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Não temos tempo!

Jornal de Espiritismo nº 67 · Setembro 2014Página 168 min

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O estranho é que mesmo vivendo a uma maior velocidade o tempo parece cada vez mais escasso. A vida moderna parece mover-se ao mesmo ritmo vertiginoso do comboio Alfa- Pendular que me traz de volta do Oriente até casa. Com o nariz colado ao vidro da janela, os minutos, a paisagem e as cores esfumam-se num instante tão breve que nem sei se instante lhe podemos chamar. Indiferente, o comboio segue a uma velocidade estonteante como alguém que persegue em desespero um objetivo insaciável que lhe escapa por entre os dedos.

Dos lugares por onde passa guarda apenas uma impressão fugaz, um turbilhão de cores e formas que se misturam, uma tontura que se repete sem descanso até se tornar finalmente suportável. De fogacho em fogacho, ao sabor da pressa e da brevidade, eis que chega ao seu destino cumprindo o objetivo trivial de regressar a casa. Será suficiente? Há quem acredite que é urgente acompanhar este ritmo, deixando-nos conduzir pela maré.

Deve ter sido a pensar nisso que nos EUA, uma agência funerária criou um serviço para velórios em que as pessoas podem prestar homenagem aos mortos sem saírem do conforto do seu carro. O visitante dispõe de três minutos para assinar o livro de visitas, fazer as suas orações, dizer adeus e dar a vez ao carro seguinte. É desta forma que a morte passa a ter oficialmente um serviço mcdrive e, ao que parece, a ideia está a fazer moda espalhando-se por outras agências ávidas de novidades.

Três minutos de ligeira confrontação com a brevidade do corpo, três minutos que separam alguém do regresso ao esquecimento de uma forma de vida em que nem há tempo para se velar a morte. Não temos tempo! O estranho é que mesmo vivendo a uma maior velocidade o tempo parece cada vez mais escasso. Torna-se um absurdo pois dá impressão que à medida que acelaramos para alcançar os ponteiros de um relógio eles vão ficando cada vez mais distantes.

Séneca, abordando a ambição desmedida de Alexandre O Grande, afirmou: “Não é que ele queira prosseguir, na verdade ele não sabe estar parado.” Não estará grande parte da sociedade a padecer do mesmo problema de Alexandre? O silêncio é confrangedor, a inactividade inquieta, precisamos estar em constante movimento, ávidos, tal como Alexandre, para chegar a qualquer lugar. A que preço? Esta corrida frenética contra o tempo provoca danos mais cedo ou mais tarde.

Há uma inevitável deterioração da saúde mental, devido à elevada exposição ao stress, ansiedade e episódios depressivos, mas a pressa marcará também o ritmo e a profundidade dos nossos relacionamentos, da forma como pensamos e também da qualidade daquilo que sentimos. A insensibilidade não é apenas o resultado da crua indiferença de um coração endurecido, é também a simples consequência da falta de tempo e de paciência para observar, pensar, sentir e compreender.

E essa falta de sensibilidade retira a lucidez que permite valorizar devidamente o que possuímos e o que nos rodeia. Sem tempo, somos compelidos a ver as coisas e as pessoas de uma forma descartável e superficial, vemo-las não por aquilo que elas são, mas por aquilo que nos podem dar. É o egoísmo na sua mais pura expressão. A vida possui mecanismos próprios para nos chamar à razão, mas felizmente existem caminhos alternativos à tirania da velocidade, caminhos que nos instigam a abrandar o ritmo, a desenvolver o recolhimento e a atenção plena.

Roteiros que nos orientam na importância dos detalhes, sem os quais passaremos como cegos por cima, não apenas dos mais grosseiros sinais de alarme, mas também da poesia mais requintada que a vida nos pode oferecer. Roteiros que nos mostram os benefícios da arte de saber esperar, saber ouvir e meditar, sem os quais não aprenderemos a investir o tempo necessário para compreender a complexidade e a profundidade dos problemas que nos assolam a existência, conformando-nos à tona das aparências, suposições e ansiedades, acumulando pilhas de tralha emocional que carregamos inconscientemente.

A Doutrina Espírita é uma dessas alternativas da humanidade nesta era do nanossegundo. O caminho do Espiritismo é um trilho pedestre que nos faz percorrer e tocar a profundidade dos elementos que constituem a essência da vida. É uma jornada para a descoberta de quem somos a partir da compreensão do que somos e da nossa história evolutiva ao longo das múltiplas existências, é um convite ético de transformação íntima tendo por base um conceito mais transcendente do que é a vida, é uma forma de refinamento da sensibilidade ao despertar-nos na direção da fonte de onde provém toda a paz que ambicionamos.

A doutrina Espírita não é um atalho para a salvação nem uma forma rápida de entrarmos na elite dos iluminados que desfrutarão do regaço divino. Antes pelo contrário, é uma viagem íntima de iluminação e aprendizagem, uma voz que nos fala à razão e tranquiliza a nossa alma, que estimula a paciência e a compreensão, que procurando evidenciar a singularidade de que somos feitos mostra-nos mais claramente a complexidade e a transcendência de tudo à nossa volta.

