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Jornal de Espiritismo nº 67 · Setembro 2014Página 75 min
Filhos que mentem? foto loucomotiv Psiquiatra que nos seus tempos livres estuda, desde jovem, a doutrina espírita, Gláucia Lima dá continuidade a esta secção do jornal: responde a um par de perguntas entretanto surgidas. NOVEMBRO.DEZEMBRO.2014 no centro espírita tem uma importância fundamental na PREVENÇÃO destas condições. Não que isto seja qualquer garantia, mas sabemos que a criança evangelizada será uma criança que guardará na sua personalidade os sedimentos dos valores ético-morais na sua vida de relação, contribuindo para o seu equilíbrio e desenvolvimento mais equilibrado.
Dificuldades reais e outras imagináriasComo ajudar as pessoas que buscam o centro espírita, com dificuldades reais e outras imaginárias, e não sabem se têm ou não um problema de ordem psiquiátrica? E como o Espiritismo poderá ajudar estas pessoas? Gláucia Lima – Habitualmente as pessoas que vão ao centro espírita com sofrimento de alguma ordem procuram o atendimento fraterno (acolhimento feito por trabalhadores do centro espírita com o suficiente conhecimento doutrinário e capacidade empática com o intuito de oferecer orientação ao utente).
Nas idades referidas, e até a personalidade da criança estar formada, teoricamente aos 18 anos, não podemos falar em “transtorno de personalidade” Ocorre que por ideias preconcebidas asTenho uma filha de 15 anos e um filho de 12. A primeira mente, o que penso ser normal. O segundo mente muito! Como distinguir o que é normal e o que pode ser já um transtorno de personalidade? O que posso fazer para lidar melhor com a situação e detetar se os pais têm culpa?
Gláucia Lima – A questão refere-se ao comportamento de duas crianças que mentem. E sabemos que, não querendo generalizar, e ainda que seja regra de uma boa educação, ser sincero, honesto e falar a verdade, toda a criança mente! Refere-se também a crianças, pré-adolescentes, cuja atitude de mentir não se explica devido a uma postura de excesso de criatividade, muitas vezes encontrada no imaginário infantil e frequente em crianças mais jovens.
Apesar de se admitir a mentira, no desenvolvimento infantil, muitas vezes fruto da imaturidade emocional e dificuldade da criança assumir a responsabilidade dos seus atos, com receio das consequências dos mesmos, pensa-se que este comportamento também pode ser apreendido e de outra forma mais tolerado em algumas famílias do que noutras, menos permissivas a tal atitude. As crianças aprendem por espelho com os exemplos que lhe são dados no seio familiar e social no qual estão inseridas e, salvo alguma exceção, esses valores são incorporados ao caráter pela educação.
Nas idades referidas, e até a personalidade da criança estar formada, teoricamente aos 18 anos, não podemos falar em “transtorno de personalidade”, que podem ser de variada ordem, desde transtorno “boderline” ou limite, transtorno de personalidade narcisista, histriónico, transtorno anti-social, de entre outros. Quando se observam sintomas desviantes do carácter como a mentira compulsiva; a tendência para enganar ou distorcer factos; a dificuldade em submeter-se às regras sociais; o fracasso em conformar - -se às normas sociais com relação a comportamentos éticos e legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de reprovação social; impulsividade, agressividade e irritabilidade; dissociabilidade familiar, marcada pelo desrespeito ou desapreço; podemos falar em traços de personalidade patológicos, com início, geralmente na infância, mas, ainda não podemos falar em perturbação, pois a plasticidade da personalidade não permite ainda definir um diagnóstico.
Em conclusão, a mentira nunca será um sintoma isolado, terá de coabitar com outros sintomas para que exista o diagnóstico de transtorno de personalidade. Será muito importante detetar a situação e observar se se trata de um comportamento isolado (mentira) e ou se faz parte de um conjunto de atitudes e comportamentos desviantes. Neste segundo caso, as crianças em causa devem ter um acompanhamento psicológico ou psicopedagógico se necessário, ou se os comportamentos tiverem repercussões a nível do desempenho escolar.
Não tendo qualquer valor estabelecer culpas em relação a situação, terá interesse assumir responsabilidades com a finalidade de correção de comportamentos. Neste campo todos os membros do agregado familiar têm o seu papel e a sua responsabilidade a fim de alcançar uma melhor orientação da criança ou do adolescente. O papel da evangelização infanto-juvenil pessoas ainda na atualidade oferecem resistência à psiquiatria e muitas vezes, antes de procurarem um médico, já percorreram algumas casas que não poderíamos de chamar de espíritas, recorreram ao popular “bruxo”, a tratamentos “espirituais”, pois preferem que se lhes diga que padecem um mal espiritual do que de um problema psiquiátrico.
Assim, aparentemente, deslocam a responsabilidade do problema de si para outrem. Recomenda-se quando haja sintomas clínicos que as pessoas sejam encaminhadas para as consultas específicas, sejam elas de psiquiatria, como o exemplo, ou outra pois, a ajuda espiritual que se oferece no centro espírita não diminui ou anula o benefício da ajuda da medicina do plano físico. Muitas vezes, algumas pessoas erroneamente pensam que se os seus problemas tiverem origem num processo de influenciação espiritual, obsessivo, o mal estará no espírito, que deverá então ser afastado!
E neste caso o centro espírita fará algo para as curar! Duplamente equivocados, quer na premissa da origem do problema, quer no seu tratamento, pois os indivíduos que sofrem processos obsessivos são tão responsáveis pelos mesmos quanto os seus obsessores, uma vez que permitem a sintonia necessária para o desenvolvimento da obsessão. Quando nos referimos ao tratamento, este sempre deve ser em primeiro lugar dirigido ao obsidiado, no sentido da sua reforma íntima, e esta ninguém pode fazer por outrem senão o próprio num exercício de autotransformação.
Logo, aqui, o espiritismo não nos oferece soluções mágicas e não trabalha para e nem por ninguém. Sabemos, que há estatísticas que demonstram que os pacientes com problemas mentais vivem menos anos, no geral. Não pela sua patologia de base, mas porque são doentes mais negligenciados do ponto de vista médico. Caberia aqui dizer-se que o “estigma mata”. Devemos lidar com a doença mental como uma doença comum, que acomete qualquer órgão ou sistema, e que merece atenção médica; se temos dúvidas, procuramos um médico para nos ajudar a resolver os nossos problemas.
O centro espírita, para além do atendimento fraterno, dando a orientação devida, poderá ainda oferecer outros recursos eficazes na ajuda ao bem-estar, promoção do equilíbrio e manutenção da saúde como a fluidoterapia, os grupos de estudo, reuniões doutrinárias e, quando necessário, a desobsessão. Ensina-nos a libertar da ignorância que nos aprisiona em busca de novos horizontes na nossa consciência para, no futuro, ser o amor o único lenitivo necessário para os males das nossas almas.
