perturbarmos o nosso bem-estar interior em cujo comando, intransferível, nos encontramos.

Sintonia é também, assim, a capacidade de regularmos o nosso mundo interior para as estações do eterno bem. Não é ainda uma aquisição no presente momento evolutivo que nos caracteriza, claro, mas é uma conquista que cada um pode ir fazendo desde já. Essa sintonia até pode ser um vínculo essencialmente de natureza telepática. As afinidades comunicam mais facilmente, e é igualmente assim que as sintonias com Espíritos desencarnados funcionam.

Lembra-se de quando procura a sua estação de rádio preferida? É parecido. Só temos de ir percebendo como fazer rodar o botão a favor da sintonia que nos interessa a fim de que o mundo interior de cada um se preencha mais vezes de paz e alegria. O que tem o ser humano dentro de si próprio que o faz sintonizar? Talvez seja um conjunto combinado de valores que interagem com a faculdade mental de estar constantemente a fazer perguntas, a procurar respostas, a obter soluções imediatas, normalmente orientadas por numerosas experiências antigas radicadas no inconsciente, onde se encontram os arquivos mais antigos, conseguidos em passagens de vidas anteriores.

Como acontece entre grupos humanos, dentro da mente de cada um, se for o caso, tristeza atrai tristeza, maus sentimentos atraem maus sentimentos, alegria atrai alegria, amor atrai amor… Como normalmente deixamos a nossa mente seguir por onde ela quer caminhar, sem orientação consciente de quem tem a mão no leme e está atento ao que pensa e sente, numa atitude de autoconhecimento, o comportamento no dia-a-dia segue em piloto automático.

Isso quer dizer que não aproveitamos sempre bem o tempo para fazer experiências úteis em nós próprios que ajudam a reordenar de forma mais construtiva o nosso mundo interior. Lá chegaremos. Não há outro caminho na evolução. Na interação entre sintonia e mediunidade, como controlar isso, essa sintonia automática? O barco vai por onde a corrente o levar, se o barqueiro não utilizar os remos ou o leme. Isso equivale a dizer que podemos aprender por nós próprios a criar as sintonias que nos interessam, através dos sentimentos e dos pensamentos que chamamos ao nosso universo interior.

É importante nesse sentido começar a agir em vez de apenas reagir. Se apenas reage é fácil de manipular, por parte de alguém que não compreenda a justiça de deixar a outrem o uso do seu livre-arbítrio, como gosta que respeitem o seu. É o caminho que existe, não há atalhos. Mas essa sintonia, a tal integração de energias afins, apoia-se em afinidades eletivas, com base nas nossas escolhas, ou seja, são baseadas no princípio da semelhança, entre Espíritos, ou há outras?

Parece-nos que essa semelhança se prende com o que nos vemos a sentir num dado momento, mas não com afinidades de espetro mais alargado como as que se tecem nas experiências de vida solidárias sedimentadas ao longo de vidas passadas e na erraticidade. Podem ser sintonias momentâneas, voláteis, resultantes de interesses comuns circunstanciais, sendo certo que estas, repetidas maior número de vezes, acarretam maior facilidade de trânsito comunicacional entre o desencarnado e o encarnado.

Por exemplo, se tem por hábito beber vinho às refeições, não exagere por muito que lhe apeteça. O organismo, através da habituação contumaz, começa a cobrar diariamente os químicos inerentes, sugerindo uma escalada. É em boa parte por isso que na ótica espírita nunca pode ser encarada como profissão e deve ser exercida sem qualquer tipo de troca de favores, prendas ou remuneração. Pode haver interações entre ambos os planos de vida.

Imagine que alguém que já partiu para o outro lado da vida mantém essa habituação – nãoanível do corpo físico mas a nível do corpo espiritual eventualmente e de certeza através da dependência psicológica que acompanha o Espírito – e não tem como pegar num copo e beber. É certo que procurará consumir através do estímulo em quem esteja ainda na vida material com essa tendência e, através de sensações de natureza telepática, satisfazer-se com um consumo partilhado.

Mas esse é o lado em que a ignorância contamina a mediunidade. Se melhorar o mundo íntimo, se “acender” a sua luz interior, começa a encontrar através dessa mesma faculdade que todos possuímos de alguma maneira, subtil, a influência benfeitora dos Espíritos já esclarecidos que fazem questão de trazer dentro de si os sentimentos e as ideias luminosas da fraternidade da humildade, do perdão e do amor que nada pede em troca.

Há pessoas de má índole que podem NOVEMBRO.DEZEMBRO.2014 também ter mediunidade: não deveria tê-la apenas quem evidencia um bom carácter? É considerada a mediunidade nas fontes bibliográficas uma faculdade de natureza orgânica. Logo, a mediunidade enquanto tal não depende do comportamento moral. Surge nas informações de fontes respeitáveis entretanto divulgadas como podendo ter duas origens. Uma será a mais abundante, como ferramenta concedida para compensar atrasos na caminhada evolutiva do ser espiritual.

Sem ser justo generalizar, quem em vidas passadas complicou a dinâmica da sua consciência através de danos graves causados ao seu próximo, pode aceitar no plano espiritual a proposta de renascer com esse item no seu percurso de vida material, a fim de compensar erros antigos com a prática do bem inteiramente desinteressado. É em boa parte por isso que na ótica espírita nunca pode ser encarada como profissão e deve ser exercida sem qualquer tipo de troca de favores, prendas ou remuneração.

Outro caso, menos frequente, será o das conquistas pessoais nesse campo ao longo das vidas sucessivas. Compreende-se por isso que a faculdade mediúnica até pode, a dado momento, ser suspensa por razões que não dependem da vontade humana. Em suma, trata-se normalmente a mediunidade de usufruto temporário de uma ferramenta de intenção altruísta de trabalho a favor do próximo, isto sem desprezar a família nem o trabalho profissional.

Somos seres polivalentes. Não há como perder isso de vista. Como toda a ferramenta a mediunidade também exige manutenção, ou seja, estudo e educação. Que mecanismos de manutenção da vigilância na mediunidade não ostensiva se podem utiliz ar? Jesus explicou: «Orai e vigiai». Vigiar, no quotidiano, o que sentimos e pensamos – estar atento a esses segmentos momentâneos viabiliza corrigir as sintonias. Estas podem ser pouco a pouco automatizadas.

Esvaziar situações de conflito com humor, por exemplo, sendo adequado, criar espaço a sintonias de entidades espirituais esclarecidas e de bem com a vida porque empreenderam em si próprias o longo processo de entendimento de como funcionam as leis naturais na interação que inevitavelmente temos com elas em qualquer dos planos de vida em que nos encontremos.