O Espiritismo oferece-nos uma visão mais holística do mundo e da vida, não como um lugar competitivo, sufocante e ameaçador mas como uma oficina de Deus que exige todo trabalho, reflexão e amor, toda a atenção que lhe possamos dispensar para que, no tempo certo, façamos emergir o melhor que podemos ser. Texto: Carlos Miguel A maldição da pressa OPINIÃO Em plena era de domínio da tecnologia somos cada vez mais impulsionados a orientar as nossas vidas segundos os lemas: “De imediato!

”; “Instantâneo”; “Online”; “No mais curto espaço de tempo”; “Com o menor esforço possível”. foto loucomotiv NOVEMBRO.DEZEMBRO.2014 A bonita história de amor entre Chris e Annie é subitamente interrompida pela trágica morte dos dois filhos adolescentes. Lidando com o sofrimento de formas diferentes, Chris não consegue acompanhar o mergulho em apneia que Anne faz até às profundezas da sua angústia, mas mantém-se ao seu lado como o único suporte que a agarra à vida.

Só que, quando procurava socorrer uma vítima de um acidente de viação, ele é colhido por um carro desgovernado e morre também. A partir desse momento, passamos a acompanhar as suas peripécias na dimensão espiritual, desde a insistência em não abandonar Annie, passando pelo reencontro com os filhos e a interação com um mundo maravilhoso e plástico, limitado apenas à criatividade do seu pensamento e à qualidade do que sente.

Numa altura em que começava a adaptar-se a esta nova realidade, toma conhecimento do suicídio de Annie. Mesmo depois de o avisarem que é impossível retirá-la do lugar onde ela se encontra e que, mesmo se a encontrasse, ela nunca o reconheceria, Chris não se conforma em deixá-la sozinha e entregue à sua loucura, partindo numa arriscada viagem a um mundo de dor e desespero com o único propósito de encontrar e despertar o amor da sua vida.

“Para Além do Horizonte” não é apenas um filme que retrata de uma forma visualmente deslumbrante o mundo espiritualrecebeu o Óscar de Melhores Efeitos Especiais em 1999 - ele procura também nos fazer refletir sobre a morte e mostrar as potencialidades do amor como a mais transformadora força que inunda o Universo. Ele levanta ainda algumas questões interessantes para refletirmos do ponto de vista espiritual. Uma delas é a ideia de um mundo espiritual ideoplástico.

Este não é um conceito absurdo, aliás, é coerente com os princípios Espíritas. A matéria existe em estados que nós nem imaginamos. As dimensões espirituais têm também a matéria como parte da sua constituição. Matéria quintessenciada e de uma subtileza que não é possível descrever e que se encontra mais próxima da essência do princípio cósmico universal. Mas por ser subtil e passar despercebida para a grande maioria das pessoas, não quer dizer que também o seja para os Espíritos desencarnados.

Despidos dos condicionalismos mais grosseiros que o corpo físico apresenta, para os Espíritos ela tem uma aparência tão material quanto os objectos tangíveis têm para nós. Devido à sua natureza etérea, essa forma de matéria é extremamente susceptível de ser moldada pelo pensamento e pela vontade. É por isso que Allan Kardec em “O Livro dos Médiuns” diz que, basta ao Espírito pensar em alguma coisa para que ela se produza.

Pelo pensamento e pela vontade, os espíritos agem sobre aquilo que os rodeia. É uma forma de ideoplastia que pode ser consciente ou inconsciente, ou seja, pode ser mais ou menos dependente da vontade e pode ter um efeito mais ou menos acentuado. Outra questão predominante neste drama é o suicídio. Liberto do corpo pela porta do suicídio, o Espírito fica despido diante da sua dor. O desequilíbrio mental e a sua perturbação são tão doentios, que ele chega a confundir-se com esse sofrimento.

Deixa de haver consciência para existir apenas dor e desespero. Não é possível falar deste filme e deste tema sem lembrar o ator que protagonizou: Robin Williams. De sorriso contagiante e olhar irreverente, deliciou e inspirou o mundo em filmes extraordinários como “Despertares”, “Clube dos Poetas Mortos”, “Patch Adams”, “O Bom Rebelde”, “Bom dia Vietname” e tantos outros que coleccionou ao longo de quase 40 anos ligados ao cinema.

Em Agosto, o nosso planeta acordou mais pobre sem o seu sorriso. Neste filme, a perturbação de Annie foi atenuada pelo amor de Chris que nunca desistiu de lutar por ela mesmo tendo de enfrentar os mais tenebrosos cenários que o desespero pode criar. Que todos os momentos fantásticos, as gargalhadas, as lágrimas e a inspiração que Robin Williams ofereceu ao mundo, possam agora chegar até ele em forma de lembranças agradáveis e preces de agradecimento e comoção.

Que elas sejam a luz que o guie na direção da lucidez, serenidade e da compreensão de algo que ele mesmo nos mostrou neste filme: A vida e o amor vão muito para além do horizonte. Título Original: “What Dreams May Come” Realizado por Vincent Ward EUA, 1998 - 113 min. Com: Robin Williams, Cuba Gooding Jr.