Opinião
Jornal de Espiritismo nº 67 · Setembro 2014Página 144 min
De acordo com as palavras de Emmanuel, o Espiritismo deve orientar-se pelo reviver do Cristianismo. Mas para esse propósito importará perceber como se organizaram os primeiros cristãos? Será que tais organizações podem servir de referência às atuais associações espíritas? Por intermédio da mediunidade de Chico Xavier sabemos ter sido em Cafarnaum que se juntou a primeira comunidade de cristãos, contando no imediato com forte adesão popular.
Refere Emmanuel que eram muitos os “apóstolos abnegados de sua doutrina de renúncia, de sacrifício e de redenção.” Nesta fase inicial, as tarefas eram sobretudo de dois tipos: a pregação pública nas sinagogas e a cura de enfermos nos espaços privados. (H2000A; 175) Contudo, rapidamente o grupo se terá deslocado para a saída da cidade de Jerusalém, no caminho para a cidade portuária de Jope. Precisamente por se fixarem junto ao trilho, ficariam conhecidos pelos “homens do Caminho”, que Emmanuel esclarece ser a primitiva designação do Cristianismo (PeE; 35).
As características arquitectónicas do espaço, sob responsabilidade de Simão, são sumariamente descritas como um “… casarão de grandes proporções, aliás paupérrimo em sua feição exterior” (PeE; 36). Instalações paupérrimas a abrigar trabalhadores que se repartiam nas tarefas de apresentação pública dos princípios cristãos e amparo privado a enfermos; eis os primeiros pilares. A pioneira Casa do Caminho estava criada e rapidamente cresceria e se especializaria.
Como foi? Sabe-se que a sociedade judaica se revelava intransigente para com os infortunados, pelo que o número de necessitados crescia em muito. Às tarefas de pregação pública e amparo aos doentes, somava-se agora a rotina em que, à “hora habitual das refeições, extensas filas de mendigos comuns imploravam a esmola da sopa.” Perante o avolumar de solicitações, “João considerou irrazoável que os discípulos diretos do Senhor menosprezassem a sementeira da palavra divina e despendessem todas as possibilidades de tempo no serviço do refeitório e das enfermarias...
”. Nova tarefa se somava, assim, às anteriores: - o amparo aos esfomeados. E a especialização começava a ser necessária. Mais tarde, já com Paulo de Tarso a sugerir práticas complementares, as reuniões nocturnas introduziam o intercâmbio mediúnico. É novamente Emmanuel quem relata que “Diariamente, à noite, havia reuniões para comentar uma passagem da vida do Cristo; em seguida à pregação central e ao movimento das manifestações de cada um, todos entravam em silêncio, a fim de ponderar o que recebiam do Céu através do profetismo.
Os não habituados ao dom das profecias possuíam faculdades curadoras, (…) aproveitadas a favor dos enfermos, em uma sala próxima. O mediunismo evangelizado, dos tempos modernos, é o mesmo profetismo das igrejas apostólicas. (…) Ao fim dos trabalhos de cada noite, uma prece carinhosa e sincera assinalava o instante de repouso” (PeE; 260). A comunicação mediúnica passava a ser prática admitida. Às tarefas de pregação pública e amparo aos doentes, somava- -se agora a rotina em que, à “hora habitual das refeições, extensas filas de mendigos comuns imploravam a esmola da sopa.
Somente alguns séculos mais tarde vamos encontrar novo retrato das organizações cristãs. Em Avé Cristo “Os serviços de amparo e educação à infância, de conforto aos velhinhos abandonados, de sustentação dos enfermos, de cura dos loucos, distribuíam-se em departamentos especiais, expandindo-se, assim, em moldes mais completos, a primitiva organização apostólica de Jerusalém, na qual as obras de amor do Cristo, junto aos paralíticos e cegos, leprosos e obsessos, encontraram a melhor continuidade.
” (AvC; 41). Em suma, podemos sintetizar as tarefas típicas de um espaço cristão a apresentação pública dos princípios doutrinários, amparo aos enfermos, esfomeados e a cura de loucos, a orientação através da comunicação mediúnica, o amparo à educação e infância, e de idosos abandonados. Afinal, não muito diferentes do que fazem hoje as casas espíritas! Por Hugo Batista e Guinote foto loucomotiv NOVEMBRO.DEZEMBRO.2014 dos numa cadeia dedutivacomo também «O Livro dos Espíritos» - método filosófico por excelência.
Para tanto se supõe que tenha estudado Aristóteles. Escreveu «A Génese» - e não apenas reveloua partir de raciocínios a priori, portanto lógicos, sem apoio no método experimental. «A Génese» constitui pois uma obra essencialmente filosófica, dada a natureza da sua temática, assim como o método dedutivo aplicado, próprio da filosofia. Eis o Kardec filósofo, intuitivo e lógico, e não apenas observador passivo dos fenómenos exteriores.
Reabilita assim a metafísica através da lógica e não só a reflexão teológica, como na Escolástica. O fato de Kardec partir de «A Génese», ou seja, da parte metafísica, já é um ponto de partida para explicar de forma lógica «O Livro dos Espíritos», que inicia com as causas primeiras. Ele escreveu por si mesmo e nisto se revela a sua verve filosófica. Ele participou dos textos da Codificação e, portanto não foi apenas um codificador, mas um Espírito de luz, como disse o irmão Z.
e que viria secundá-lo. Portanto não resta dúvida sobre a personalidade de Kardec, que se não é filósofo académico, sua visão sim é filosófica. São coisas diferentes sem par, mas que diferem na alma e não no título académico. Esta é a visão de Kardec nas próximas décadas, quando o perceberem como filósofo em magnitude e não por títulos do mundo. Kardec foi um homem singular de elevado senso ético, amplos e diversos saberes que soube utilizar o novo conhecimento que se estruturava para aplicá-lo no aperfeiçoamento moral das pessoas e contribuir para uma vida melhor no nosso mundo.
Por Astrid Sayegh, Doutora em Filosofia, professora e escritora. Kardec filósofo?
